JORNAL MOVIMENTO
uma reportagem

CARLOS AZEVEDO

com reportagens de

Marina Amaral e Natalia Viana

ACOMPANHA DVD COM AS 334 EDIÇÕES DO JORNAL

1ª. edição Belo Horizonte/MG

2011

Ao longo de sua história, a imprensa brasileira passou por vários momentos de grave cerceamento da liberdade de expressão, e em todos eles soube mostrar dignidade e coragem.

Houve inclusive publicações que surgiram em pleno regime de exceção, especialmente durante o mais recente período autoritário (1964-1985), trazendo a resistência como marca de nascença. Eram publicações pequenas, sem grandes recursos para assegurar sua sobrevivência num ambiente absolutamente adverso (além da censura propriamente dita, sofriam, por parte do regime, o bloqueio de publicidade e, frequentemente, a violência de atentados e agressões). Souberam, com formidável galhardia, carregar as melhores bandeiras das reivindicações democráticas.

Daí a relevância deste projeto, que conta a história do semanário Movimento, que circulou entre 1975 e 1981. Numa etapa em que a censura imperava, a luta de pequenas publicações como Movimento contra a máquina de impor silêncio era de uma audácia formidável. Foi imensa sua importância e sua influência ao trazer à tona vários temas que geraram debates enriquecedores.

A Petrobras é a patrocinadora do projeto de resgate da história do semanário Movimento. Somos uma empresa que aposta no futuro. Por isso sabemos da importância de se conhecer nosso passado.

Tendo como missão primordial, desde que foi criada, contribuir para o desenvolvimento do Brasil, a Petrobras segue rigorosamente esse compromisso em seu dia a dia. Damos nossa contribuição apoiando a indústria pesada brasileira, aprimorando nossos produtos, expandindo nossas atividades para além das fronteiras, desenvolvendo tecnologia de ponta e patrocinando as artes e a cultura. Além de maior empresa do Brasil, somos também os maiores patrocinadores culturais. E fazemos isso observando sempre nossa missão primordial.

Afinal, um país que não respeita sua cultura, que desconhece o seu passado, jamais será um país desenvolvido.

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II

JORNAL MOVIMENTO UMA REPORTAGEM Carlos Azevedo, coordenador Marina Amaral, produtora Natalia Viana, redatora Juliana Sartori, historiadora Leticia Nunes de Moraes, recuperação da coleção Caio da Costa Carvalho, degravação das entrevistas Pedro Ivo Sartori, editoração gráfica Álvaro Caropreso, indexação do DVD Fabiano Bezerra, aplicativo do DVD Chico Max, diretor de arte OK Linguística, preparação, revisão e índice onomástico Neuza Gontijo, administração

Capa Chico Max, a partir de desenhos de Elifas Andreato e Jayme Leão

EDITORA MANIFESTO S.A. Presidente Roberto Davis Diretor vice-presidente Armando Sartori Diretor administrativo Marcos Montenegro Diretor editorial Raimundo Rodrigues Pereira Diretor de relações institucionais Sérgio Miranda Todos os direitos reservados à Editora Manifesto S.A. Rua do Ouro, 1.725 – 2º andar – Serra CEP 30210-590 Belo Horizonte/MG Tel. 31 3281-4431 administração.bh@oficinainforma.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Azevedo, Carlos Jornal Movimento : uma reportagem / Carlos Azevedo ; com reportagens de Marina Amaral e Natalia Viana. -- 1. ed. -- Belo Horizonte, MG : Editora Manifesto, 2011.

Acompanha DVD com as 334 edições do jornal.

1. Jornal Movimento 2. Jornalismo 3. Repórteres e reportagens I. Amaral, Marina. II. Viana, Natalia . III. Título.

11-05774 CDD-070.43

Índices para catálogo sistemático:

1. Jornal Movimento : Reportagens : Jornalismo

070.43 ISBN 978-85-99785-17-1

APRESENTAÇÃO

O jornal Movimento foi uma das mais extraordinárias criações do movimento democrático e popular brasileiro na luta contra a ditadura militar dos anos 1964-1984. Surgiu em meados de 1975, num momento em que o regime ditatorial desenvolvia uma operação tática de grande amplitude: a “distensão lenta, gradual e segura” comandada pelo presidente general Ernesto Geisel e seu grande estrategista e chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva.
Um dos lances mais destacados da “distensão” foi a suspensão da censura prévia a O Estado de S. Paulo. O grande diário conservador apoiara o golpe militar de 1964. Mas não aceitara a censura prévia, que se fazia através de comunicados da Polícia Federal com listas de assuntos proibidos. Para poder continuar existindo, o jornal acabou por aceitar censores federais dentro da própria redação.

No início de 1975, o governo retirou os censores do Estadão. E suspendeu os comunicados de censura da PF para os outros grandes jornais. Mas manteve a repressão policial e a censura a periódicos mais combativos selecionados. Ou seja: a ditadura recuava; mas com o claro propósito de se fortalecer no campo conservador e isolar as forças mais progressistas.

Movimento se formou sob a liderança de um grupo de jornalistas e de deputados do chamado grupo “autêntico” do PMDB que discordava da avaliação de que o general Geisel levaria o País à democracia e faria um governo ligado aos interesses nacionais.

O semanário apoiou-se decididamente nos movimentos populares. Foi lançado a partir de uma empresa formada com pequenas contribuições em dinheiro de cerca de 500 pessoas. Além de ser vendido em bancas, suas assinaturas e seus números avulsos foram vendidos em algumas dezenas de cidades do País, semana após semana, por centenas de jovens militantes, de praticamente todas as correntes políticas que resistiram à ditadura, durante seis anos e meio, de seu número 1, de 7 de julho de 1975, ao seu número 334, de 23 de novembro de 1981.


Jornal Movimento, uma reportagem
, de Carlos Azevedo, com reportagens de Marina Amaral e Natalia Viana, que lançamos agora, destaca a grande importância do semanário. E, além do mais, vem acompanhado de DVD com a reprodução integral de todos os números de Movimento, mesmo os que foram totalmente censurados.

Por certo, o livro provocará debates. E a nossa intenção ao publicá-lo é exatamente provocar debate. Mas um debate específico: por que, hoje, em condições aparentemente muito mais favoráveis, depois de mais de oito anos de governos eleitos pelo campo democrático-popular, não se tem um jornal como Movimento? Por que o movimento democrático-popular não tem hoje um jornal com uma expressiva redação de profissionais, com várias sucursais pelo País, com correspondentes no exterior, com centenas de apoiadores e propagandistas ativos, com muitos milhares de leitores, como foi Movimento?

A resposta de muitos, claramente insuficiente, é a de que o movimento democrático e popular se uniu porque a ditadura o forçou a unir-se. Como se, hoje, não fosse mais necessária essa unidade. Ou como se a própria imprensa democrático-popular fosse hoje desnecessária.

No nosso entendimento, é evidente a necessidade de se desenvolver no País, hoje talvez mais do que antes, a imprensa democrático-popular. Esse tipo de imprensa tem longa tradição. Remonta à chamada Primavera dos Povos, às Revoluções de 1848, quando as promessas liberais de “liberdade, igualdade e fraternidade” das revoluções burguesas de décadas passadas eram negadas na prática pelas condições de vida e de trabalho das massas populares nas fábricas das grandes cidades surgidas com o desenvolvimento e a consolidação do capitalismo.

A imprensa liberal se consolidou em modelos bem definidos, como o diário de notícias The Times, de Londres, de 1788, a revista semanal de informações The Economist, da burguesia industrial inglesa, de 1843, e posteriormente os jornais “populares” de Hearst e Pulitzer, nos Estados Unidos da América, mais para o final do século.

A imprensa democrático-popular surgiu da necessidade do movimento dos trabalhadores de ter jornais que se distinguissem dessa imprensa. Nasceu como uma imprensa de luta pelos direitos dos trabalhadores. E, no início do século 20, na medida em que os partidos social-democratas europeus, antes ligados aos trabalhadores, se associaram às suas elites na guerra imperialista por colônias e mercados, tornou-se também uma imprensa de luta pela defesa da soberania das nações pobres e espoliadas pelo capital financeiro.

A despeito de todos os seus erros, Movimento foi um exemplo do esforço de unir as diversas correntes do campo democrático-popular. Foi, além disso, um semanário de alta qualidade. E isso numa época em que a imprensa semanal do grande capital involuia. O Economist tinha como lema disputar a inteligência do leitor. A revista Time, o grande semanário americano, fundado em 1923, já foi uma cópia piorada do Economist.

E o semanário Veja, fundado no Brasil em 1968, acabou se tornando uma cópia piorada dessa cópia americana.

Pode-se dizer que Movimento surgiu junto com um grande movimento de massas. Esse movimento desmantelou os limites impostos pela “distensão lenta, gradual e segura” da dupla Geisel-Golbery, derrotou a censura e, afinal, forçou a ditadura a um recuo maior. Com a queda da censura, Movimento cresceu. Depois, perdeu impulso e foi fechado.

O movimento de massas teve outra história. Não foi suficiente para tomar o poder político no País. Acabou se dividindo quando a distensão organizada pela ditadura se transformou, em 1985, num governo de transição para a saída organizada dos militares do poder. E só chegou ao poder político em 2003, depois de ter relegado ao segundo plano o movimento das ruas contra o governo liberal. E, após ter divulgado uma Carta aos Brasileiros, que foi, no final das contas, um grande compromisso com o capital financeiro internacional.

Em 2005, ao reeditar nossa enciclopédia dos problemas brasileiros que é o livro Retrato do Brasil, redigido inicialmente no final do regime militar, nós dissemos: o País saiu da ditadura militar para cair sob a ditadura do capital financeiro. Paga as maiores taxas de juros do mundo. E as suas remessas de lucros e dividendos para o exterior estão na quase inacreditável faixa de 30 bilhões de dólares anuais.

E é por isso que nos perguntamos agora: se o Brasil está, de novo, sob uma ditadura, mesmo que disfarçada, por que não unir, de novo, as forças democráticas e populares?

Editora Manifesto, São Paulo, maio de 2011

 

JORNAL MOVIMENTO, uma reportagem

 

“A tormenta do combate ainda está aqui nessa praça;

o horror ainda é visível; a convulsão das escaramuças está aqui petrificada; isso vive, isso morre, foi ontem. As paredes agonizam, as pedras tombam, as brechas gritam; os buracos são feridas; as árvores curvadas e arrepiadas parecem fazer força para fugir.”

Victor Hugo, em visita às ruínas de Waterloo,

40 anos depois da batalha (em Os Miseráveis).

 

Objetivos, métodos e critérios


Jornal Movimento, uma reportagem é um trabalho sobre um dos mais notáveis exemplos da imprensa popular e democrática de nossa história recente. Popular porque a chamada imprensa alternativa, que alcançou grande repercussão e prestígio na década de 1970, foi construída pelo esforço e recursos de jornalistas, intelectuais, estudantes e trabalhadores, apoiada por um público leitor progressista, por uns poucos pequenos e médios empresários, e à margem de investimentos capitalistas. E democrática porque, no plano imediato, foi uma resposta à necessidade de manifestação de opinião e de articulação de amplos setores da sociedade, em oposição à ditadura militar que vigorava no País. Movimento
, em suas 334 edições, publicadas ao longo de seis anos e meio (de julho de 1975 a novembro de 1981), retrata um momento de grande riqueza histórica, em que as classes e camadas sociais que necessitam de mudanças para se desenvolver compõem uma frente muito ampla, conquistam várias vitórias e impõem o recuo do regime ditatorial.

Aqueles anos terríveis e também magníficos de sacrifícios e superação de uma geração conservam-se lá, ao longo de 8.600 páginas, como o cenário de um campo de batalha eternizado. E podem ser revistos como num filme cheio de emoção e suspense, através das reportagens, artigos, debates, polêmicas, capas e ilustrações, e das cartas de seus leitores, sempre muito participantes.

Este livro, além de referir-se ao conteúdo do jornal, registra outros aspectos da sua vida difícil: o enfrentamento da censura e da repressão; a contínua busca pela democracia em suas relações internas e as divergências que teve de enfrentar; a luta permanente pela independência e o esforço extremo para sobreviver à escassez de recursos e às sabotagens terroristas.

As páginas de Movimento constituem, com certeza, um dos mais lúcidos e detalhados retratos daquela época. Por isso, além do livro, esta obra contém um DVD com toda a coleção de Movimento digitalizada, o que é um convite para os pesquisadores e todos interessados na história da luta contra a ditadura e no jornalismo combatente vivido por uma geração.

O método escolhido foi o da reportagem, da pesquisa dos acontecimentos que marcaram aquele momento histórico, da maneira como eles foram refletidos e interpretados pelo jornal e de como sua presença e seu testemunho repercutiram na sociedade.

Consciente da passagem do tempo (35 anos) e das consequências que essa circunstância acarreta sobre o trabalho, as mais importantes, a progressiva perda da memória pessoal, a deterioração e extravio dos documentos, por um lado, e o esvanecer (ou não) das paixões, as alterações nas convicções políticas e pessoais, pelo outro, nossa equipe definiu alguns critérios.

Primeiro, dar fé aos documentos escritos: ou seja, trabalhar com os registros da vida interna do jornal, atas, relatórios, comunicados, correspondência.

Isso foi feito por meio de pesquisa no arquivo pessoal de Raimundo Rodrigues Pereira, doado ao Arquivo Público do Estado de São Paulo; nos documentos sobre a vida financeira do jornal preservados no arquivo do Instituto Sergio Motta; em documentos dos arquivos pessoais de Sergio Buarque de Gusmão, de Flávio de Carvalho, Luiz Bernardes, de Bernardo Kucinski e os doados por Duarte Pereira ao Arquivo Edgar Leuenroth, da Unicamp.

A consulta ainda abrangeu os documentos oficiais do regime militar, sobre sua política e ações em relação à imprensa alternativa e especificamente a Movimento, pertencentes ao Ministério da Justiça e organizados no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.

Além disso, foi feita uma leitura exaustiva das 334 edições que formam a coleção do jornal, de outros jornais do período, de dezenas de livros e várias teses de mestrado e doutoramento.

Também se tentou trabalhar com o material cedido ao Arquivo da Prefeitura do Rio de Janeiro, que abriga os milhares de textos de Movimento impedidos de ser publicados pela censura do governo. Mas esses documentos encontravam-se em processo de organização, o que tornou a pesquisa pouco frutífera.

Paralelamente, a equipe tomou como referência cerca de 60 entrevistas realizadas com participantes, colaboradores e apoiadores de Movimento.

Os valores referentes à economia do jornal são apresentados em reais de janeiro de 2011, atualizados de acordo com o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) da Fundação Getulio Vargas.1

O jornalista e ex-militante político Carlos Azevedo (Carlos Alberto de Azevedo), que foi o coordenador deste trabalho, teve alguma participação na história do jornal. Quando pertinente, é citado na terceira pessoa do singular.

1 Esses vários links de atualização consultados apresentam valores aproximados: http://www. fee.tche.br/sitefee/pt/content/servicos/pg_atualizacao_valores.php; http://www4.bcb.gov.br/pec/ correcao/corrige.asp; http://portalibre.fgv.br/

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Xilogravura de Rubem Grilo, 1978

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Capa da primeira edição, 7 de julho de 1975

Já nasceu sob censura

O jornal Movimento chegou às bancas pela primeira vez em 7 de julho de 1975, uma segunda-feira. E nasceu feio. A capa não convidava o leitor, dava a impressão de que nem fora paginada, toda negra. Logo abaixo do logotipo com o nome do jornal, vazado em branco, lia-se “Ano 1 nº 1 Cr$ 5,00”.1 Mais nada, nem data trazia. Na metade superior, sobre o fundo negro, uma foto obscura, um homem em pé, o rosto não aparecia, parado entre os trilhos de uma estrada de ferro. Havia papéis rasgados, pedaços de pau e objetos espalhados ao redor; um relógio de parede, amassado, jazia junto a um dormente, com os ponteiros paralisados às 4 horas e 55 minutos. À esquerda da foto, uma legenda na vertical que, posta às pressas, ficou torta, e em pequenas letras brancas dizia: “Central do Brasil, Rio”. Na metade inferior da página, se lia: “cena brasileira: SUBÚRBIO CARIOCA por Aguinaldo Silva”. Na parte de baixo, duas chamadas de matéria dançavam soltas na escuridão de tinta.

Vinte e um mil leitores o compraram. Gravemente mutilado pela censura prévia, ainda assim aquele era um jornal ansiosamente esperado. Grande parte dos que o compraram sabia que o que estava ali não era apenas um jornal, mas o retrato de uma batalha, da luta pela liberdade de opinião. Adquiri-lo era uma tomada de posição e um ato de apoio.

Que Brasil era esse de 1975 em que esse jornal estreava estropiado? A ditadura militar que havia derrubado o Estado de direito acabara de completar onze anos. Em longo processo de repressão e crimes contra os direitos humanos, havia liquidado a oposição, inclusive as tentativas de resistência armada, e tinha o controle completo do País. Como uma onda poderosa, ocupara toda a praia.

Porém, já começava a refluir. A bonança da economia capitalista do período pós-Segunda Guerra chegava ao fim. Os Estados Unidos foram levados a romper os acordos de Bretton Woods que garantiam o dólar com

1 Equivalentes a R$ 8,50 em janeiro de 2011 (IGP-DI FGV).

as reservas americanas de ouro. Uma inflação expressiva passou a atingir sua moeda. E, para sair da crise, a potência central do mundo capitalista promoveu uma violenta elevação dos juros. Os países produtores de petróleo se defenderam impondo brutal aumento aos preços do óleo. O Brasil, dependente de empréstimos e importador de petróleo, fora colhido no contrapé, registrava endividamento crescente e ficara sem capitais para investimentos. A população ressentia o empobrecimento.

A tentativa de institucionalização do regime militar brasileiro, ensaiada com as eleições de 15 de novembro de 1974, resultara numa derrota eleitoral espetacular, para surpresa inclusive do próprio partido de oposição consentida. O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) elegeu 16 em 22 senadores e sua bancada na Câmara Federal saltou de 87 para 160 deputados. Além disso, passara a ser maioria em inúmeras assembleias legislativas. O eleitorado havia se posicionado maciçamente contra o governo. Essa derrota causou inconformidade nas Forças Armadas, principalmente nos setores diretamente ligados aos organismos de repressão, que passaram a acusar o governo de complacência com a oposição.

Tentando evitar o isolamento e dar sequência a um recuo lento e organizado, ao qual deu o nome de “distensão”, o governo manobrava. Procurava recuperar aliados perdidos nos meios civis, por isso, em janeiro de 1975, liberou da censura o jornal conservador O Estado de S. Paulo, e suspendeu o envio de listas de assuntos proibidos a todos os outros grandes jornais. Ao mesmo tempo, porém, voltava a fazer o uso do AI-5 para punir parlamentares. E, para vingar-se da derrota eleitoral, desencadeou uma onda de prisões contra o Partido Comunista Brasileiro (PCB), acusado de infiltração no MDB.

Apesar disso, em fevereiro, circulava o primeiro de uma série de panfletos intitulados “Novela da Traição”, que acusavam o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil do general presidente Geisel, de ser responsável pela derrota eleitoral e por dar espaço à “subversão”. Em maio,

o jornal francês Le Monde noticiava:

A direita militar tenta reagrupar suas forças contra o governo

Geisel (...) circulam panfletos nos quartéis e escolas de oficiais

para denunciar “a traição da Revolução de 1964” e conclamam

“os chefes militares e civis a reagir quando chegar o momento”.

As tensões se acentuavam dentro do regime.

É nesse ambiente que Movimento estreia. O lançamento do novo semanário não recebeu destaque da grande imprensa, na melhor das hipóteses houve pequenas notas registrando a inédita censura prévia imposta ao seu número um. A censura era o sinal de que o governo não o subestimou. Ainda no final de junho, Edição S/A, a editora criada para fazer o jornal, levara a público um folheto de oito páginas fazendo propaganda do seu lançamento. Os 70 mil exemplares haviam sido distribuídos em universidades, em bancas de jornais, e entregues a jornalistas e colaboradores. O governo leu atentamente o folheto.

Já nasceu sob censura

Em despacho com o presidente em 1º de julho de 1975, o ministro da Justiça, Armando Falcão, anotou:

Sobre o novo jornal, Movimento, dirigido por um grupo de elementos esquerdistas, entre os quais o ex-deputado Francisco Pinto, determinei ao Departamento de Polícia Federal as seguintes providências:

1 – Apreensão do primeiro número do jornal, com circulação anunciada para o próximo dia 7 2 – Instauração de inquérito policial, para enquadramento na

Lei de Segurança Nacional 3 – Estabelecimento de censura prévia. Motiva este procedimento o fato de o jornal, no espelho que

chegou ao meu conhecimento, estampar matéria em que se ensina como incendiar vagões da Central do Brasil, incitando, pois, o povo à depredação de trens (a PF descobriu ontem que exemplares do jornal já estão circulando em universidades)2

Na tarde do mesmo dia, a redação na rua Virgílio de Carvalho Pinto, 625, no bairro de Pinheiros, São Paulo, funcionava a pleno vapor. Preparava o jornal de número um, a ser lançado na semana seguinte. Em meio ao burburinho da redação – telefone, máquina de escrever, discussões –, Sérgio Buarque de Gusmão, editor de Nacional, ouviu um chiado de walkie-talkie:

Entra um cara meio gordo, chega bem no meio da sala e diz:

– Com licença.

Olhei para o Flávio Aguiar, na mesa em frente, ele fez aquele sinal de “já entrou, né?”.

– Sem rodeios, nós somos da Polícia Federal.

Aí, tinha uma coisa, essa coisa brasileira, com essa origem lusitana, que é um formalismo patético. O cara foi levar um ofício da Polícia Federal, para dizer que o jornal estava censurado com base no AI-5.

Ao mesmo tempo, outra equipe da PF visitava a gráfica onde o jornal iria ser impresso. A ordem era apreender o folheto de lançamento e enquadrar quem desobedecesse às ordens na Lei de Segurança Nacional. Se não se chegasse a um “acordo” sobre censura prévia, o número um seria também apreendido. Sérgio Buarque telefonou para o editor, Raimundo Pereira:

Ligamos para o Raimundo. Ele chegou, começou a reclamar,

o policial ligou pra alguém e falou:

Olha, o sujeito aqui tá criando caso... O Raimundo reclamava:

Como é que vocês vão censurar uma coisa que ainda não saiu? Mas não teve jeito, né? 3

2 Arquivo Nacional/Ministério da Justiça – Fundo DSI/MJ (Despacho com o Sr. Presidente). In: Souza, Maurício Maia. Henfil e a censura: o papel dos jornalistas. São Paulo, 1999. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicação e Artes, USP. 3 Entrevista de Sérgio Buarque de Gusmão em 21 de outubro de 2009.

As ordens, diziam os delegados da PF, vinham do próprio presidente Ernesto Geisel, que naquela manhã estivera com o folheto de propaganda do jornal nas mãos e o analisara junto com o ministro da Justiça.

Mais tarde, Antonio Carlos (Tonico) Ferreira, diretor responsável, e Raimundo Pereira foram “convidados” para uma reunião com o chefe da Polícia Federal em São Paulo, para estabelecer as condições para o jornal circular. Os jornalistas responderam que não admitiam acordo para o estabelecimento da censura. “Ela é um ato de força e dessa forma deve ser aplicada por decisão unilateral e arbitrária do presidente da República”. Exigiram documento legal da Polícia Federal com a decisão de censurar o jornal. Dois dias depois receberam o ofício 437/75, de 4 de julho de 1975, que dizia:

De ordem superior, levo ao conhecimento de V.S. de que a partir desta data, fica instituída a censura prévia no jornal semanário “Movimento” e, à vista dessa determinação, não poderá o mesmo ser distribuído sem a devida permissão desta Superintendência, sob pena de apreensão e da aplicação das medidas legais cabíveis no caso. Assinado: General José Guimarães Barreto, Superintendente Regional.4

CORPO A CORPO COM A CENSURA

Quem leu Movimento número um não pôde imaginar o tamanho da batalha que foi travada para aquela edição chegar às suas mãos. Na semana de lançamento, os editores e a equipe se revezaram entre a redação, a sede da Polícia Federal e as oficinas. O esforço para suprir os “buracos” da tesoura não foi pequeno; os censores vetaram nada menos que quatro propostas de capas do jornal, além de 18 matérias inteiras, 8 fotografias, 10 ilustrações e 12 charges.

O principal chamariz da edição de estreia, uma “Cena Brasileira” especial com quadros relatando histórias em várias partes do Brasil complementada por um ensaio sobre indicadores sociais, jamais chegaria às bancas. Outras matérias foram parcialmente cortadas; a Cena Brasileira “Bananas”, matéria não assinada, mas de autoria de Murilo Carvalho, teve

a.                     o lead, o “pé” e o “olho” vetados; a solução foi usar uma foto com aparência de rasgada ao meio para transmitir o fato ao leitor.

b.                     Pior: a exigência de entregar todo o material em um só lote atrapalhou o planejamento gráfico, que previa um fechamento em três turnos. No final,

b.            o jornal foi entregue à distribuidora Abril com 17 horas de atraso. Na segunda-feira, chegou apenas ao Rio, em São Paulo e outras poucas cidades; na maioria, chegou vários dias depois e até com mais de uma semana de atraso – caso da capital federal, Brasília.

Com tamanho atraso, a vendagem não foi a esperada. Movimento saiu com uma tiragem de 50 mil exemplares e a previsão de vender 30 mil no primeiro número. Vendeu 21 mil.

4 Arquivo pessoal de Sérgio Buarque de Gusmão.

Já nasceu sob censura

Meses depois, em um relatório enviado aos acionistas, a direção admitiria:

Nos surpreendeu a censura duplamente prévia; antes de cada número sair e antes do próprio jornal existir nas bancas. Sem dúvida fomos otimistas demais ao supor que o jornal teria algumas edições iniciais sem censura, em que se pudesse apresentar seu projeto inicial.5

Ou, nas palavras de Tonico Ferreira: “Minha maior frustração foi que não pudemos mostrar o projeto do jornal.”6

MUITA COISA PASSOU, E ERA BOM JORNALISMO

Entretanto, informações significativas ainda haviam conseguido passar pela censura. A matéria de capa era uma “Cena Brasileira”, aquela seção de reportagens sobre a vida e a luta do povo que tornaria célebre o jornal. “Subúrbio carioca”, texto de Aguinaldo Silva, narrava mais um quebra-quebra nos trens que saíam atrasados da Central do Brasil e dava significado à foto da primeira página:

A depredação começou metodicamente. Os passageiros desceram do trem, armaram-se de paus e pedras, e começaram a quebrá-lo (os gritos de “onde está o maquinista?” não obtiveram resposta: ele já havia sumido). Vidros, janelas, bancos foram quebrados e arrancados, amontoados dentro dos vagões e incendiados. Parte da multidão seguiu para a estação, de onde expulsou os funcionários da bilheteria, arrancando depois móveis e telefones dos lugares, e atirando-os sobre a linha. De um telefone público, numa rua próxima, aos berros, um funcionário da estação (que um usuário viu e preferiu ignorar), gordo e careca, e de camisa aberta ao peito (onde se podia ver uma guia de Ogum), gritava para o Serviço de Segurança da Central:

– Começou tudo outra vez! Começou tudo outra vez!

Um artigo sob a retranca “Ensaios Populares” saía em defesa dos direitos da mulher. Discutia a revisão do código civil, feita sem amplo debate e com participação popular zero, cujo resultado mantinha, por exemplo, a preponderância do homem sobre a mulher nas questões de família. O título: “Por que o marido?”.

À página 5, “A esfinge chamada distensão” era a abertura de uma matéria sobre a conjuntura política, de duas páginas, não assinada. Para o jornal, o MDB, por acreditar na política de distensão, havia ficado perplexo com o fato de o general Geisel haver usado o AI-5 para cassar o mandato do senador Wilson Campos, do partido do governo, acusado de corrupção, o qual o Senado havia recusado cassar. A matéria dizia que o MDB não havia decifrado a esfinge que era a política da

distensão, e que ela, agora, o devorava. A distensão era, afinal, a esfinge política que permitia sempre achar que a intenção do

5 Relatório aos acionistas nº 2, outubro de 1975. Arquivo pessoal de Sérgio Buarque de Gusmão. 6 Entrevista de Antonio Carlos Tonico Ferreira em 22 de outubro de 2009.

governo é a melhor possível, que sempre ele adotou uma opção

em vista de outra pior que poderia ter acontecido.

Assinada por Bernardo Kucinski, uma longa matéria trazia questões incômodas em contraposição ao “aplauso geral” sobre o acordo nuclear Brasil-Alemanha, tanto da oposição quanto da situação. Para o jornalista,

o sigilo nas negociações levantava dúvida sobre a seriedade da coleta de informações, já que os maiores especialistas do Brasil não haviam sido consultados. O fato de que os reatores importados da Alemanha traziam tecnologia da americana Westinghouse mostraria “os limites do rompimento” com os interesses norte-americanos. Além disso, a matéria estampava uma declaração do ministro alemão de tecnologia e pesquisa contradizendo o governo brasileiro: mesmo que não houvesse excedente de urânio, o Brasil teria que assegurar fornecimento à Alemanha.

E havia muito mais: denúncias de corrupção, de fraudes da multinacional Esso na venda de combustíveis, uma grande matéria sobre greves operárias na Argentina; a editoria de Cultura trazia o artigo “O nascimento de um regime”, de Paulo Sérgio Pinheiro, em que, utilizando referências de livros como 1964: Golpe ou contra golpe?, de Helio Silva, O governo Castelo Branco, de Luis Viana Filho, e outros, fazia um estudo sobre a origem da ditadura militar. Na página seguinte, uma resenha do livro A revolução dos bandidos, de Eric Hobsbawn. Nas últimas páginas, 23 e 24, contos de Hermilo Borba Filho e Moacyr Scliar.

Mesmo mutilado, o novo semanário trazia novidades e, sobretudo, um novo ângulo de observação da realidade para o leitor. Estimulava o debate político, a reflexão. Apesar do seu poder de retaliação, a censura havia deixado passar textos importantes. Sinal de que o governo já não podia fazer tudo que queria e que um jornal como Movimento tinha respaldo em setores significativos da sociedade.

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Capa da edição número 9, 1º de setembro de 1975. Desenho de Jayme Leão

Movimento nasce de Opinião

Cada redator, cada colaborador de Movimento chegou ao jornal por seu caminho pessoal e na certa o vê como uma passagem: não sendo como um castelo, de pedra e argamassa, que se constrói para ser eterno, um jornal é talvez como uma viagem. Assim começava o texto “Nasce um Jornal”, publicado no “número zero” de Movimento, na verdade, uma peça de propaganda na forma de uma edição preliminar de oito páginas em formato tabloide, com 70 mil exemplares de tiragem, destinada a conquistar acionistas e leitores. O objetivo, concretizar o projeto de um “jornal feito por uma empresa de jornalistas” que acreditavam que sua tarefa profissional era “não apenas descrever o mundo, mas ajudar a transformá-lo”.

Escrevendo na primeira pessoa do singular, o editor-chefe Raimundo Rodrigues Pereira explicava ao longo do editorial como, onde e por que nasceu a ideia de um jornal independente:

Para mim, a viagem começa em 1968, o ano das agitações de maio da França, da invasão da Checoslováquia, da ofensiva do Tet no Vietnã do Sul e do Ato Institucional nº 5 e do fechamento do Congresso, no Brasil. Em 1968, no jornalismo brasileiro estava se fazendo a equipe de Veja e se desfazendo a equipe da Realidade (...) O fim da primeira equipe de Realidade se devia a um desses dilemas a que sistematicamente chega uma equipe que cria um jornal para uma empresa e que, com o passar do tempo, e com o sucesso da publicação, começa a acreditar que a publicação é dela, não do dono. O resultado da crise foi que a equipe saiu e o dono ficou.

Na época, Realidade era a principal referência do bom jornalismo brasileiro, não apenas por suas reportagens, que desnudavam o País da ditadura militar, mas também pelo brilho e independência de sua redação, que se demitiu quando a interferência do patrão na vida da revista se tornou incontornável. Em parte, foi a partir da experiência em Realidade que nasceu o sonho do “jornal dos jornalistas”, das publicações sem patrão.

Raimundo Pereira em 1968 estava na revista Veja. Saiu em 1970, quando sentiu que não tinha mais condições de continuar seu trabalho. Em 1971 e 1972, comandou as edições especiais “Amazônia” e “Cidades” da revista Realidade. Nesse período, remanescentes da antiga equipe de Realidade, alimentando o desejo de autonomia, haviam criado a editora Arte & Comunicação, que fazia revistas independentes, Bondinho, Jornalivro, Grilo. Colaborador marginal dessa experiência, Raimundo imaginava a possibilidade de se fazer um jornal político junto ao pessoal da A&C.

No final de 1971 um grupo de editores e ex-editores da revista Realidade estava reunido em torno de um “boneco” (projeto gráfico) de Assuntos, uma publicação independente, a ser financiada em parte por seus editores. No grupo estavam quatro dos futuros editores de Movimento: Elifas Andreato, editor de arte da Abril Cultural, Dirceu Brisola, editor assistente de Veja no setor de política nacional, Antonio Carlos Ferreira (Tonico), jornalista e arquiteto, e eu.

Os quatro citados pelo editor-chefe faziam parte de um grupo maior, que incluía Eurico Andrade, repórter da equipe pioneira de Realidade, Dorrit Harazin, repórter da revista Veja, e Matias Molina, jornalista de Economia da Editora Abril. Juntos haviam concebido “Assuntos”, que Eurico Andrade imaginava como uma publicação de cunho político, um “Le Mondinho”, como dizia, referindo-se a uma combinação do “jornal dos jornalistas” dos franceses, o Le Monde, com o Bondinho dos brasileiros. Os dois grupos não chegaram a um acordo, a A&C faliu e a ideia ficou à espera de outras oportunidades.

Bernardo Kucinski, então amigo próximo de Raimundo, havia ido morar em Londres, onde conheceu o empresário Fernando Gasparian. Este também estava morando na capital inglesa, numa espécie de exílio, depois que seu amigo Rubens Paiva fora assassinado pela ditadura e ele mesmo sofrera ameaças de atentados. O empresário nacionalista queria fazer um jornal político no Rio de Janeiro. Kucinski mostrou-lhe um exemplar da edição do quarto aniversário de Veja, produzida por Raimundo a convite de Mino Carta, editor-chefe da revista, que, na apresentação, cobria Raimundo de elogios. Bernardo sugeriu que este fosse o editor do novo jornal. Gasparian reagiu positivamente.

A reação do grupo de Assuntos à proposta de Gasparian foi descrita detalhadamente no texto de Raimundo no número zero de Movimento:

Bernardo me indicou para editor de Opinião, que era então uma espécie de The New Statesman brasileiro na cabeça de Fernando Gasparian; o grupo que pensava em Assuntos viu no convite boa oportunidade. O sentimento geral (...) era mais ou menos o seguinte: sentia-se um certo cansaço do jornalismo de grande empresa; acreditava-se que a tarefa do jornalista não é apenas a de descrever o mundo, mas de ajudar a transformá-lo; e que as grandes empresas jornalísticas tinham se acomodado a uma situação de censura progressiva que vinha asfixiando a imprensa brasileira há algum tempo. Mas havia obstáculos para um acordo com o empresário:

O projeto de Opinião se atrasou um mês porque nós insistíamos em ter uma forma de assegurar a presença da redação em todas as decisões. Se queria ter pelo menos 49% das ações da empresa (...). Gasparian disse que não acreditava na possibilidade de sobrevivência de uma empresa que tivesse como donos muitos jornalistas. Garantiu que o fato de ele ter a propriedade jurídica de Opinião não significava que fosse dono das ideias do jornal. Concordou em fazer Opinião como um jornal que fosse propriedade intelectual de todos que o fizessem. Mas queria ter toda a propriedade jurídica.

A busca de alternativa foi infrutífera, prossegue o texto:

O grupo de Assuntos julgou que aquelas declarações não eram suficientes. Passou um mês procurando nova forma de capitalizar seu projeto. Não conseguiu; então tornou a procurar Gasparian.

Decidimos fazer Opinião nas bases propostas por Gasparian, para formar uma equipe e adquirir experiência até onde fosse possível. Depois, se a experiência fosse interrompida – uma possibilidade que já se antevia pelo fato de a redação não ter nenhum mecanismo de controle sobre o jornal – prosseguir com o projeto de ter uma empresa jornalística onde as pessoas que escrevessem, de fato e de direito, ou seja, também juridicamente, tivessem o poder de decisão para garantir a observação de suas idéias. Opinião foi lançado em 23 de outubro de 1972, num coquetel ao qual

Raimundo não compareceu, desagradando Gasparian logo de cara.

“Eu era muito purista, foi uma bobagem”, reconheceu o jornalista depois. O jornal foi pioneiro por se apresentar abertamente de oposição à ditadura, embora fortemente censurado, além de ser um exemplo de respeito à independência da redação. Como Raimundo reconheceu no texto do número zero de Movimento: Durante os 121 números em que a equipe de jornalistas que se organizou em torno daqueles editores do projeto de Assuntos esteve em Opinião, os termos do acordo com Fernando Gasparian foram cumpridos: o dono do jornal não foi simultaneamente o dono das suas idéias, mas concordou, ele também, em submeter à discussão da redação suas ideias e editoriais. Até que sobreveio a demissão do editor. O sonho do jornal independente esteve todo tempo vivo na redação de Opinião como se percebe em uma entrevista concedida por Raimundo, às vésperas do lançamento de Movimento, para outro jornal independente, o Ex, quando fez um balanço do desempenho de sua equipe em Opinião:

A principal coisa: nós desmentimos a grande imprensa. A primeira fase de Opinião foi a fase de demonstrar o que as grandes publicações não faziam, porque tinham escolhido a estratégia da adesão. Afinal é um jornal feito com 300 mil cruzeiros (capital inicial, equivalente a 916 mil reais de 20111) e que colocou a política em primeiro lugar. E só porque para lá convergiam alguns jornalistas independentes, mais uma série de intelectuais que não tinham outro lugar para escrever, em pouco tempo Opinião estava concorrendo nas bancas com as grandes publicações.

O novo semanário foi um sucesso de vendas, segundo a entrevista:

Opinião, até o número 24, foi de 28 mil pra perto de 38 mil exemplares vendidos. Veja estava vendendo pouco mais de 40 mil nas bancas, e Visão, nas bancas, vendia perto de 10 mil. A redação do Opinião chegou a ser uma das maiores do País, em termos de esforços mobilizados a favor dela. Fora do País, era um negócio maior ainda: tinha o Robert Kennedy mandando entrevistas, tinha essas grandes publicações estrangeiras cedendo direitos pro Opinião só porque o Opinião resistia à censura.

Raimundo concluía com uma avaliação positiva: “Fizemos 121 edições em 2 anos e três meses, mais 2 meses de preparação. Total de 2 anos e meio de trabalho no Opinião. Mais ou menos o tempo que durou a equipe de Realidade, um grande tempo.”2

A POLÊMICA DA DEMISSÃO

No dia 18 de fevereiro de 1975, Fernando Gasparian havia demitido o editor chefe Raimundo Pereira, alegando “problemas pessoais”, como reafirmaria na nota publicada na edição 122 de Opinião, na semana seguinte. A redação, que havia participado da fundação do semanário e contribuído para seu indiscutível sucesso, considerou a atitude incompatível com os princípios do jornal e a grande maioria se demitiu, sem deixar de fornecer sua própria versão do episódio: em uma nota lida na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a equipe insistia no conteúdo político da demissão em um momento delicado, quando se discutia o significado da distensão prometida pelo presidente Ernesto Geisel.3

1 Atualização por índice do IGP-DI FGV. 2 Entrevista de Raimundo Pereira ao Ex-12 em 12 de maio de 1975. 3 Nota de Gasparian, edição 122 de Opinião, 7 de março de 1975:

“Substituição

A direção de Opinião decidiu substituir o editor do jornal, o sr. Raimundo Rodrigues Pereira, e foi surpreendida com a demissão coletiva da redação. As razões da substituição do editor estão relacionadas unicamente a problemas de gestão interna do jornal.

Opinião representa um estilo de jornalismo íntegro e independente que não se baseia apenas na linha de coerência política e nos princípios profissionais da direção ou da redação. É um jornal

Alguns episódios vinham desgastando as relações entre Gasparian e o editor-chefe. Um exemplo foi a matéria publicada em dezembro do ano anterior na seção de política, como parte de um conjunto de perfis dos deputados do MDB eleitos em novembro. O texto relatava que o deputado Marcos Tito, do MDB mineiro, havia feito campanha se apresentando como “autêntico” e depois de eleito recusou essa condição, decepcionando os estudantes que o haviam apoiado. Gasparian não costumava interferir no trabalho editorial, mas considerou a matéria uma provocação (a redação não sabia, mas ele dera apoio material à campanha de Marcos Tito) e exigiu que o responsável, Luiz Bernardes, da sucursal de Belo Horizonte, fosse demitido. Raimundo foi investigar os fatos e concluiu que Bernardes havia escrito a nota “jornalisticamente” e se recusou a demiti-lo.

Outro episódio desgastante: o governo não se limitava à censura para tentar inviabilizar Opinião. Fernando Gasparian aprendeu isso quando se deu conta de que estava sendo de diversas maneiras boicotado pelo governo. Ficou indignado quando bancos oficiais como o Banco do Brasil recusaram-se a aceitar duplicatas da Editora Inúbia, que editava o jornal. Acabou por apelar para José Aparecido, que era representante do banqueiro e senador Magalhães Pinto, presidente da Arena, o partido do governo e um dos líderes destacados do regime. Ele era dono do Banco Nacional e foi por meio dessas relações pessoais que Gasparian conseguiu descontar suas duplicatas. Uma crítica feita pelos jornalistas de Opinião a Magalhães Pinto (sua cabeça teria a forma de um joelho) pode ter colocado Gasparian em dificuldades com o seu único banqueiro.

que não comporta personalismos: o penhor de sua posição está enraizado no público a que serve e na independência e firmeza política dos seus colaboradores.

A nova redação continuará, portanto, junto com os colaboradores e a direção, a servir seu público e abrigar nas páginas de Opinião as análises daqueles que lutam com intransigência pelas liberdades democráticas e por melhores condições de vida para o povo brasileiro. Esses princípios, que são inseparáveis de uma linha coerente de independência na defesa sem vacilações dos interesses nacionais frente à dependência estrangeira e da luta em benefício do povo contra a desigualdade social e econômica, constituem a razão de ser do nosso jornal. Apesar das divergências, a direção de Opinião agradece o muito que todos os jornalistas, que ora o deixam, fizeram pelo jornal e por nossa luta comum com seriedade, competência, dedicação e firmeza. Espera continuar a contar com sua ativa solidariedade na batalha que o jornal prosseguirá travando. Por outro lado, dispõe-se a apoiar a publicação que eventualmente venham a fundar, esperando que esta se paute pelos mesmos princípios que têm norteado este jornal, como fará com qualquer publicação capaz de ampliar a trincheira que Opinião estabeleceu e manterá”.

MANIFESTO DOS JORNALISTAS DEMISSIONÁRIOS:

“Aos leitores do Opinião e aos Jornalistas, Rio de Janeiro, 28-02-1975. O proprietário jurídico do jornal não é, simultaneamente, o dono de seu pensamento e orientação, mas concorda, também, em submeter à discussão suas sugestões editoriais (...) foram esse princípios de funcionamento democrático que possibilitaram ao jornal superar suas diversas crises e inclusive se fortalecer (...) No dia 18 passado, contudo, Fernando Gasparian comunicou ao editor Raimundo Rodrigues Pereira a decisão de afastá-lo do jornal. A posição irredutível do proprietário (...) sem aceitar as várias propostas de mediação que lhe foram oferecidas, inclusive a criação de um conselho editorial ao qual um alegado personalismo do editor ficasse subordinado, implicava (...) no rompimento da prática democrática do jornal. Em vista disso, a redação resolveu se afastar coletivamente de Opinião, com o propósito de constituir um novo jornal que abrigue as amplas correntes de opinião que compõem as forças democráticas do País...” (Citado em Jornalistas e revolucionários, Kucinski, Bernardo. 2ª ed. São Paulo: EDUSP, 2003.)

“FOI A QUESTÃO DO GEISEL”

O texto de Raimundo no número zero de Movimento citava sete incidentes entre o dono do jornal e ele. Mas antes sempre haviam chegado a um acordo, quase sempre intermediado por amigos de Gasparian e colaboradores como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, e um editor da Editora Abril, Pedro Paulo Popovic. Algumas vezes, a redação assumia o erro, como ocorreu quando uma matéria sobre um show de Chico Buarque e Caetano Veloso reproduziu palavrões ditos pelos artistas. “Nós vamos ser fechados por ter publicado um palavrão, isso é um absurdo!”, reagiu Gasparian. Às vezes era Gasparian quem cedia, como aconteceu quando pediu a Raimundo para ler as matérias antes de serem publicadas. “Respondi: ‘Então você põe outro editor, porque esse é o meu papel’, e ele voltou atrás”, lembra Raimundo.4

Para o ex-editor-chefe de Opinião, porém, não foram esses incidentes que provocaram a demissão. Gasparian sabia que todos, inclusive os militares, o consideravam pessoalmente responsável pelo que era publicado no jornal, mesmo quando estava em desacordo com a redação, como ocorria frequentemente quando o tema era a distensão promovida por Geisel:

“A briga mesmo foi a questão do Geisel, que Gasparian dizia ser nacionalista, e nossa postura colocando em dúvida a distensão prometida por ele”, opina Raimundo. “Nós fizemos duas matérias bem fortes para mostrar quem era Geisel de fato: uma, dos votos de Geisel quando era ministro no Superior Tribunal Militar (STM), e outra, sobre a política de exploração de petróleo da Petrobras. E o Gasparian queria pôr anúncio da Petrobras de graça no Opinião!”, lembra o ex-editor-chefe.

Nós não tínhamos a menor dúvida do caráter político da demissão, porque não estávamos fazendo isso de ingênuos.

Tínhamos uma posição política, estávamos disputando a orientação do jornal. Chegamos a dizer: “Nós também somos donos do jornal”, o que é uma ficção mas também tem a ver. O jornal não saiu daquele jeito da cabeça do Gasparian. Foi resultado de uma mobilização mais ampla, onde ele teve um papel ultra importante como criador do jornal, com o peso de seu nome, trazendo as grandes figuras que deram prestígio ao jornal.5

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lembra hoje que tentou interceder:

Eu sempre fui contrário ao divisionismo. (...) Tem que juntar, sempre foi a minha opinião, na vida, tem que agregar, não separar. Mas é muito difícil, porque ali tinham concepções políticas diferentes. Na verdade, o Opinião, na medida em que o Gasparian tinha influência, era um jornal mais nacionalista e mais interessado na questão institucional; enquanto que o Movimento era muito mais de participação ampliada, mais popular, essa coisa toda, e a questão nacional não era tão dramática quanto a questão social. Mas todos estavam no mesmo lado, estou dizendo aqui nuances.6

4 Entrevista de Raimundo Rodrigues Pereira em 9 outubro de 2009. 5 Entrevista citada.

AINDA A DEMISSÃO

O momento era delicado também para a redação de Opinião, traumatizada por deixar o jornal, como lembra Flávio de Carvalho, que foi editor de Internacional do semanário.

O Raimundo chegou na redação e disse: “Acabou”. Foi uma grande comoção... Estava terminando uma coisa em que todo mundo estava investindo, virava a noite fazendo o jornal, enfrentava a censura, era um sacrifício danado. Aquilo era a vida de todo mundo, a gente morava no Rio e ninguém ia à praia, o máximo de farra era comer pizza no (restaurante) Guanabara. Mas ali mesmo, já naquela reunião, combinamos que íamos tentar fazer outro jornal, em São Paulo.7

Além de superar o trauma e enfrentar a aventura de fazer um novo jornal sem os recursos financeiros e o respaldo político e intelectual de Gasparian, a redação enfrentava críticas de que estaria dividindo o movimento de resistência à ditadura.

Na entrevista citada, Fernando Henrique Cardoso lembrou: “No primeiro momento, fiquei contra dividir. Pra que dividir?” Ele achava que podia pôr em risco o Opinião e não conseguir concretizar uma alternativa. “(Poderia) ficar sem instrumento, sem a força do Opinião. Ficar sem um instrumento qualquer. Mas depois, dado que era inevitável, fiquei nos dois. Fui do conselho dos dois, escrevia nos dois...”

Daí a preocupação de Raimundo no texto do número zero de Movimento em demonstrar que haviam feito tudo o que podiam para reverter a decisão de Gasparian – “as discussões com Gasparian se prolongaram ao longo de vários dias” – e que as previsões de FHC não se confirmariam:

A possibilidade de transformar a crise em um acontecimento criativo para o País surgiu quando nós decidimos fazer Movimento e, além disso, quando a maioria da equipe se convenceu de que, a despeito de o dono do jornal ter tomado uma decisão fundamentalmente errada, se devia lutar por Opinião, ajudando-o a conservar princípios duramente conquistados.

Raimundo repetiu em entrevista em outubro de 2009 que a redação fez tudo o que pôde para manter-se em Opinião, oferecendo primeiro a possibilidade de formar uma comissão para editar o jornal e depois outro nome do time para substituir o editor-chefe:

Eu estou quase certo que houve até o seguinte: o cara de quem o Gasparian gostava pessoalmente era o Marcos Gomes (...). Eu já sou meio avacalhado hoje, se vocês me vissem na época, eu ia com uma bermuda, dormia no meio da minha sala com uma lauda com um buraco para deixar o nariz pra fora... E o Marcos estava sempre bem vestido, era um sujeito muito mais político, tinha sido dirigente da UNE, tinha política na cabeça, conversava muito com o Gasparian. Já nós éramos jornalistas e, assim, tinha uma coisa meio liberal anarquista, né?

Marcos Gomes opina que a diferença se dava primeiro talvez por minha experiência política. Eu, ainda que fosse uma pessoa muito jovem, o via (Gasparian) claramente como um aliado. E eu não estava a fim de escandalizá-lo de nenhuma maneira. Quer dizer, era um escândalo para ele o Raimundo ir para a redação de bermuda, toda esfiapada (...) Então, eu tinha uma boa interlocução com ele. Uma interlocução educada, desde cumprimentá-lo.

Luis Marcos Magalhães Gomes, então com 27 anos, de fato, já acumulara considerável experiência política. Havia tido intensa militância no movimento estudantil em Belo Horizonte. Foi eleito vice-presidente da UNE em 1966. Entrou para Ação Popular (AP), se deslocou para o meio operário, participou da organização das greves dos metalúrgicos de 1968 em Minas Gerais escrevendo jornais para os operários. Preso diversas vezes, transferiu-se para São Paulo, onde participou da direção regional da AP. Preso outra vez em 1969, acusado em 22 processos, condenado a uma pena de 4 anos, foi cumpri-la no presídio Tiradentes. Teve sua pena reduzida e foi libertado após 20 meses, em setembro de 1971. Ao sair, vigiado pelos órgãos de repressão, encontrou dificuldades para retomar a militância em Ação Popular, foi trabalhar como redator em uma agência de publicidade no Rio de Janeiro. Em 1972, seu irmão Frederico o apresentou a Raimundo Pereira, que o convidou para trabalhar em Opinião. Junto com Raimundo e Tonico, ele iria formar o trio de jornalistas que “tocava” o dia a dia na redação. Raimundo declarou em entrevista que Marcos “foi muito importante em Opinião no enfoque político mais adequado para as matérias, na definição das pautas e nos entendimentos com Gasparian”.8

Sobre os motivos para a demissão de Raimundo, Marcos sugere:

Acho que foram as duas coisas, ele (Gasparian) foi se irritando com a relação e também houve a questão da conjuntura política. O País marchando com o Geisel, o jornal numa situação financeira complicada. Acho que ele não via ali sobretudo a flexibilidade que ele estava buscando. E, quando ele propôs aquela história de publicar anúncios gratuitos da Petrobras, a redação não topou. Quer dizer, você está ali naquela resistência desgraçada, fizemos aquelas matérias sobre o governo Geisel, pegamos todos os votos dele (no STM), o cara só votava contra todo mundo. Chamar o cara de democrata nacionalista era só o que nos faltava. A redação se rebelou.

Gasparian achou que Marcos podia substituir Raimundo: Então, Gasparian conversou comigo: “Mas por que só pode ser o Raimundo? Por que você, por exemplo, não pode editar o jornal?”

a.            Eu falei: “Fernando, você não conhece a redação que trabalha com você, porque ninguém aqui vai se dispor a substituir o Raimundo. Tem unidade tranquila em torno disso, se você vier com essa proposta, vai ser um desastre. Não tem a menor possibilidade de eu substituir o Raimundo.9

Com a saída de Raimundo e da equipe, Opinião passou a ser editado pelo jornalista Argemiro Ferreira, que permaneceu no cargo até junho de 1976. Foi sucedido pelo próprio Gasparian, que assumiu o comando da redação e nele se manteve até abril de 1977, quando decidiu fechar o jornal, por não suportar mais a censura implacável e o boicote financeiro.

9 Entrevista de Marcos Gomes em 30 de janeiro de 2009.

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Expediente e equipe, na primeira edição, em 7 de julho de 1975

O jornal dos jornalistas

  No calor da hora da saída coletiva de Opinião, houve consenso de que era possível fazer um novo jornal, um jornal sem um empresário patrão, um “jornal dos jornalistas”. O primeiro problema era o dinheiro. Sem um patrão, de onde

o dinheiro viria?

Uma solução provisória foi dada pelos amigos de Raimundo, engenheiros, expurgados como ele do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), após o golpe militar em 1964, que moravam no Rio de Janeiro, e com os quais tinha laços políticos e de amizade que atravessariam anos (no final de 2008, quarenta e quatro anos depois da data em que deveriam ter se formado, eles foram finalmente anistiados e receberam diplomas de engenheiros honorários da escola). Frederico Magalhães Gomes, irmão de Marcos Gomes, Raymundo Theodoro de Oliveira, que seria depois deputado estadual no Rio, Gilcio Martins, engenheiro da Digital, Ezequiel Dias, engenheiro do Serpro, serviço federal de processamento de dados, João Lizardo e outros amigos se cotizaram e levantaram recursos para manter por três meses Raimundo, Tonico e Marcos representantes do grupo empenhado no esforço de articular o novo jornal.

Essa foi a parte mais fácil. Difícil, aliás, impossível, foi obter um consenso entre o pessoal da redação, agora todos desempregados, quanto ao caminho a ser seguido. Foi um processo complicado, detalhadamente descrito em “Nasce um Jornal”, publicado no número zero:

Fernando Gasparian costumava dizer que se discutia demais em Opinião e, a certa altura, os fatos pareciam concordar com ele: a redação levou uma semana para dar o primeiro passo que lhe permitiria sair democraticamente de Opinião para Movimento – a nomeação de uma comissão que representasse todas as tendências dentro do jornal e que tivesse poderes para decidir tudo, especialmente quem seria o editor geral e como ele se relacionaria com os editores – questões centrais do poder dentro de uma redação.

Surgiu uma divisão dentro da equipe. Lembra Raimundo:

Houve uma disputa interna para ver quem representava a redação de Opinião, que ganhamos. Mas não de imediato. A turma do Montenegro (Júlio César Montenegro, editor de Cultura de Opinião) achava que tinha de ter uma representação maior. Para isso, queria que o fórum para discutir as questões fosse apenas a redação. Nós dissemos que não. Que o certo era ter uma comissão que representasse não só a redação profissionalizada, mas toda a redação solidária que existia em torno, os colaboradores regulares. Nós ganhamos essa discussão e aí entrou na equipe o Maurício Azedo (colaborador na área de esportes; em 2010, era presidente da Associação Brasileira de Imprensa), entrou Aguinaldo Silva (colaborador em assuntos de polícia, novelista da Globo em 2010), entraram Jean-Claude Bernardet (crítico de cinema), Nelson Werneck Sodré (historiador), Chico de Oliveira (sociólogo), Fernando Peixoto (diretor e crítico teatral). A comissão ficou formada então por 16 pessoas e nela os dissidentes liderados pelo Montenegro ficaram com cinco votos.

Foi-se, então, para a segunda discussão. A grande disputa foi essa: o Montenegro defendia a tese extravagante de que cada editor deveria fechar a sua parte, o editor-chefe só poderia ler as matérias depois de publicadas.

A posição do grupo de Raimundo – que achava necessário “um jornal mais centralizado” em que “o editor poderia ler e vetar as matérias dos vários editores de seção antes de elas serem publicadas”1 – ganhou na votação final por sete a seis. Apenas 13 dos 16 integrantes da comissão estavam presentes na reunião. Cinco dos seis derrotados decidiram sair do Conselho, como rememora Raimundo: “O Montenegro saiu, junto com outros do seu grupo, como o Ronaldo Brito, nosso crítico de arte”.

Onze pessoas passaram então a representar o projeto do novo jornal: Raimundo, Tonico, Marcos, Maurício Azedo, Jean-Claude Bernardet, Aguinaldo Silva, Elifas Andreato, o editor de arte de Opinião, Bernardo Kucinski, Fernando Peixoto, crítico de teatro, Chico de Oliveira e Teodomiro Braga, um jovem repórter que viera de Minas para a redação do Rio.

A terceira divergência na equipe surgiu quanto à atitude a tomar em relação a Opinião e seu dono. Como diz Raimundo:

Havia um grupo mais amplo que o liderado por Montenegro que queria brigar com o Gasparian. Entre eles, Bernardo Kucinski (que era o correspondente de Opinião em Londres). Ele defendia a tese de que a gente deveria entrar na Justiça com uma reclamação trabalhista, visto que nossos salários eram muito baixos. Mas isso não prosperou. Nós mesmos tínhamos optado por ter salários menores e uma equipe maior.

Gasparian, ao contrário, queria uma redação pequena e mais bem paga. Acabamos aprovando a pacificação com Gasparian por unanimidade.2

Na comissão dos 11 foram tomadas, então, as decisões mais políticas. Foi escolhido um Conselho Editorial para o jornal, com figuras que o grupo considerava representativas do movimento democrático e popular brasileiro, das diversas regiões do País e com ligações com a equipe. Foram convidados e aceitaram fazer parte: o cantor e compositor Chico Buarque, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, Audálio Dantas, o indigenista Orlando Villas-Boas, o escritor pernambucano Hermilo Borba Filho, o político e intelectual gaúcho André Foster, e o pensador católico mineiro Edgar da Mata Machado. A comissão dos 11 resolveu também selar a união que de fato já existia com o grupo autêntico do MDB: Chico Pinto foi convidado para fazer parte dela, assim ampliada para 12 pessoas e que viria a constituir o Conselho de Redação. O deputado federal do Paraná, Alencar Furtado, veio a ser o representante dos autênticos no Conselho Editorial.

Partiu-se, a seguir, para a definição mais precisa do programa do jornal. Desde o início, o programa de Movimento tinha um caráter político explícito, de oposição à ditadura, jornal popular, democrático, em defesa dos interesses nacionais, o que iria caracterizar sua trajetória. Revendo isso hoje, Fernando Henrique Cardoso lembra que todos os jornais têm programa, “mas não dizem”, isto é, fingem que são neutros. Para ele, ter um programa explícito “naquele momento ajudava, porque era um momento em que você tinha que dizer a que veio, botar as cartas na mesa.”3

O jornal se definia “pelas liberdades democráticas; pela melhoria da qualidade de vida da população; contra a exploração do País por capitais estrangeiros; pela divulgação da cultura popular; pela defesa dos recursos naturais.” Esse programa teve sua formulação atribuída a Marcos Gomes. Ele admite ter redigido esse texto, mas diz que não inventou nada, foi a partir de um consenso existente na redação:

Surgiram aquelas discussões: “Qual é a nossa marca?”. Então, foi uma coisa meio natural, que no jornal Opinião não precisou. Porque só de o Gasparian querer fazer um jornal, já era um negócio de oposição, não precisava de marca. Mas nós estávamos saindo do jornal Opinião, que tinha uma história, tinha prestígio, uma trajetória. Você podia perguntar: O que nos diferencia? O que nos caracteriza? Então, acho que foi uma coisa natural, também, tanto que foi amplamente aceita, não gerou grandes discussões... O Bernardo Kucinski pôs lá uma parte que falava da defesa dos direitos materiais e naturais, que englobava a natureza. Então, aquilo foi uma coisa tranquila. (...) Uma plataforma democrática, das forças democráticas, que já estava na nossa cabeça, incorporada. Eu ia inventar o quê?4

Também por unanimidade decidiu-se que a empresa que faria Movimento

– Edição S/A – deveria ter sua propriedade dividida entre as pessoas que

o fizessem e que Raimundo deveria ser o primeiro editor, os próximos seriam escolhidos pelo Conselho Editorial “a quem se delegaria poderes de participar da escolha do editor de Movimento” – e pelo Conselho de Redação.

A equipe havia decidido fazer a sede do novo jornal em São Paulo, em vista de haver ali uma movimentação política mais dinâmica tanto da intelectualidade como do movimento popular. Mas por onde começar a organização do jornal? Marcos Gomes registra que naquele período inicial o sociólogo Chico de Oliveira desempenhou um papel importante, empenhando-se para a viabilização do projeto. Recorda Tonico Ferreira:

A gente estava perdidão, não ia conseguir tirar aquele jornal, precisava de alguém com experiência administrativa. E aí o Chico de Oliveira falou: “Tem um cara que vai resolver o problema pra vocês (...) chama-se Sérgio Gordo”. E o Serjão (Sergio Motta) era um administrador da melhor qualidade e tinha uma estrutura na Hidrobrasileira. Ele tinha lá os contadores, o Dillinger, que seria o contador do Movimento.

Com a ajuda de Sergio Motta se desenvolveu o plano de criar uma empresa, uma sociedade anônima, a qual iria arrecadar ações para formar o capital inicial. Em março iniciou-se a campanha de venda de ações.

Por que as pessoas deveriam dar seu dinheiro para uma publicação de responsabilidade dos próprios jornalistas se as experiências anteriores (como a da Arte & Comunicação, que fez o Bondinho) haviam fracassado e quem ajudou “perdeu” seu dinheiro? No texto de apresentação do número zero de Movimento, essa questão mereceu explicações. Escreveu Raimundo:

Não parece, à primeira vista, eficiente contar a história de Movimento, um jornal a ser feito por uma empresa de jornalistas, a partir da história de A&C, uma empresa de jornalistas que foi a uma falência comercialmente pouco gloriosa em cerca de dois anos, com dívidas em torno de um ou dois pares de milhões de cruzeiros. Acredito, porém, que se aprende a fazer fazendo e a lição de A&C é uma fonte de conhecimento de valor inestimável.

Um dos problemas de A&C, dizia Raimundo no número zero, era o de não encarar adequadamente as questões empresariais: “Para mim, o fim da experiência (de A&C) veio disso: se curtia a vida interna da empresa, mas ela estava metida no “mundo mau” das empresas, onde ou se tem lucro ou se vai à falência”.

De acordo com Marcos Gomes, a proposta do jornal, com seu amplo programa democrático, era inteiramente adequada para aquele momento político. Em resposta houve “uma adesão maciça, extraordinária, em toda parte”, diz, registrando que essa ampla mobilização foi a marca distintiva essencial entre Opinião e Movimento.

Gomes foi para Minas Gerais, onde tinha grande relacionamento, resultado de sua militância anterior. Junto com Luiz Bernardes teve êxito em obter apoio expressivo seja em termos de acionistas como de colaboradores. Tonico foi para São Paulo, onde tratou de iniciar a organização física do jornal. Raimundo ficou viajando entre São Paulo e Rio e também aprofundando nos outros estados os contatos que Gomes e Bernardes tinham feito anos antes em todo o País em suas militâncias itinerantes pela UNE e a UBES, e que então haviam retomado.

Luiz Bernardes lembra que o apoio recebido dos jornalistas de São Paulo foi notável. Participou de diversas visitas às redações de jornais e revistas e ainda se admira do quanto era calorosa a recepção, ao mesmo tempo que generosas as contribuições: “centenas se tornaram acionistas”. O mesmo entusiasmo se verificou entre professores, intelectuais, funcionários de estatais e de grandes empresas: “aqueles que não podiam se tornar acionistas por temerem ser alvos de represálias, compravam as ações e as transferiam para nós, da equipe. Assim, eu, por exemplo, acabei sendo titular de muitas ações em nome deles”, recorda.

Certamente, os acionistas de Movimento não tinham esperanças de obter dividendos e lucros de suas ações. Eles estavam conscientes de que colaboravam para um projeto político que por meio do exercício do jornalismo fosse um instrumento de apoio à democratização que a sociedade já fermentava. Assim, Movimento nascia com uma ampla base social. Era o “jornal dos jornalistas”, mas era mais que isso, era um projeto de oposição à ditadura.

O projeto de Movimento também trazia uma inovação importante, o espaço dedicado às reportagens seria bem maior do que na publicação de Gasparian, que enfatizava os artigos. Haveria uma ênfase mais forte nas duas seções dedicadas a descrever as condições de vida da população: “Cena Brasileira” e “Gente Brasileira”. Do texto do número zero:

Decidiu-se por unanimidade que se pretendia um jornal

mais popular e que, diante da impossibilidade de ser lido ou

mesmo comprado amplamente, por exemplo, por trabalhado

res sindicalizados, falasse de temas que pudessem interessar a

esses trabalhadores e que tivesse uma linguagem que pudesse

ser entendida por eles (...). Disso decorreu uma preocupação

em Movimento em descrever as condições de vida das massas,

apresentar a cena brasileira, a gente brasileira.

No projeto Raimundo incluiu também uma seção de ensaios semanais, os “Ensaios Populares”. Era algo como o Time Essay do semanário americano Time. No seu entendimento era um lugar para difundir o pensamento mais elaborado da esquerda, a partir dos fatos do dia a dia. Posteriormente, no modelo de semanário se incluiu também a seção Histórias Brasileiras, para difundir a literatura nacional e os novos escritores.

UMA EQUIPE RESPEITÁVEL

Movimento teve uma direção editorial experiente, contou com uma administração profissional competente, chefiada por Sergio Motta. E uma equipe respeitável. No expediente do número um estão listadas, nas diversas funções do semanário, cerca de 70 pessoas, entre funcionários de tempo integral, com metade desse número, e colaboradores regulares nas várias áreas. (na maior parte da vida do jornal, a equipe foi grande. Para se ter ideia de seu tamanho e da folha de pagamento, ver Anexo 2, na página 320). A sede da empresa foi estabelecida em São Paulo, na rua Virgílio de Carvalho Pinto, 625, bairro de Pinheiros, área central da cidade.

De acordo com o que fora decidido pelo Conselho de Redação, os editores das várias seções do semanário foram escolhidos por Raimundo. Tonico Ferreira, obviamente, foi o secretário de Redação, como em Opinião. Marcos Gomes não quis ir para São Paulo – ficou no Rio, onde se criou uma sucursal e ele ficou, como editor especial. Teodomiro Braga, o repórter revelação do Opinião, foi para Brasília, para garantir a cobertura política e chefiar os trabalhos jornalísticos da sucursal, dirigida por Chico Pinto, a grande referência política de Movimento. Para editor assistente de política nacional, em São Paulo, Raimundo convidou Sérgio Buarque de Gusmão, que conhecera em Belém, como correspondente de Veja, quando fez Realidade Amazônia. Bernardo Kucinski ficou como editor especial e de início cuidou das seções “Cena Brasileira” e “Gente Brasileira”. É nessa seção que se vai revelar Murilo Carvalho, um jovem escritor saído do ramo da publicidade que se tornaria o grande repórter nacional do semanário. O editor internacional foi Flávio de Carvalho, o estudante de Física que, junto com sua companheira, Cecília Magalhães, foi de Belo Horizonte para o Rio trabalhar em Opinião. O casal acompanharia a equipe na mudança para São Paulo. O editor de Economia foi Arlindo Mungioli, que trabalhara com Raimundo na Folha da Tarde. O editor da seção de Cultura e Comportamento foi Fernando Peixoto, o diretor teatral que fora crítico de teatro de Opinião. Ele contava com dois editores assistentes, Flávio Aguiar, gaúcho, professor de Literatura na Universidade de São Paulo, e José Miguel Wisnik, professor e músico famoso. Entre os colaboradores e editores contribuintes mais conhecidos estavam os jornalistas Dirceu Brizola, Aguinaldo Silva, Percival de Souza, Maurício Azedo, Ricardo Kotscho, Carlos Alberto Sardenberg, Elmar Bones, Jefferson Rios e personalidades como Nelson Werneck Sodré, Chico de Oliveira, Moniz Bandeira e Fernando Henrique Cardoso. Na editoria de arte, como se verá no capítulo cinco, sob a influência de Elifas Andreato, aparecia uma dúzia de nomes de cartunistas, ilustradores e fotógrafos que ainda hoje fazem parte do primeiro time da arte gráfica brasileira.

Descrição: http://localhost/retrato/movimento/pdf/images/livro_web_img_11.jpg

Capa da edição número 75, 6 de dezembro de 1976. Desenho de Jayme Leão

Uma mobilização nacional

Movimento existiu, de fato, em virtude de uma das mais amplas mobilizações políticas daquele período. Diversos setores da sociedade desde o início identificaram o jornal como uma janela para o debate político e lhe deram respaldo, como os militantes e intelectuais de esquerda das mais variadas tendências e partidos. Foi o caso também dos católicos mais ligados à população pobre, aos movimentos eclesiais de base, com ação em sindicatos de trabalhadores e movimentos de bairro, que, apoiados no jornal, deram impulso à oposição sindical metalúrgica, ao Movimento do Custo de Vida em São Paulo e aos movimentos em defesa dos trabalhadores rurais sem terra, posseiros e índios. Bispos como dom Pedro Casaldáliga, de São Felix do Araguaia, e Moacir Grecchi, da Pastoral da Terra, e outros, pelo País afora, se tornaram interlocutores e bases de apoio do jornal.

O repórter Murilo Carvalho, que fazia as reportagens sobre a Cena Brasileira, conta que em qualquer lugar a que chegasse pelo País afora encontrava abrigo e apoio nas prelazias e missões católicas:

Qualquer lugar em que eu chegasse, por exemplo, na Amazônia, havia sempre um grupo de 10, 12 pessoas que eram distribuidoras do jornal Movimento (...) era assim em tudo quanto é canto do País. Eu tenho amigos, que hoje são sessentões como eu, que continuam me apoiando nos meus trabalhos sociais. E a gente se encontra, temos contato com uma certa frequência, na Bahia, no Amazonas, no Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas, muita gente aí.1

O jornal foi utilizado como instrumento de debate pelo movimento estudantil, pelos intelectuais de oposição e movimentos populares, nos vários estados. Dessa mobilização iriam surgir as sucursais e uma rede de distribuição do jornal por todo o País. O núcleo central das atividades do jornal sempre foi São Paulo. Tanto o trabalho jornalístico como também as principais articulações políticas se concentravam na capital paulista. Ali se davam as maiores vendas, seja nas bancas como em assinaturas e ainda em venda direta, e ali estava o maior grupo de acionistas. O apoio político era palpável e se evidenciou nos momentos de dificuldades do jornal, que foram vários. Os apelos da equipe receberam até o fim respostas positivas. Era grande o número de colaboradores, vendedores, articulados por toda a capital e algumas cidades vizinhas. Os estudantes estavam entre os mais participantes.

Paulo Barbosa, então estudante de Comunicação, foi um deles.

“Eu vi o número zero. Chegou lá na faculdade de Medicina da USP, onde eu trabalhava, e achei muito interessante, essa coisa do jornal dos jornalistas, que ia informar sobre a cultura e a situação do Brasil”.2 Paulo foi procurar emprego no jornal, e acabou ajudando na administração, na complicada logística da censura e também na área de vendas.

“O importante era fazer o jornal circular. A gente trabalhava com o maior ânimo. Eu participava do movimento estudantil, tinha muitos conhecidos, então distribuía nas universidades, USP, PUC, na Cásper Líbero. E sempre que tinha eventos também, teatros, shows, a gente ia na porta vender”, diz Paulo. Luiz Bernardes conta que ele começou a participar desse sistema de vendas ainda no tempo de Opinião, em Belo Horizonte:

Aí, começou essa coisa, da venda militante, da venda política, de usar o jornal, o próprio conteúdo dele, mas também o processo de venda e distribuição como um processo de aglutinação política, parece que surgiu ali. O jornal chegava, a gente passava ao DCE e os DAs3 vendiam imediatamente. Esse hábito foi sendo criado. Essa foi uma experiência que acabou depois sendo mais sistematizada no jornal Movimento.4

Bernardes havia sido militante político da Ação Popular no movimento estudantil, ficara preso entre 1971 e 1972 no presídio Tiradentes, em São Paulo. Ao sair, começou uma carreira de jornalista. Trabalhou numa revista da editora Abril e no Diário de Minas em Belo Horizonte. Dali foi para Opinião. Ficou algum tempo na sucursal, como redator, depois foi chamado para o Rio de Janeiro para organizar o sistema de assinaturas. Por que ele? Porque, em sua militância como dirigente da União Brasileira de Estudantes Secundarístas, Ubes, havia viajado muito e feito contatos políticos e amizades por todo o País. Por isso, logo no início do novo jornal ele se transferiu para São Paulo, onde participou da primeira fase da organização do departamento de vendas.

À sede do jornal em São Paulo se agregaram outros vendedores, militantes políticos recém-saídos das prisões. Antonio Neto Barbosa, mais conhecido como Barbosinha, de Poços de Caldas, conterrâneo e amigo de infância de Murilo Carvalho, era dirigente do PCdoB. Ao ser libertado, foi morar na casa de Luiz Bernardes. Convidado por este, foi trabalhar no jornal no departamento de vendas, em 1976. A maior parte dos militantes do PCdoB que passou a colaborar com o jornal o fez no setor de vendas, como Barbosinha. Foi o caso de Amelinha Telles, que ficara três anos presa e procurava trabalho. “Eu tinha um marido preso e os filhos pequenos que dependiam de mim”. Ela conta que suas companheiras do jornal feminista Brasil Mulher a informaram que havia possibilidade de emprego remunerado no jornal Movimento. “Eu conhecia o Barbosinha da prisão. Aí, falei com ele e fui”.

Amelinha, que em 2010 continuava a ser uma militante em favor da investigação sobre os assassinatos e desaparecimentos praticados pela ditadura militar, trabalhou no departamento de vendas do jornal entre 1976 e 1979. Ela lembra que a sede era agitada dia e noite pelo movimento de estudantes entrando e saindo. Muitos eram da faculdade de Medicina da USP, que ficava perto dali: “Eles vinham tomar um café e conversar. Queriam levar o jornal para vender na faculdade ou então acertar o que venderam... E sempre falavam: ‘olha, essa capa ficou horrível, essa matéria está boa...’”.5

“Tinha estudantes que eram mais velhos e foram para a clandestinidade, estavam voltando, ou estavam na clandestinidade e viam que a gente estava lá”, conta Amelinha, explicando que se tornou uma referência para militantes do PCdoB que estavam desarticulados. “As vendas diretas eram o termômetro do apoio da militância ao jornal”, explica Raimundo Pereira. “A campanha de assinatura era permanente, ela dava sustentação política. E a pessoa também emprestava seu nome, seu prestígio para dizer para ditadura: ‘Eu também leio o jornal Movimento, então, não mexa com ele’”, completa Amelinha Telles, para quem os assinantes do jornal merecem ser lembrados pela sua coragem e generosidade.

Na capital, havia uma articulação de cooperação e apoio com a oposição sindical metalúrgica, ligada à Juventude Operária Católica (JOC) e às Comunidades Eclesiais de Base. Através da JOC mais gente começou a tomar contato com Movimento. Foi o caso de Sueli Freitas, que morava na zona leste da cidade. Filha de imigrantes nordestinos, ela entrou em contato com a JOC através do movimento comunitário do bairro de Burgo Paulista. Ainda em 1976, Raimundo Pereira foi lá para apresentar o projeto. “Me ofereci para ser o contato deles e vender o jornal”, lembra Sueli, na época com 20 anos. “Eu ia até à redação para pegar os exemplares com o Barbosinha. Pegava três conduções até lá, e o dinheiro não dava para absolutamente nada. Mas eu sentia que estava fazendo alguma coisa importante, estava na resistência à ditadura”, conta.6

“Para mim foi uma abertura, um salto de consciência muito grande o de tomar conhecimento do que estava acontecendo no País e no mundo. E foi o jornal que fez isso”, lembra. Além de uma lista de contatos dada por Barbosinha, Sueli vendia para amigos, o pessoal da JOC – que inclusive fazia grupos de leitura das matérias – e ia aonde houvesse shows, grupos de teatro e rodas de capoeira. Também entregava exemplares a uma freira, que os revendia em Ermelino Matarazzo.

Mas o engajamento como vendedora de Movimento acabou criando problemas com a família. “Uma bela noite cheguei em casa, meu pai estava no quintal queimando uma pilha de exemplares (...) Meu pai disse: prefiro ver você morta a comunista...”. Sueli passou a ser controlada pelo pai – teve até que inventar um namorado falso para poder escapar de vez em quando e seguir nas vendas. Quando completou 21 anos, ela decidiu mudar-se para Recife. Levou na mala alguns contatos de colaboradores do jornal, e logo iria se juntar ao grupo de apoio local. “Foi com o jornal Movimento debaixo do braço que eu saí da casa dos meus pais e de São Paulo”, lembra.

O que aconteceu em São Paulo se repetiu, em escalas e formas diferentes, por todas as regiões do País.

BRASÍLIA

Como o jornal surgiu depois de quatro meses de campanha em busca de apoio por vários estados, ele já nasceu com uma abrangência nacional. A representação de Movimento em Brasília foi uma das mais importantes.

Em 1975, quando o mineiro Teodomiro Braga chegou à capital, com 21 anos, ele estava praticamente isolado.

Eu era o único jornalista de oposição em Brasília. Era quase que um leproso ali, porque havia uma acomodação ao regime militar em todas as instituições. Então, tive dificuldades. Não consegui credencial do Palácio, não consegui credencial da Câmara dos Deputados, não consegui credencial do Senado, não consegui de lugar nenhum. No começo, era uma dificuldade imensa para fazer a cobertura, e a gente fazia um esforço enorme para ouvir todos os lados, ouvir o governo, ouvir as autoridades, os ministros.7

Mas aos poucos foi sendo criada uma rede de contatos e de fontes de informação. “Tínhamos um bom contato com os autênticos, um bom contato com o MDB de modo geral, e tinha um grupo grande da Arena com quem a gente conseguia falar, não era nem dissidência, era um pessoal da Arena mais aberto”, diz Teodomiro.

Junto com ele trabalharam vários outros jornalistas, ao longo da história do jornal: Fátima Murad, Jaime Sautchuk, Vera Lúcia Manzolillo, Antonio Carlos Queiroz, Barbara Harz, Eduardo Neto, Carlos Alberto de Almeida. Fátima Murad lembra:

A gente vivia no Congresso, vendia cotas, assinaturas, levantava pautas... Me lembro uma vez eu vendi uma assinatura até para o Jarbas Passarinho, ele me conhecia porque cobri o Ministério da Educação quando estava na imprensa de Brasília, e me chamava de “língua ferina”. Um dia, falei para o Teodomiro: “Você quer ver eu vender uma assinatura do Movimento para o Jarbas Passarinho?”. Ele falou: Eu duvido. Aí eu fui lá: Ah, senador queria pedir um favor..., e ele: Não recusaria nada pra você... Depois era engraçado ver o nome dele na lista de assinantes.8

O trabalho era animado: “A sucursal era muito interessante. Era frequentada pela intelectualidade. Um negócio extremamente pujante, às vezes era difícil trabalhar de tanta gente que ficava ali”, conta Antonio Carlos Queiroz.9 Um dos frequentadores era Antonio Ibanez, professor de Engenharia na Universidade de Brasília (UnB), que depois seria reitor da escola. Outro, era Paulo Timm, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea.

“Paulo Timm nos abriu a porta do Ipea, que era um órgão de pensamento do Brasil. Ele nos indicava as pessoas do Ipea para entrevista, dar informação, fazer análise de problemas do Brasil”, diz Teodomiro Braga. Não só isso; Timm mantinha 40 assinaturas de Movimento em seu nome, que recebia toda semana e depois redistribuía aos colegas do Instituto.

Quarenta economistas assinaram o jornal, porém não quiseram fazer assinaturas no nome deles, com medo de retaliação do regime. Isso aí era muito comum, nós não conseguíamos vender mais assinatura porque as pessoas tinham medo. Ser assinante do jornal era participar de uma lista de adversários do regime.

Uma ajuda fundamental vinha dos jornalistas da grande imprensa, como Carlos Chagas, Zenaide Azeredo, Pompeu de Souza e vários outros, que compartilhavam informações e até materiais que não sairiam nos seus jornais.

O jornalista Carlos Alberto de Almeida era um dos estudantes da UnB que colaboravam com o jornal. Ele era e continua a ser um militante trotskista de linha posadista (tendência trotskista nacionalista criada pelo argentino J. Posadas) que, em 2010 trabalhava como correspondente da TV Tele Sur no Brasil e era editor na TV Senado. Beto Almeida, como é conhecido, lembra:

O jornal servia para os debates. Nós fazíamos, por exemplo, aos sábados à tarde, seminários para discutir, na Faculdade de Geologia, a questão mineral brasileira. Aí, levávamos as matérias do jornal que tratavam disso. Por exemplo, nós participamos ativamente do debate sobre a questão das indústrias farmacêuticas, os laboratórios internacionais. (...) E o jornal tinha todas essas matérias. O jornal, portanto, estava na mão da gente o tempo inteiro. E o que nós fazíamos mais? A gente usava o Movimento conscientemente para estimular, vendendo assinatura, mas também debatendo. Os murais (na universidade) tinham o jornal Movimento.10

Um dos pontos fortes da sucursal de Brasília era o apoio dos deputados “autênticos” do MDB e em especial a participação de Chico Pinto como chefe da sucursal. Ao organizar Movimento, Raimundo Pereira havia ido ao Pelotão de Investigações Criminais (PIC), quartel do Exército no Distrito Federal, onde Chico Pinto estava preso após um contundente discurso contra o ditador chileno general Pinochet, quando este veio ao Brasil, e que também havia lhe custado a cassação do mandato de deputado federal. “Chico era muito carismático, era um aglutinador; as pessoas iam atrás dele. Trabalhava de noite e dormia de dia”, lembra Teodomiro Braga. Antonio Carlos Queiroz conta que ele “chegava na sucursal depois do almoço, banho tomado, fumava uma piteira enorme e ficava mastigando drops Halls, e também gostava demais da conta de Coca-Cola. Volta e meia, ele tinha também, para oferecer aos visitantes, bombons. Era uma figura!”11

Chico Pinto estabeleceu, no mesmo décimo andar onde se localizava a sucursal do jornal, no edifício Márcia Kubitschek, um instituto de pesquisa que na verdade servia mais como espaço de reuniões e articulações dos autênticos. Assim, os parlamentares visitavam a redação e, no mesmo corredor, o instituto. E desse relacionamento saíram sugestões de matérias, informações, fontes.

Alencar Furtado, o representante dos autênticos no Conselho Editorial, avalia que “o jornal era uma válvula de escape para a gente, era um meio de comunicação pequeno, um jornal modesto ainda, mas qualificado”. E a contribuição dos autênticos era política:

Nós éramos sem tostão, essa é que é a verdade. Vivia empapagaiado nos bancos. Mas a gente tinha uma tarefa diária muito grande. Nós, por exemplo, nos multiplicávamos, éramos minoria dentro do MDB. O grupo autêntico é que se virava para fazer oposição, inclusive, para alimentar os jornais de notícias.

RIO DE JANEIRO

A sucursal do Rio de Janeiro também nasceu junto com o jornal. “O nosso calcanhar de aquiles sempre foi o Rio”, avalia Marcos Gomes13, que comandou a sucursal até meados de 1977, junto com Ricardo Bueno e Genilson Cezar. Entretanto, alguns dos colaboradores cariocas seriam fundamentais, chegando a se confundir com a história do jornal, como Aguinaldo Silva, uma das “estrelas” do semanário. Outro foi o jornalista Maurício Azedo, com textos brilhantes como o do casamento do futuro presidente da República Fernando Collor de Melo, então um playboy buscando ascensão social, com uma jovem da alta sociedade carioca, Lilibeth Monteiro de Carvalho, herdeira de um sócio da Volkswagen e de mais de uma dezena de indústrias.14

11 Entrevista de Antonio Carlos de Queiroz, citada.

Entrevista de Antonio Carlos de Queiroz, citada. 12 Entrevista de Alencar Furtado em 25 de fevereiro de 2010.

Entrevista de Alencar Furtado em 25 de fevereiro de 2010. 13 Entrevista de Marcos Gomes em 30 de novembro de 2009.

Entrevista de Marcos Gomes em 30 de novembro de 2009. 14 “ Um Casamento inesquecível”, edição 17, pág. 9 – (...) Cita o cronista Zózimo Barrozo do

“ Um Casamento inesquecível”, edição 17, pág. 9 – (...) Cita o cronista Zózimo Barrozo do Amaral, que no estilo das histórias das mil e uma noites relatava assombrado: “além de dezenas de perus, cascatas de lagostas, camarões, etc., havia uma mesa onde era possível ao comensal escolher o queijo francês de sua preferência, já que se encontravam ali todos os tipos, marcas e sabores mais conhecidos”. E o colunista Jacinto de Thormes, que escrevia: “desafio que na história do Copacabana Palace, mesmo as festas ao Príncipe de Gales, aos reis de tantos reinados e artistas de tantas coisas, não tenha acontecido algo tão próprio. (...) Foi o último e foi o primeiro. Não me lembro de ter visto nada assim”. (...) Só um reparo foi feito à festa: o vestido da noiva tinha uma etiqueta francesa de Scherr. Maria Claudia Bonfim manifestou seu desencanto com isso: “Por que não prestigiou nosso Guilherme Guimarães? A hora está para a gente aplaudir as cores pátrias”.

Por meio da sucursal do Rio participaram de Movimento importantes intelectuais cariocas, como os médicos Carlos Gentile de Melo e Mario Victor de Assis Pacheco, os historiados Nelson Werneck Sodré e Moniz Bandeira, a psicanalista Tania Coelho e o economista Jesus Soares Pereira, para só citar alguns.

Márcio Bueno, que começara no jornal estudantil Avesso, em São Paulo, e se tornara repórter de Movimento, foi para o Rio, como chefe da sucursal, no início de 1977. Ele conta que a redação era cheia de estudantes de todas as tendências:

Nossa repórter Denise Cunha (em 2010, diretora na TV Globo) um dia foi presa numa passeata. Na delegacia, mostrou credencial de Movimento. O delegado disse: “O Raimundo Pereira é o nosso maior inimigo em nível nacional. E o Márcio Bueno é nosso maior inimigo no Rio”. Ele achava que era eu que estava comandando a reorganização do movimento estudantil.15

A sucursal do Rio também dava apoio às articulações para a realização dos debates sobre a democratização, que se realizavam periodicamente no Teatro Casa Grande, uma grande casa de espetáculos da cidade. Raimundo Pereira foi diversas vezes convidado a participar desses debates. “A propaganda do jornal foi muito também a propaganda dos debates, sobre Constituinte, anistia... os clandestinos não podiam, então eu fui um cara que apareceu muito. O jornal começou a jogar lenha nesse debate”, lembra Raimundo.

Mesmo tendo deixado de ser a capital, o Rio de Janeiro continuava a ser um centro importante de acontecimentos nacionais. Marcos Gomes conta:

Fiz uma matéria sobre a Light que (antes) havia sido oferecida a todos os jornais. Ninguém aceitou fazer. O presidente da Eletrobrás era o Antônio Carlos Magalhães. Foi o Mario Kertész, chefe de gabinete dele, que me passou. Ele me disse: “Essa matéria aqui é que o pessoal do Rio, esse bando de advogados administrativos de grandes multinacionais querem pegar o dinheiro do governo para comprar a Light. Nós temos aqui o documento inteirinho. Nós já oferecemos para o Jornal do Brasil, para O Globo... Vocês publicam?”

Marcos respondeu:

Movimento está sob censura. Mas essa matéria tem chance de ser publicada. Você me dá essa última página com todas as assinaturas. Aí eles foram para outra sala, ficaram em confabulação e decidiram me dar. A matéria saiu, a Gazeta Mercantil repercutiu, houve um alarde. Então, quer dizer, estávamos ali fazendo o nosso trabalho.

A sucursal do Rio foi a única do jornal a ser invadida pela polícia. Na manhã de 14 de abril de 1978, dois desconhecidos teriam chegado perguntando pelas “meninas do jornal”. Um vizinho respondeu que “havia muitas”, dado

o entra e sai de estudantes. A sala foi revirada, os arquivos arrombados e um aviso foi deixado no quadro negro: “Tem que fechar”. Mais sinistro ainda, a porta da sala não havia sido forçada. Segundo Márcio Bueno, a polícia não foi nem mesmo checar as digitais. “Se a polícia quisesse, poderia identificar os invasores”, declarou ele à Folha de S.Paulo.16

BELO HORIZONTE

A sucursal de Belo Horizonte foi a mais poderosa, chegou a reunir 500 apoiadores. Era a que mais vendia jornais, que mais vendia assinaturas e cotas de acionistas, depois da sede em São Paulo.

O núcleo do jornal em Belo Horizonte começou a partir das articulações de Marcos Gomes e Luiz Bernardes, que reuniram inúmeros colaboradores e acionistas no seu entorno. O jornalista Lélio Fabiano dos Santos, que usava sua sala de diretor da escola de Comunicação da PUC como uma pequenina redação, foi o primeiro correspondente. Lélio dividia seu pequeno salário com dois jovens jornalistas, Marco Antonio Vale e José Eustáquio.

Movimento teria uma sucursal em Belo Horizonte já em outubro de 1975. E isso se deveu bastante aos esforços de Alberto Dias Duarte, o Betinho, um pequeno empresário que havia sido militante da Ação Popular. Procurado por Marcos Gomes para ajudar a vender cotas, Betinho foi além, ofereceu uma das salas do prédio da rua Rio de Janeiro, onde funcionava a sua empresa Cifra Ltda., como sede da sucursal. “A infraestrutura praticamente toda era da minha empresa. Que eu me lembre, nunca recebi um centavo do jornal”, diz Betinho.17

Ele cuidava da parte administrativa, enquanto Lélio comandava a redação. Com uma sede fixa, o grupo ia crescendo. A convite de Betinho entraram novos colaboradores, gente politizada e intelectualizada, como Aloisio Marques, João Batista dos Mares Guia, Fausto Brito, Flávio Andrade, Flaminio Fantini, Murilo Albernaz, Maria das Dores Freire e Fernando Pimentel18, todos muito atuantes nas intensas discussões internas de Movimento das quais se falará logo mais.

No começo de 1976, Raimundo Pereira foi a Belo Horizonte para organizar pessoalmente a estrutura da nova sucursal. Betinho foi nomeado chefe, tendo o jornalista Fernando Miranda como redator-chefe. A sucursal tornou-se uma usina de articulação, textos e ideias. No primeiro ano já havia mais de 30 pessoas colaborando das mais variadas maneiras. Belo Horizonte teve, por exemplo, uma das maiores produções de contos e crônicas entre as sucursais; naquele ano, 22 Estórias Brasileiras foram enviadas, embora apenas dez tenham sido publicadas. Quanto às reportagens, das 201 matérias enviadas, 64 foram publicadas e 41 vetadas pela censura.19 A sucursal cumpria as pautas indicadas pela sede, mas ia tomando a iniciativa de fazer outras matérias sem que o jornal tivesse condições de publicá-las.

“A produção era enorme, nós aglutinávamos dezenas de pessoas”, lembra Betinho. “Raimundo pedia algumas matérias, nós fazíamos essas matérias, mas também muitas outras, porque tínhamos aqui intelectuais brilhantes”. Ele conta como buscava agregar ainda mais:

Tinha João Machado, cujo apelido era João Campeão, que foi da executiva nacional do PT e hoje é do Partido Socialismo e Liberdade, Psol. Fui atrás dele e do Flávio Andrade, eles moravam no bairro Santo Antônio. Eu cheguei lá, falei: “Ô, vocês são intelectuais de quê? Vocês não fazem nada. Por que vocês

não vão lá para o jornal Movimento?”. Eles foram.

Com tantos braços dispostos a ajudar, a turma de Belo Horizonte assumiu uma atividade importante: reimprimia os relatórios sobre a censura, feitos em São Paulo, e os distribuía. Enquanto a matriz os enviava para personalidades relacionadas, Minas enviava aos acionistas, assinantes e colaboradores, num total de 200 exemplares por semana.

Nas vendas, um grande grupo de estudantes universitários ajudava em mutirão. Betinho e Fernando Pimentel iam até o aeroporto da Pampulha todos os sábados para recolher os pacotes. De volta ao escritório, a turma já estava a postos para envelopar os exemplares e postar no correio local até as cinco da tarde. Mesmo assim, o jornal só chegava terça ou quarta-feira para os leitores.

A outra parte dos exemplares era levada pelos estudantes para ser vendida em faróis, bares e restaurantes, como conta Betinho. “Eles sabiam onde era o point de intelectuais e da classe média, saíam e vendiam para valer. Os estudantes vendiam não só por uma decisão política, mas também porque ganhavam uns trocados para tomar umas à noite”. Entre os vendedores estava Nilmário Miranda, recém-saído da prisão, que mais tarde seria deputado estadual, federal e ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos no primeiro governo de Lula, mas naquela época foi, segundo o ex-chefe da sucursal, “um dos maiores vendedores de assinaturas do jornal Movimento”.

A sucursal mineira rapidamente se tornou a mais rentável.

Até o início de 1978, a receita de Movimento em Belo Horizonte vinha principalmente de assinaturas (78%). Ajudou muito a ideia de Alberto Duarte, posta em prática pela primeira vez em Belo Horizonte, de vender assinaturas parceladas para o público de menor renda. “O preço da assinatura não era para trabalhadores, eu introduzi um esquema de venda em carnê, em suadas prestações mensais. Foi a popularização do jornal”. O método seria repetido em outros lugares.

Em um relatório de julho de 1976, Raimundo Pereira resumia:

A experiência de Belo Horizonte é a mais rica das experiências

das sucursais de Movimento – é a que mais vendeu assinaturas

e a que mais se reuniu para discutir o jornal; é das que

mais enviou artigos e cartas ao jornal e mais formou novos

 colaboradores; Belo Horizonte foi a única sucursal a apresentar

ao Conselho de Redação um projeto formal para o seu

funcionamento; a primeira sucursal a divulgar entre os nossos

acionistas e principais colaboradores a lista de matérias vetadas.

A sucursal de Belo Horizonte foi origem do primeiro grande debate dentro do jornal, o chamado “caso Murilo Albernaz”, a ser contado depois. Os mineiros também foram dos que mais insistiram pela expansão formal do Conselho de Redação e houve inúmeras discussões visando a formulação do estatuto, que ele ainda não tinha.

CAMPINAS

Um dos mais longevos e efetivos pontos de apoio de Movimento se estabeleceu na importante cidade universitária de Campinas, a cem quilômetros de São Paulo. Em março de 1977, um jovem estudante de Física (na verdade, ele mais participava de movimento estudantil do que ia às aulas) soube que Movimento precisava de vendedores na cidade. “Como eu conhecia absolutamente tudo na Unicamp, comecei a vender muita assinatura”, lembra Álvaro Caropreso. Já no primeiro mês, foram 35 assinaturas semestrais. Ao longo de cinco anos, Álvaro foi um dos principais vendedores do jornal, organizando uma equipe em Campinas e contando com um carro comprado pela empresa. “Rodei uns 30 mil quilômetros naquele fusquinha verde-abacate”.20 Dos 5 mil assinantes que Movimento chegou a ter, cerca de um quinto era da região de Campinas.

A tática era simples: buscar apoio político amplo, conversar com todos, sem perguntar filiação partidária; e aceitar ajuda de todos.

O político do MDB Orestes Quércia, por exemplo, entregou ao vendedor uma lista de cadastro do MDB na região: centenas de nomes, que Álvaro foi visitar um por um. “Eu traçava um roteiro para ir com meu fusca, ia parando de lugar em lugar, PUC, prefeitura, Cia. Paulista de Força e Luz...”, diz ele, para quem qualquer um que fizesse política era “alvo”. Outros aliados foram Paulo Renato de Souza, futuro ministro de Educação do governo FHC, que listava nomes de colegas que poderiam virar assinantes; José Roberto Magalhães Teixeira, futuro prefeito de Campinas e deputado federal, que tinha uma banca de revistas e mantinha um talão de assinaturas para oferecer aos clientes; e Alcides Mamizuka, futuro vereador e secretário municipal de Educação, que tinha uma banca de livros no Instituto de Ciências Humanas da Unicamp.

A principal base era mesmo na Unicamp. Tanto que, meses depois, um grupo de professores da Engenharia passou a cotizar o aluguel de uma sala pertinho da universidade, com cheques pré-datados – entre eles, Hermano Tavares, futuro reitor da Unicamp e secretário municipal de Educação. E Jurandir Fernandes, que seria secretário de Transportes de Campinas e depois secretário de Transportes Metropolitanos do estado.

“Foi em Campinas que estendemos a faixa no dia que acabou a censura. Foi uma comemoração assim como se fosse Copa do Mundo, a gente saiu na rua soltando rojão. Atravessava a rua, de um poste a outro. A faixa dizia: ‘Vitória, fim da censura em Movimento’”, conta Caropreso.

Sábado era o dia em que ele pegava o fusquinha, ia até a rodoviária, e de lá trazia as pilhas de jornais enviados pela matriz, que eram dobrados e devidamente endereçados a cada assinante: “Eu juntava um bando de voluntários, os ajudantes da ocasião que estivessem ali na parada”. No domingo, Álvaro ia pessoalmente ao centro de triagem dos Correios para entregar o jornal. Os assinantes recebiam segunda-feira cedinho, antes mesmo do que muitas bancas.

Contando com centenas de assinantes e apoiadores, poucas vezes a repressão incomodou o pessoal de Campinas. Certa vez Álvaro foi detido, mas logo liberado. Era noite, e ele voltava de um dos seus circuitos à caça de assinantes. O fusquinha foi atingido por outro carro e capotou. Atordoado, foi ajudado por um senhor, que o abrigou na varanda da sua casa. Recobrando os sentidos, o vendedor pediu para levar até ali o que sobrara do carregamento: exemplares, talões de assinatura, faixas e cartazes de Movimento:

Ficamos lá esperando chegar o fusquinha da radiopatrulha pra fazer a ocorrência. Estávamos nesse papo quando dali a pouco chegou a polícia. Um caminhão da tropa de choque. Desceu a tropa de choque imediatamente, um caminhão inteiro, perguntando: quem é o cara? O sujeito da casa: é ele. Eu fui imediatamente algemado e conduzido a uma delegacia. Fui levado até o delegado de plantão, colocaram aquele monte de papel, jornal, em cima da mesa e ficaram ali com uma cara até de orgulhosos. O delegado pegou uma edição do jornal e começou a folhear com atenção. Folheou, folheou, depois pegou outro, folheou, folheou… Até que se virou e falou: “Vocês apreenderam isso aqui porque vocês acham que é subversivo? Subversivo é o preço do feijão!”.

SALVADOR

A primeira articulação para uma sucursal na Bahia começou em 1975, quando Luiz Bernardes entrou em contato com um ex-colega do movimento secundarista, Tibério Canuto. Ex-preso político, Canuto presidira a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, em 1966, fora militante da Ação Popular e àquela altura trabalhava no Jornal da Bahia. Formava, ao lado de Emiliano José (que mais tarde se tornaria deputado federal), Oldack Miranda e outros, um grupo de jornalistas de esquerda na Bahia. “Eu já tinha feito uma matéria para o Opinião antes da ruptura do Gasparian com a equipe. Passou um certo tempo, o Bernardes fez outro contato e o Raimundo viajou até a Bahia para conhecer a gente”, conta Canuto.21

Tibério veio a ser chefe de redação e alugou uma sala contando com o apoio especial dos autênticos do MDB. Chico Pinto morava em Brasília, o que o impedia de ter tanto contato com a sucursal. Mas seu aliado Adelmo de Oliveira entrou no projeto como chefe do escritório. A pequena sala em um prédio comercial da rua Sete de Abril foi, inclusive, alugada em seu nome.

“Outro grupo forte eram as correntes do movimento estudantil que se aproximaram do jornal buscando um espaço para a sua expressão. Tinha duas correntes que disputavam entre si, mas trabalharam juntas em Movimento: Viração e Novação”, lembra Canuto. Ambas tinham forte presença na Universidade Federal da Bahia e levaram para as fileiras de apoio ao semanário nomes como Candido Vacarezza22 e o jornalista Antônio Jorge Moura.

Além dos exemplares dos assinantes, a turma levava jornais para vender na universidade e em algumas bancas de revistas. “Tinha a Banca do Careca, ao lado do Elevador Lacerda, na época, o mundo político e intelectual comprava jornais do sul nessa banca”, diz Canuto. Assim, evitavam o atraso comum da distribuidora, que às vezes entregava o jornal só na terça-feira: “No sábado a gente já estava botando na banca do Careca.”

“Havia divergências no jornal em relação a algumas posições”, diz Tibério Canuto. Tais discordâncias estavam na raiz da ruptura de abril de 1977, quando a maioria da equipe da sucursal deixou Movimento. Uma outra sucursal se organizaria em seguida.

RECIFE

Em Recife, um ano depois do lançamento (1976), um grupo se juntou para divulgar o semanário. Por iniciativa própria alugou uma sala, rateando o aluguel, antes mesmo de o Conselho de Redação aprovar a implantação de uma sucursal. Antes disso, o jornalista Ivan Maurício, que tinha sido o grande redator de Opinião no Nordeste, já representava Movimento como correspondente fixo. O jornal chegava tarde da semana na cidade, às quartas-feiras ou depois. Só passaria a chegar mais cedo, na terça, em setembro de 1975. “É um grande trunfo para a imagem do jornal por aqui”, registrou então Ivan Maurício.

Em março de 1976, assumiu como correspondente o estudante Geraldo Sobreira, que trabalhava também para o Diário de Pernambuco. Além dele, passaram a colaborar os jornalistas Marcos Cirano, Virginia Botelho, Antonio Magalhães e Bety Salgado. Em agosto daquele ano, o escritor Paulo Santos Oliveira tornou-se responsável pelas assinaturas na cidade, iniciando também a bem-sucedida estratégia de venda em livrarias. No mesmo mês, Sobreira recebeu a notícia de que a turma de São Paulo aprovara a fundação de uma sucursal. A reação foi entusiasmada, já que, segundo ele, Movimento era pouco conhecido no Nordeste, e em algumas capitais importantes, como Maceió, quase desconhecido. “No interior, nem se fala”, escreveu em uma carta. Segundo ele, “para estabelecer contatos com algumas personalidades democráticas para apoio ao jornal, precisamos de uma estrutura de sucursal. E, lentamente, quase já temos essa estrutura”.23

Desde então o grupo se concentrara nas vendas em diretórios acadêmicos, livrarias e diretórios regionais do MDB, chegando a vender em média 115 exemplares por semana, além dos 200 que já eram vendidos através das bancas. Conseguiu ainda dobrar a folha de assinantes de 58 para 105 nas primeiras semanas. Sueli Freitas, aquela jovem que saíra da casa da família em São Paulo com Movimento debaixo do braço, conta que em Recife era ela que ia receber o jornal no aeroporto todo sábado de manhã. “Trazia de ônibus até a sede e então passava em uma série de lugares distribuindo, em DCEs, na escola de advogados, na Universidade Federal. A gente também ia vender onde tinha atos públicos, ou nos bares onde a esquerda se reunia”. Ela lembra ainda que, com as sobras de cada semana, o grupo fazia um pacote de 5 exemplares antigos para vender na porta dos cinemas: “O jornal era interessante, não caducava”.24

BELÉM

Em Belém, Movimento se inseriu na articulação para a constituição da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), foco de reaglutinação de militantes da esquerda.

Em 1976, estávamos tendo contato com pessoas que queriam retomar o movimento democrático. Era uma peregrinação democrática, pessoas que tinham sido estudantes na década de 1960... A distribuição de Movimento era justamente entre esses setores de esquerda, pessoas com quem a gente podia contar para a retomada dos movimentos sociais, assim explica Hecilda Veiga,25 ex-militante da AP que estivera presa ao lado do marido, Paulo Fonteles,26 por um ano, período em que teve um filho na prisão: “Nesse momento o jornal acabou sendo um grande estimulador do debate de que era possível nos organizarmos pela luta democrática.”

Belém é a porta de entrada para a floresta, tema de muito interesse do jornal e de Raimundo Pereira em particular.

Nós, jornalistas, temos de ser os naturalistas modernos que descreverão o horror da atual colonização da Amazônia pelo capitalismo e o latifúndio selvagem e, ao mesmo tempo, os arautos dos que profetizam as maravilhas da nova civilização que a natureza e o povo amazônico certamente esperam e quase certamente conseguirão, dizia o editor-chefe em carta27 ao correspondente Luiz Maklouf Carvalho, que passou a colaborar com o jornal em dezembro de 1977.

CURITIBA

Curitiba também viu um grupo de apoio ser formado a partir do empenho de uma colaboradora. A jornalista Fátima Murad, repórter de Movimento na sucursal de Brasília, mudou-se para a cidade em abril de 1976.

Fátima tinha 22 anos, era jornalista havia três e não conhecia absolutamente nada de Curitiba. Mas chegou com a determinação de fundar ali um escritório de Movimento.

Procurei alguns deputados autênticos do MDB do Paraná, como Alencar Furtado, que era do Conselho Editorial do jornal, e Sebastião Rodrigues, aí eles foram me passando contatos lá. Me deram listas de gente de oposição no geral, eu não tinha ideia se dessa ou daquela tendência.28

A primeira peregrinação foi para vender cotas. A cada pessoa que ela procurava, surgiam mais três, quatro nomes.

Em Curitiba estava um desânimo em todas as correntes. Estavam todos desagregados por causa da repressão. Uma pessoa que me recebeu bem foi o Euclides Scalco, que era o presidente do MDB local, e fui conhecendo deputados, como Trajano Bastos, Deni Schwartz. Procurei um grupo de advogados, entre eles Edésio Franco Passos, que depois foi vereador pelo PT... E até o Paulo Leminski, eu me lembro que fui à sua casa; ou vendi assinatura ou arranquei alguma cota dele. Nunca recebi recusa na venda de cotas. E era engraçado porque eram ações furadas, não tinham nenhum valor na Bolsa, mas as pessoas queriam mesmo ajudar.

Ela acredita que o jornal deu uma força para rearticular a esquerda após o auge da repressão: “Movimento tinha essa coisa de agregar tudo que era oposição, você sentia que o jornal era um incentivador à participação. E para mim jornalismo era isso, formar opinião, discutir e abrir”.

Outro grupo que rapidamente acolheu Fátima, a “pessoa do Movimento” na cidade, foram os alunos da PUC e da Universidade Federal do Paraná: “Os estudantes já compravam, se interessavam, aí a gente foi armando núcleos para aumentar as vendas”. Em poucos meses, conseguiram vender 400 assinaturas na cidade.

Sem um tostão para uma sala própria (montar uma sucursal àquela altura estava fora de cogitação), Fátima encontrou grandes aliados nos jornalistas. Usava as redações do Estadão – próxima à sua casa – e de Veja. De manhã, ia ao Estadão, com a bênção do chefe de redação Dirceu Martins Pio. Às tardes, Hélio Teixeira garantia que ela sempre tivesse uma mesa com uma máquina de escrever à sua disposição no escritório de Veja.

Aos domingos, era Fátima que buscava os jornais no aeroporto:

Eu pegava um ônibus até São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, pegava aqueles pacotes e sempre alguém na rua se compadecia, me ajudava a entrar no ônibus de volta – eu não tinha dinheiro para táxi, essas coisas. Chegava na cidade, pegava outro ônibus para casa...

E aí se fazia o mutirão para colocar os exemplares em envelopes que depois iriam para o correio. Eram amigos que faziam parte dos grupos de estudo sobre Marx e História do Brasil que aconteciam na casa de Fátima.

“Quando a gente viu que era viável, eu aluguei minha salinha”, lembra ela. Além dos estudantes voluntários, Fátima contratou uma secretária e dois rapazes pra ajudar nas vendas. A salinha, que ficava na rua das Flores, no centro da cidade, foi ganhando cor. “Quando começaram a falar em Constituinte a gente fazia uma vez por semana, à noite, reuniões para discutir o assunto”. Com crescente apoio, o jornal tornou-se uma “nova instância política”, nas palavras da correspondente, e um ponto de encontro de diferentes tendências: “A gente era tão prestigiada que eu chegava a ser convidada para participar de reuniões fechadas do diretório estadual do MDB.”

A equipe formada por Fátima testemunhou um dos episódios mais dramáticos de repressão contra o jornal. No final da tarde de 17 de março de 1978, uma sexta-feira, a repórter Juracilda Veiga, de 21 anos, foi agarrada, ao sair do colégio onde lecionava, por três homens armados, e levada para dentro de uma Veraneio azul – carro usado pela repressão. Foi o início de uma forte onda de repressão que atingiu Curitiba.

Na manhã seguinte, seguiram-se as prisões de mais 11 pessoas ligadas a atividades intelectuais – incluindo outro colaborador de Movimento, Walmor Marcelino, e o advogado Edésio Franco Passos. Permaneceram incomunicáveis com base na Lei de Segurança Nacional.

Euclides Scalco foi procurar o arcebispo dom Pedro Fedalto – conhecido pela postura conservadora, mas que deu apoio – e, no mesmo dia, membros da igreja e de setores democráticos montaram uma assembleia permanente na Cúria Metropolitana de Curitiba, reunindo mais de 400 pessoas. Segundo Fátima Murad.

“Teve uma grande assembleia, grande mesmo, no auditório

da Universidade Federal, e a gente escreveu um documento,

datilografou, imprimiu... Ia ser Domingo de Ramos, aí dom

Pedro Fedalto escreveu uma autorização para cada padre de

cada paróquia, e esse documento foi lido em todas as missas.

Foi uma coisa impressionante.”

O episódio repercutiu no Brasil inteiro, o que acabou levando todos aqueles presos a serem libertados. Juracilda foi solta na noite do sábado em uma estrada próxima à cidade de Registro, no estado de São Paulo. Os seus algozes receberam um comunicado dizendo que “tinha dado zebra” e que “soltasse a menina ali mesmo” – antes, eles haviam dito que a estavam levando para São Paulo para “bater um papinho com o delegado Fleury”. Enquanto esteve presa, foi interrogada diversas vezes, sempre encapuzada. Sofreu choques elétricos nos pulsos e nos braços, além de diversas ameaças. “Prisões e sequestro no Paraná – o terceiro em menos de 8 meses”, noticiaria a edição seguinte de Movimento, complementando: “Mas desta vez a reação da comunidade foi maior”.

LONDRINA

Na mesma época, Londrina, a 379 quilômetros de Curitiba, firmava-se como um polo de oposição ao regime. Ao contrário da capital – todas as capitais eram “área de segurança nacional” e só podiam fazer eleição indireta –, ali havia eleição direta para vereadores e prefeitos, prevalecendo o MDB. Organizado em torno da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da PUC, o movimento estudantil era criativo e articulado, mantendo um jornal de qualidade, o Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, que chegou a imprimir 3 mil exemplares.

O estudante Marcelo Oikawa, que já trabalhava como jornalista, conta que “éramos um grupo de jovens com uma formação cultural e uma preocupação política um pouco mais avançadas, e de maneira organizada tentávamos manter uma atividade cultural, como teatro popular, concurso de poesia...”29

Uma das atividades de mais peso eram as semanas de discussão em que se debatia de tudo – economia, guerra do Vietnã, indústria nacional, a questão do Líbano. Nomes como dom Tomás Balduíno, dom Pedro Casaldáliga e Luis Bandeira figuraram entre os palestrantes. Raimundo Pereira foi convidado para falar sobre o trabalho de Movimento. A ligação nasceu ali. Segundo Oikawa, “as pessoas que tinham a preocupação de entender um pouco melhor o que acontecia ficavam muito atentas a qualquer tipo de publicação underground que surgisse”.

Raimundo voltaria muitas vezes a Londrina. Aquele grupo de estudantes (alguns formariam mais tarde um núcleo do PCdoB) manteve por muito tempo estreita ligação com Movimento, tornando-se chave no apoio dentro do movimento estudantil. Tonico Ferreira também iria algumas vezes a Londrina, assim como Sérgio Buarque de Gusmão, que chegou a ser impedido pela polícia de ali proferir uma palestra.

Além dos estudantes, os professores estaduais ligados à Associação de Professores do Paraná também formavam uma das “pernas de apoio” do jornal em Londrina, segundo Marcelo: “Foi um dos grupos mais importantes. Eram jovens que se formaram na UEL dentro do movimento estudantil, e em 1978 promoveram uma greve que parou todas as escolas do estado.”

Em certo momento, segundo Marcelo, a região teve mais de 1.600 assinantes, uma enorme façanha alcançada graças ao empenho desses professores, que lideravam núcleos pelo interior e vendiam muitas assinaturas. “Também tinha muitos estudantes do interior que levavam para casa e vendiam”, diz Oikawa. Faziam parte do grupo estudantes como Alberto de Paula Machado, que viria a ser presidente da OAB no Paraná, Gilberto Berguio Martin, que seria Secretário de Saúde do estado, José Antonio Tadeu Felismino, futuro vereador e presidente da câmara municipal, e Luís Cheida, que seria prefeito de Londrina em 1993 e deputado estadual.

“O pessoal de São Paulo ficava surpreso porque batíamos todos os recordes de assinaturas”, lembra Marcelo. Após o “racha” no jornal, que ocorreu em 1977, o grupo foi convidado pela diretoria para enviar integrantes para a redação. “O convite do Raimundo era um reconhecimento da importância e do nosso preparo político e jornalístico. Para nós foi um fortalecimento”. A turma decidiu, em reunião, enviar os jornalistas Nilson Mourão e Roldão Oliveira Arruda. Além deles, em 1979, Célia de Souza passaria a ser a diretora de vendas de Movimento. “Ficamos com o Raimundo desde o início até o final”, diz Marcelo Oikawa.

PORTO ALEGRE

    Desde o seu lançamento, em 1975, Movimento teve um correspondente em Porto Alegre, o jornalista Carlos Moissman. Mas, no início, o grupo gaúcho permaneceu pouco estruturado e sem apoio substancial. Em 1976, o candidato emedebista a vereador Marcos Klassmann, egresso do movimento estudantil, passou a coordenar as vendas de assinaturas, levando a sede da distribuição para seu escritório de campanha. Klassmann procurou a corrente Viração do movimento estudantil, que acabou sendo o principal apoio do jornal na cidade. Na época estudante de arquitetura, Guilherme Loss se engajou na empreitada.30 Com a cassação do mandato de Klassmann, 15 dias após a posse, essa articulação perderia força.

Parte da dificuldade para a implantação de Movimento ali vinha do fato de que o Rio Grande do Sul já tinha o seu veículo jornalístico de oposição. Entre 1976 e 1983, o Coojornal, de uma cooperativa de jornalistas, foi o principal meio de informação independente do estado, chegando a alcançar uma tiragem de 40 mil exemplares, em 1979. As duas equipes mantinham relações cordiais e de colaboração e intercâmbio de matérias e informações.

Em Santa Maria formou-se um núcleo de apoio ao jornal. Raimundo Pereira esteve lá e proferiu uma palestra. Desse núcleo fizeram parte Adelmo Genro Filho e seu irmão, o ex-vereador do MDB, Tarso Genro.31 Como Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, centenas desses jovens pelo País iriam se tornar lideranças políticas, muitas delas de projeção nacional.

 

ELES ERAM CENTENAS

Viajando por todo o País, o repórter Murilo Carvalho podia perceber de perto a repercussão de Movimento: Eu via que o jornal estava se constituindo como um instrumento muito bom no interior do País.(...) E talvez as pessoas de São Paulo não percebessem a importância disso que nós estávamos fazendo, nas pequenas comunidades do interior do País, nas cidades pequenas, grupos de discussão, pessoas que iriam ter alguma influência no futuro. Tanto que se você olhar, quase todas as pessoas que fundaram o PT, os deputados, todo esse pessoal era tudo gente do jornal Movimento, gente que era vendedor de Movimento. Então, acho que o jornal teve um papel fundamental para levar informações para jovens que não tinham acesso a nada (...) Ajudou a criar lideranças, não tenho dúvidas disso. E são centenas.32

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A arte da resistência

 

Os recursos gráficos de Movimento eram magros. Impresso através de fotolito, a mais avançada técnica da época, o jornal era composto com uma tipologia limitada, em preto e branco, com apenas a liberdade de uma corzinha extra na capa. Mesmo assim, foi um espaço importante para a afirmação de uma nova geração de ilustradores e cartunistas como Jayme Leão, os irmãos Chico e Paulo Caruso, Cássio Loredano, Grilo, Alcy, Luiz Gê, João Zero, Arnaldo, Nilson, Laerte, Jota, Angeli e Glauco, levados ao jornal por influência de Elifas Andreato, autor do projeto gráfico1.Eles marcariam a “cara” do jornal. E mais: esse destaque dado às ilustrações influenciaria toda a imprensa.

Elifas Andreato reconhece que o projeto gráfico partiu de uma ideia “conservadora”. “Isso já era uma imposição do próprio conteúdo. Sabíamos que a gente ia fazer um jornal de oposição em que o texto teria papel de destaque. A discussão era: 60% imagem e 40% texto ou vice-versa? Prevaleceu 60% texto e 40% imagem. Mas nunca funcionava exatamente assim porque o Raimundo sempre ‘roubava’ um pouco a gente”, brinca.2

Armando Sartori, que esteve envolvido na produção do jornal desde o primeiro até o último número, sublinha que a parte visual não era prioridade.

Não dá pra dizer que o Movimento era um jornal bonito, né? A gente tentou em algum momento fazer um novo projeto gráfico e não conseguiu. Eu diria para você que a gente não tinha preocupação muito grande com esse problema da beleza do jornal, do acabamento gráfico, não tinha mesmo. O jornal era sempre muito pensado pelo seu conteúdo, pelo que ele ia dizer.

Ele explica da seguinte maneira o espírito da produção gráfica: resistência era fazer o jornal chegar, toda semana, às bancas. Depois de ser retalhado pela censura prévia, tratava-se de juntar tudo o que sobrou e ainda assim fazer um jornal: “Não estou querendo dizer que essa era única maneira de fazer o jornal, era a maneira que a gente encontrou de fazer.”

A censura, além dos textos, cortava também ilustração atrás de ilustração, impondo um ritmo de trabalho exaustivo. Depois de prontas as matérias, os ilustradores faziam um esboço que era mandado à censura. O desenho só era concluído se a ideia passava pelo censor. O ilustrador Alcy relembra:

Às vezes a gente fazia vários esboços numa mesma matéria

só pra dar trabalho pro censor. Na correria dele ter que ver

tudo aquilo, acabava passando alguma coisa. E depois tinha

o dia do fechamento. O desenho vinha da censura, o tempo de finalizar aquilo não era uma maravilha. E vinha o Tonico Ferreira, “vamos fechar pessoal”, “vamos fechar”...4

Ao todo, foram 3.162 desenhos vetados em quase três anos.

Chico Caruso foi um dos primeiros a entrar na equipe, pois conhecia Tonico Ferreira da faculdade de Arquitetura da USP. Segundo ele, os desenhistas costumavam produzir três vezes mais que o necessário. “Isso foi dando pra gente uma certa sabedoria. A gente fazia um desenho mais violento, um água com açúcar e um intermediário. O cara cortava o mais violento, deixava o intermediário.”5

Do Rio, Grilo enviava suas impressões em xilogravura a partir da matriz esculpida na madeira. O processo era ainda mais trabalhoso do que das ilustrações habituais porque implicava em fazer alguns esboços de desenho, decidir por um deles, e depois passar dois dias gravando a madeira para depois “carimbar” um papel. Mas, até mesmo pela natureza do trabalho, ele teve pouco problema com a tesoura.

Eu nunca fiz um trabalho que é mais alvo de censura, que é

a charge, com um recado mais facilmente compreensível. A

charge é mais direta, mais popular, está lidando com assuntos

que as pessoas sabem o que é, é mais facilmente censurada. A

ilustração tem camuflagem, ela pode ganhar um certo impacto

de acordo com o contexto.

O artista dá dois exemplos. Numa gravura sua, um limpador de unhas passando pelas pontas dos dedos de uma mão foi editado em tamanho grande porque naquela edição muitas reportagens haviam sido vetadas. E acabou ganhando grande repercussão.

Quando foi ampliado, naquele momento de tortura, de repressão política, ficou uma forte referência à tortura, mas não era essa a intenção. Então até saía fora da ideia original do trabalho porque era contaminado pela maneira como ele era inserido.

Outro exemplo é a capa da edição 103, de 20 de junho de 1977, também gravada por ele, em que uma figura circense usa uma máscara terrível, e segura uma tesourinha – esta, sorrateira, escapou da vista do censor. “Você vê a máscara, aquela figura, aquela história toda era só pra botar uma tesourinha, uma alusão à censura, que estava ali meio solta. Você vê a que extremo a gente chega quando está num regime em que tudo era proibido. Hoje esse detalhe pode parecer bobagem”, explica.

Elifas avalia que havia uma liberdade de criação invejável pelo fato de a publicação ser um dos poucos espaços não submetidos à autocensura. “Nas empresas grandes havia autocensura, um forte controle sobre o conteúdo a ser publicado, apesar de haver jornalistas comprometidos. Mas foi assim também na música, no teatro; a gente usava todo lugar onde achava que tinha espaço para colocar as questões do momento”, diz ele. “Os covardes, como diz Chico Caruso, a história apagou”.

 

DIAGRAMAÇÃO

Ao longo da história de Movimento, o setor de arte variou muito, mudou de mãos e de orientação. Em 1975, dividiram as tarefas gráficas o próprio Tonico Ferreira, que tinha experiência como diagramador, o Juca Martins, fotógrafo, e Toninho Mendes, esse sim um diagramador profissional.

Armando Sartori, inexperiente, se ofereceu para ajudar o time no começo de 1976 – antes, era revisor. Ele recorda que, de acordo com a técnica da época, seu trabalho consistia basicamente em fazer contas.

Era o seguinte: você recebia a lauda datilografada, meio rabiscada. E tinha que calcular o número de toques... Em teoria, cada lauda devia ter 1400 toques, 20 linhas de 70 toques. Você fazia o cálculo da centimetragem da coluna e aí jogava aqui, dizia se tinha que cortar ou não, riscava, fazia um esquema as sim: aqui começa o texto, aqui vem a capitular, aqui pode por o intertítulo, aqui o título, o texto corre, aqui uma fotografia.

Esse “boneco” ia depois para a gráfica, onde os textos eram digitados já no formato escolhido – duas ou três colunas, com fotos nos devidos lugares e intertítulos – e depois transformados em fotolito.

Armando se lembra de muitas e muitas madrugadas que passou na gráfica tentando resolver probleminhas de última hora; se o cálculo estivesse errado, uma palavra sobrava, faltava espaço.

Quando você vai fechar na gráfica, tem que resolver esses problemas. Ou você vai pedir “pelo amor de Deus” para um redator ir lá e cortar, ou vai falar “então tira a foto”, preenche o buraco aqui e resolve pra fechar. Ou, no caso em que falta, você amplia a foto. Tem que dar um jeito de alguma maneira, porque o jornal tem que sair.

Meses depois, ele seria promovido a chefe de arte, cargo em que permaneceu até 1978. Trabalhou ao lado de dois jovens estudantes da USP, Sérgio de Oliveira e Cid Oliveira. Lembra Sartori:

No dia a dia, era assim, o Cid e o Sérgio só iam lá na quinta feira à noite e na sexta. Na sexta-feira um deles ficava na diagramação e o outro, que acho que era o Sérgio, ficava fazendo produção, isto é, ficava buscando foto e tal. Aí, tinha um esquema interessante, grande parte das fotografias que a gente usava eram da editora Abril. O esquema era o seguinte: nós tínhamos amigos na editora Abril, um deles era o Pedro de Oliveira, editor de arte da Veja. A gente pedia as fotos que precisava para ele. Ele pedia como se fosse para a Veja e a gente ia lá, pegava o envelope, publicava e devolvia depois.

Pedro de Oliveira confirma. Sua contribuição também era transmitir informações que obtinha nas redações e contatar fotógrafos amigos para obter fotos. Ele diz que sempre ajudou, combinando as coisas com Elifas, tanto em Opinião quanto em Movimento: “Como a Veja fechava na sexta-feira, no mesmo dia dos jornais, eu não tinha tempo, fui só umas poucas vezes dar alguma ajuda no fechamento na gráfica.” Pedro vendia o jornal no Sindicato dos Jornalistas, onde atuava como ativista sindical. E comprou ações: “Tenho até hoje os papéis dessas ações, as primeiras que comprei na vida.”7

A CARA DO JORNAL

Mesmo com tantos percalços, Movimento muitas vezes chamava a atenção justamente pelo visual, com belas capas – e o mérito é do grande time de ilustradores reunidos por Elifas Andreato. Ele mesmo produziu capas marcantes, que ficariam na história do jornal.

Numa delas, que ilustraria a edição especial sobre a Mulher e o trabalho, em maio de 1976, uma bela mulher morena, de cabelos negros caindo sobre os ombros e semblante sério, traz a mão grossa pousada sobre o peito. Em preto e branco, com detalhes em rosa, a capa é um exemplo perfeito da produção de Elifas à época, que figurava em muitas capas de LPs e cartazes de peças de teatro.

Ele aponta como uma de suas preferidas a capa da edição 63, de 13 de setembro de 1976, que traz a cobertura da morte de Mao Tsetung.8 O desenho em preto e branco ocupa toda a primeira página e traz um retrato do líder chinês de lado, com os olhos voltados para fora do quadro. Ao lado, em duas linhas, a única chamada, “Mao Tsetung, 1893-1976”, é encimada por um único detalhe colorido: uma estrela vermelha.

Outro que fez muitas capas e deu mais ideias ainda foi Chico Caruso: “Me lembro de uma capa que eu fiz sobre a Copa da Argentina (em 1978), fiz um fuzil com a camiseta da Argentina”. Muitas vezes ele dividia o trabalho com o Alcy, e chegou, inclusive, a inventar um codinome para a dupla, Alchico.

Relembra Alcy:

A gente bolava uns desenhos sobre o assunto de capa, e o que passava na censura acabava entrando. Me lembro de uma capa com um trabalhador carregando o Brasil nas costas, eu colei um mapa do Brasil que recortei de um atlas. Essa ideia é do Chico. Ele que desenhou e mandou para a censura, mas depois me deu pra finalizar porque ele estava com muitas coisas pra fazer.

O cartunista Jota, conhecido por todos como Jotinha, foi outro que fez muitas capas – na fase final foi até contratado como capista. Antes disso ele passou por um longo aprendizado com o pessoal da arte, de quem era amigo. Com 17 anos, ele fora trazido de Londrina por Jayme Leão. “Eu me lembro que numa época eu tinha o dobro da idade dele. Mas ele saía com a gente e era muito engraçado porque ele era muito crítico, um cricri mesmo, mas um cara muito inteligente, muito bom”, recorda Alcy.

Armando Sartori completa:

A gente contratou o Jota, pagava fixo pra ele ir lá na quinta-feira e na sexta-feira para fazer a capa. Não é que ele ia desenhar a capa, ele ia fazer o layout e resolver a capa. Só não fez a última edição porque o miserável sumiu, acho que estava desesperado porque o jornal ia fechar e tal, quem fez foi o Alcy.

Mas o maior capista de Movimento foi mesmo Jayme Leão. Seus traços fortes, realistas e detalhados imprimiam um peso ao desenho que resumia bem o conteúdo denso das reportagens. Um exemplo é a capa da edição 19, de 10 de novembro de 1975, que mostra um menino segurando um pedaço de pão, orelhudo, com fortes traços marcando detalhes no rosto e nas mãos, sua expressão mostra desconforto e receio e seu olhar mira diretamente o leitor. A manchete é “A Fome”, esclarecendo que dentro do jornal uma reportagem de quatro páginas mostrará que o Brasil teria condições até de “super-alimentar” seus habitantes se quisesse.

Jayme Leão grafou seus traços em alguns dos principais momentos do tabloide: quando Figueiredo foi lançado como candidato à sucessão, em 1978; quando Maluf se tornou governador de São Paulo, em 1979; quando começaram as primeiras greves sindicais; quando Figueiredo propôs, em lágrimas, seu projeto da anistia (na ilustração, as lágrimas foram realçadas e se tornaram grossos pingos como verdadeiras “lágrimas de crocodilo”, expressão usada no texto da matéria).

De memória, Armando Sartori estima que Jayme Leão teve participação em “pelo menos” metade das capas:

Ou porque ele desenhou, ou porque ele fez a capa. Porque o Jayme além de desenhar fazia o layout, sabia a fonte que escolher e tal. O Jayme tem uma formação de publicidade, então tem uma concepção muito precisa do layout. Ele foi muito importante porque quando não tinha nem material para ilustrar inventava uma capa com letras, com a chamada.

RANCHO DA GOIABADA

Os ilustradores trabalhavam bastante e ganhavam pouco, como os demais. A maioria, como o gravurista Rubem Grilo, tinha outra ocupação para pagar as contas. Ele dava aulas de arte e fazia bicos como paisagista.

O que me levava era a oposição ao regime militar. Assim eu inseria o que estava fazendo dentro da realidade, dava uma função imediata para o meu trabalho, em vez de fazer uma obra de arte e acumular essa obra pra um dia colocar na parede, um percurso totalmente afastado da realidade. O jornal me deu razão para fazer o trabalho que continuo desenvolvendo como artista até hoje.

“É preciso entender que no período nós todos tínhamos um inimigo comum e todos lutávamos contra ele”, resume Elifas Andreato.

Era uma luta com a cara do grupo – sem muita discussão teórica, com um tom bem-humorado e cheio de criatividade. Alcy explica que, “se bem que não fosse um cara muito informado, alinhado com nenhum partido”, o inimigo comum o unia ao pessoal da redação. “Foi gostoso conhecer pessoas que trabalharam duro ali pra brigar contra as coisas. E também conviver com os artistas era uma coisa muito boa, era um convívio social, as noitadas que a gente fazia...” Nas noitadas dos bares de Pinheiros, onde ficava a redação, eles às vezes se autodenominavam marxistas “da linha Groucho”.

Rememora Alcy:

Tinha uma coisa muito prazerosa durante uma certa fase, a gente reunia os cartunistas, chargistas, ilustradores para desenhar todo mundo junto. Me lembro de noite, noite mesmo, tava lá o Chico Caruso, Cássio Loredano, o Jayme Leão, o Jota, o Angeli, acho que também o Luis Gê, então era uma delícia, a gente juntava umas mesas, fazia uma mesona grande e ficava todo mundo conversando e desenhando.

Naqueles anos se foi definindo meu trabalho, tive uma convivência muito boa com outros artistas, tinha uma boa troca de impressões, de estilo de um pro outro, que me fez crescer. Era legal que fosse um jornal não da grande imprensa, que estivesse lutando contra o estado de coisas, isso nos ajudou a manter uma linha de buscar a independência até hoje.

Até mesmo por ser um jornal bastante politizado, além da disputa corriqueira entre o espaço destinado à arte, havia desentendimentos com a redação em relação ao enfoque das matérias e à linha editorial. Para Chico Caruso, que ainda guarda grandes críticas à publicação, “o que prejudicava era o espírito panfletário do jornal, que publicava sempre um massacre de texto, sobre ‘a questão do campo’, ‘a questão da cidade’...”

Ele diz ter tentado intervir algumas vezes durante reuniões de pauta, propondo temas menos “duros”, mas lembra até hoje entre risadas da vez em que se decidiu pela inserção de uma pauta mais “leve” na edição.

Estávamos lá discutindo: “pô, os temas são muito duros, por que a gente não faz uma matéria sobre alguma coisa mais corriqueira, como o casamento?” Daí um repórter, acho que o Murilo Carvalho, foi fazer a pauta. Saiu da redação e virou no primeiro armazém que encontrou, foi falar com uma portuguesa, ali, de braços cruzados. “Olha, estou fazendo uma matéria sobre casamento”. E a mulher: “Mas o senhor com tanta coisa pra escrever no seu jornal, vai escrever sobre uma coisa tão vagabunda como o casamento?”

A frase foi usada para abrir a matéria.

Outro episódio que ilustra a discordância ficou marcado na memória de alguns dos ilustradores. Era 1976, e Aldir Blanc e João Bosco haviam acabado de lançar a música “Rancho da Goiabada”, cuja letra dizia:

Os bóias-frias quando tomam umas birita/ Espantando a tristeza/Sonham com bife-a-cavalo, batata-frita/ E a sobremesa/ É goiabada-cascão com muito queijo/ Depois café, cigarro e um beijo/ De uma mulata chamada Leonor/ ou Dagmar.

Sérgio Buarque de Gusmão publicou um texto criticando a letra. A turma não gostou, mas não perdeu o bom humor. “Ali tinha uns caras muito sérios”, diz Alcy. “Escreveram que era um desrespeito aos boias-frias a letra, e aquilo, pô, a gente morria de rir. Pô, o cara escreve um texto lá desancando a música, e a gente ali – Juca, Toninho Mendes, Chico, Jotinha

– não batia com aquela ideia”. Elifas Andreato é outro que discordou:

Eu achava mágica aquela música, nada mais cruel, nada mais real... Até hoje adoro. Mas tinha um grupo ali que achava uma coisa assim, não podia ter mulata, não podia misturar sexo com revolução... Nesse episódio os ilustradores ficaram com dois pés atrás.

“A gente era a favor do ‘Rancho da Goiabada’, né?”, arremata Alcy.

CORTA ESSA!

Foi nesse mesmo espírito que os cartunistas “tomaram conta” da última página do jornal, criando a seção “Corta Essa!” em meados de 1978, logo depois do fim da censura prévia. A seção de cartuns circulou até julho de 1980, como uma provocação e um grito de liberdade. Mesmo com parcos recursos gráficos, a última página foi muitas vezes portadora dos comentários mais mordazes e certeiros sobre os fatos da semana.

A primeira edição foi a 155, uma depois da queda da censura. O texto avisava, dúbio: “Humor cortante, pode causar apreensões”. E prosseguia:

Aproveitando o espaço conquistado e revivendo o saudável hábito da gozação, os humoristas de Movimento cumprimentam os leitores e pedem licença para apresentar mimosa coletânea de diatribes contra a prepotência. E desafiam: corta essa! corta essa, leitor, e cola na escrivaninha, na oficina, na parede do bar...

“Eu que sugeri esse nome, ‘Corta Essa!’, que era uma expressão que eu achava descontraída, gozadora e meio crítica. Também sugeria várias coisas, pretendia-se que o jornal fosse popular, então que o trabalhador cortasse lá pra colar na parede...”, diz Alcy, que editava a seção junto com Chico Caruso. E era também uma evidente referência à censura.

Flávio de Carvalho, editor de internacional, foi assíduo colaborador da seção e chegaria a editá-la. Ele lembra que a ideia surgiu, claro, numa mesa de bar.

Como a gente volta e meia depois do fechamento ia “prum” boteco, numa rua paralela à Virgilio de Carvalho Pinto – Flor do Pinho o nome, a gente chamava de Pinho Sol – as conversas foram ficando engraçadas, e assim veio essa ideia de fazer uma seção de humor que fosse também política, com sátira.

Com a sua colaboração a seção trazia também poesias satíricas e algumas “cartas do leitor” fictícias.

Do lado do texto de alerta sobre o conteúdo “perigoso”, a primeira edição trazia uma charge do Angeli que mostrava um jornalista diante da máquina de escrever numa redação. Ele olha pra um tipo baixinho, bigodudo, que trazia consigo um gordo com cara de poucos amigos: “Bom, agora é liberdade com responsabilidade e o Nelsão vai ficar aqui pra não deixar que você se esqueça disso”.

Abaixo, um cartum do João Zero vai direto ao ponto. Um jornalista de TV, microfone na mão, lança para um senhor de terno e gravata: “E agora, senhor Ministro da Economia, a última pergunta: me empresta 50 paus?” No canto inferior esquerdo, uma charge assinada pelo Jota e o Chico Caruso: um general com várias estrelas no peito faz continência e diz “Estado de direito, volver!”

“Corta Essa! era um desafio”, diz Alcy.

Inicialmente era o Chico e eu que editávamos. Editar compreendia o seguinte: receber os desenhos, selecionar e fazer o layout da página, dar destaque pra um, pra outro. Era pauleira, os caras fechando na gráfica e a gente ia até 4, 5 horas da madrugada. Era produtivo, era ótimo!

E não faltava material, segundo ele: “Havia um interesse grande, tinha muita gente que era, estava sendo ou queria ser ilustrador, cartunista, apareceram vários caras. Tinha o João Zero, o Saiti... Então muita gente publicou ali”. Vale lembrar outros nomes que passaram pela seção: Luscar, Glauco, Arnaldo, LOR, Duá, Vasqs, Nilson, Maringoni, Henfil, Laerte, Ohi.

A equipe foi responsável por ótimos momentos do jornal. Quem fosse à última página da edição 169, de 25 de setembro de 1978, veria um cartum do Alcy em que dois amigos conversam:

Caiu o AI-5!

Em cima de quem?

Na edição 197, de 15 de abril de 1979, Maringoni brincava com a proposta de anistia feita por Figueiredo. Um oficial anuncia: “Saiu a Anis”, ao que um homem comenta para o outro: “É a tal anistia parcial do Figueiredo.”

Uma das vítimas favoritas da seção foi ele mesmo, Figueiredo – que, é bem verdade, colaborava muito. Assim, na edição 165, a frase acima da seção é “A última do Figueiredo: nem me conte, tenho medo!”. E abaixo: “o rapaz tem futuro... Senão como presidente, como redator do Corta Essa!”. Foram muitas charges sobre a célebre frase “prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo”, por exemplo. Uma, do “Alchico”, mostrava uma égua recebendo um carinhoso “cheiro” do futuro presidente.

Foi uma charge sobre Figueiredo, aliás, que rendeu um aditamento ao processo pela Lei de Segurança Nacional contra Tonico Ferreira (capítulo 18). Era o desenho de uma urna com forma de cavalo que havia caído em cima de alguém (ver à página 206). A charge foi vista como desrespeitosa pelo Procurador Geral junto à Justiça Militar, mas durante a audiência alguns dos ministros do Tribunal Militar não conseguiram evitar um sorriso ao olhar para a seção.

O flagrante saiu numa foto na edição 189, e a turma do Corta Essa! comemorou, no mesmo número:

... não é que no julgamento do nosso editor responsável na Auditoria do II Exército por chacota por nós perpetrada e considerada (por eles) atentatória à Segurança Nacional, no julgamento, dizíamos, desalentados que estávamos com a monótona rotina de fazer troça sobre troça, chiste sobre chiste, pilhéria sobre pilhéria, e ninguém (ninguém) rir, eis que se nos acontece... O quê ? Verifique na foto! Os juízes militares se divertem com o Corta Essa! Quer dizer que funciona! Fazemos rir! Existimos! Somos engraçados! Ficaremos ricos!

Ninguém ficou rico, claro. E com o tempo os principais colaboradores, como Chico Caruso e Alcy, acabaram debandando para outras empreitadas. Alguns continuaram colaborando, em especial Jota e Nilson, que chegou a fazer edições inteiras sozinho. Mas sem uma liderança comprometida, a seção passou a ser errática, sumindo por algumas semanas. Quando o jornal celebrava cinco anos, em julho de 1980, ela não dá as caras. Só reaparece na edição 251, de 21 a 27 de abril de 1980, totalmente reformulada e a cargo do já bastante sobrecarregado Flávio de Carvalho.

A seção passou a ter cruzadinhas satíricas com perguntas sobre o destino do País, por exemplo. Flávio de Carvalho também publicava notas políticas de bastidores carregadas de ironia. Outra constante eram os horóscopos como este, da edição 252:

Capricórnio. Pessoas nascidas sob esse signo são metalúrgicas e têm salário médio de 12 mil cruzeiros. Os comunistas, que nascem sempre em peixes, se infiltram entre os capricornianos para propagandear idéias deletérias à classe dominante e para insuflar greves que são legais no primeiro decanato mas que viram ilegais no segundo.

Uma das marcas desse período final era a sátira sobre os militantes da esquerda. Flávio ainda traz na memória: “Uma que teve muita repercussão era sobre um personagem da esquerda, mas superconservador. Ele tinha um lema que era tipo retroceder com decisão”. Na verdade o bordão era “retroceder ofensivamente”.

Outros personagens eram o prof. Péssimus Ignotus e o Sr. Rocha Corvo, que se empenhavam ferrenhamente na disputa interna de poder. Na edição 257, de 2 de junho de 1980, chegaram a tentar tomar o poder da seção, segundo uma nota intitulada “Racha no Corta Essa!” No caso dos dois vilões a coisa não deu certo. Após fazer “grandes análises de conjuntura” que previam a “derrocada do regime para o dia seguinte”, eles haviam marcado a data da revolução para o dia 28 daquele mês, às 12 horas, no Viaduto do Chá. Não compareceram. “Alegaram eles que não puderam comparecer ao local e hora da Revolução por terem, descuidadamente, marcado dentista para o mesmo horário”, elucida o texto.

Para Flávio de Carvalho, a seção fazia sucesso porque nenhuma outra publicação de esquerda tinha uma seção de humor. “Mas quando foi acumulando muitos problemas no jornal, aí tinha gente que não gostava, que achava que o jornal era sério, que não podia ter essas coisas, então teve uma assembleia em que foi votado o fim da seção”.

Ele se refere à Convenção Nacional de cinco anos de Movimento, realizada em 19 de julho de 1980 com a participação de 350 funcionários e acionistas. Durante a reunião, que durou doze horas, algumas pessoas propuseram encerrar Corta Essa!. Raimundo defendeu a continuidade, mas a proposta saiu vitoriosa – democraticamente, embora em votação apertada. A edição 264, de 21 de julho de 1980, seria a última do Corta Essa!. “Foi uma surpresa isso de ver que tinha muita gente mal-humorada na esquerda”, reclama Flávio de Carvalho.

 

UM TOQUE DE ICONOCLASTIA

Antes mesmo de nascer Corta Essa!, uma experiência de humor já havia sido feita em Movimento – uma espécie de “avó” da seção. Foi a edição especial de fim de ano de 1977, chamada “Pacotão de Natal”.

“O Chico falou pro Raimundo, aí a gente reuniu os cartunistas e fomos lá em casa”, lembra Alcy.

E nós chamamos o Myltainho, que ficou sendo o editor. Mylton Severiano tinha sido de Realidade, do Bondinho, do Ex, tinha um texto atrativo, e juntamos material pra fazer um negócio de fim de ano. O Myltainho quando viu falou: “é um pacotão!”

Ele explica que o “Pacotão” foi inspirado nos “pacotes”, decretos de restrição das liberdades democráticas, que o Geisel lançava, especialmente

o de abril de 1977: “Fizemos brincadeiras com todas essas estultices dos golpistas de 1964.”10

A edição saiu recheada de matérias fictícias de repórteres como Caco Barcellos, charges, cartuns e textos satíricos – por exemplo, um texto do “Professor Pereira”, escrito pelo Raimundo, e um do Nilsinho, em que uma vidente anunciava como seria o ano de 1978. O especial tinha duas faces: na primeira, era “Pacotão de Natal!” e satirizava temas natalinos. Do outro lado, no que seria a última página, havia outra capa, chamando a edição de “Pacotão de Ano Novo”. Assim, passado o Natal, era só virar o lado.

O jornal foi vendido de mão em mão pela turma. “A gente ia vender à noite, vender o jornal e beber”, relembra Alcy. “Na verdade, vendeu mais ou menos. Mas foi um jornal legal, todo mundo que fez gosta de ter participado”.

“Um ‘produto’ que nos divertiu bastante fazer”, resume Myltainho.

Fechei junto com os irmãos Caruso, Chico e Paulo. Foi uma forma de fazer “caixa”. Eles gostaram tanto que queriam transformar num periódico de humor. Mas não houve condições político-econômicas para tanto, o mar ainda não estava para peixe.

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A luta contra a censura

A edição de nº 2 de Movimento teve 14 matérias vetadas, 12 parcialmente cortadas, num total de 72 laudas. Várias ilustrações não puderam ser publicadas. A capa, que anunciava uma longa reportagem sobre a crise dos trens da Central do Brasil, teve que ser substituída depois que metade da matéria foi vetada. Na mesma edição, uma reportagem sobre indicadores sociais no País, feita por Teodomiro Braga, também foi censurada; e até mesmo a história de um meeiro do interior de Minas Gerais, feita por Murilo Carvalho, ficou de fora.

Mesmo assim, o jornal saiu com 28 páginas, em alguns artigos trazia a crítica à política de distensão do governo, à incompetência da Arena (o partido governista) e às escorregadelas adesistas de parte do MDB, o único partido legal de oposição. Trazia reportagens de denúncia como a de Aguinaldo Silva sobre o insolúvel assassinato da menina Aracelli em Vitória (ES), de irregularidades e corrupção no DNER, do processo de desnacionalização da indústria, de poluição do ar na cidade de São Paulo. Um artigo do cientista Marcelo Damy criticava o acordo nuclear feito com a Alemanha. A editoria de Internacional contribuía com uma entrevista feita pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez com o general Omar Torrijos, governante do Panamá, que tentava recuperar a soberania sobre a zona do canal; também registrava a crise do peronismo na Argentina, e uma derrota do Partido Socialista de Portugal depois da “revolução dos cravos”. Havia uma seção com muitas notas curtas trazendo informações importantes. A editoria de Cultura contribuiu com cinco páginas: Jean-Claude Bernardet noticiava a crise do cinema brasileiro, José Miguel Wisnik comentava o lançamento de dois discos e uma nova postura do compositor Caetano Veloso; Flávio Aguiar entrevistava o escritor João Antonio. Em “Estórias Brasileiras”, contos de novos escritores, Murilo Carvalho e Emanuel Medeiros Vieira.

A edição nº 3 também teve 14 matérias vetadas, 10 parcialmente censuradas, num total de 59 laudas cortadas, sem falar nas ilustrações e na capa.

O jornal saiu com 28 páginas. A matéria principal, uma grande geada no Paraná, feita pelos jornalistas apoiadores de Londrina, foi inteiramente vetada. Mas um texto da redação, intitulado “Um grande frio”, apresentou um cenário geral do País, atingido por uma onda de frio histórica, neve e geada no Sul, que queimou as plantações desde o Rio Grande do Sul até Minas Gerais. Em São Paulo, apenas uma consequência positiva, a chuva desvaneceu a nuvem de poluição que sufocava a cidade. No Nordeste, porém, a frente fria produziu inundações gigantescas, parte da cidade de Recife ficou embaixo da água, 26 mortes foram anunciadas. Ao mesmo tempo, mais um desastre de trem no Rio de Janeiro provocara 11 mortes. Segundo o jornal, o presidente Geisel e parte do comando político e militar do governo foram se reunir na sede da ferrovia Central do Brasil, no Rio, para avaliar a sequência de desastres na via férrea mais saturada do País. O ministro Mario Henrique Simonsen, da Fazenda, veio a público para dizer que a dívida externa assumia proporções ameaçadoras. Foi uma semana de más notícias. O texto era um retrato áspero mas fidedigno do País: o povo estava sofrendo e a ditadura, em dificuldades.

Havia uma detalhada cobertura da reunião da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência, SBPC, que se tornara um espaço para o debate de teses cada vez mais politizadas; um questionamento de Bernardo Kucinski sobre a quebra do monopólio estatal dos minerais atômicos no acordo nuclear com a Alemanha; a crítica a um líder do MDB que apoiava o AI-5. “Vampiros tropicais”, na página 11, era um texto brilhante de Aguinaldo Silva sobre os bancos de sangue que exploravam os pobres e desempregados da Baixada Fluminense. Mas dessa vez ele teria que dividir a glória de melhor texto com “O Circo”, da seção “Cena Brasileira”, de Murilo Carvalho, na página 3, a história de um circo mambembe, viajando pelas cidades mais pobres e distantes do País. As atrações eram um anão, um equilibrista que não conseguia se equilibrar, um atirador de facas desastrado e uma comédia da qual a plateia participava entusiasmada. Em certa altura a vida real invadiu a trama. O espetáculo foi interrompido por um espectador embriagado que manifestava sua desaprovação falando palavrões. Recebeu uma lição de moral em judiciosas palavras do palhaço e, para maior euforia do público, de seu próprio filho, que também estava na plateia, e que pregava sobre os malefícios da bebida. Sob vaias, o bêbado chorou. Plateia e atores participando da trama, tudo terminava com grandes aplausos.1

A edição nº 4 de Movimento teve 14 matérias totalmente vetadas, 12 parcialmente cortadas, publicadas com mutilações, num total de 94 laudas censuradas. Por exemplo, deixaram de sair uma reportagem sobre Cuba, um artigo do general Albuquerque Lima sobre os contratos de risco para exploração de petróleo; outro, sobre a crise e a estatização de empresas; uma carta de leitor tratando da política indigenista; uma Cena Brasileira descrevendo a vida de um trabalhador meeiro, e um artigo sobre o general Golbery. Essa edição também saiu com 28 páginas.

 

AS VÁRIAS ETAPAS DA CENSURA

Para se entender a evolução da censura em Movimento é preciso entender a sua evolução sob a ditadura. A censura sob o regime militar teve várias etapas. A primeira é a do próprio golpe. Foi o momento da censura à mão armada. Nele se destruiu um pedaço extraordinário da imprensa brasileira, toda a imprensa comunista e socialista, os jornais sindicais e estudantis. Foi destruído, também, talvez o melhor dos grandes jornais do País, Última Hora, o maior representante da imprensa nacionalista e democrática, do jornalista e empresário Samuel Wainer. Era uma cadeia de jornais, com edições em várias capitais, cuja fundação, em 1950, havia sido apoiada pelo presidente Getulio Vargas. Concorria com os jornais de Assis Chateaubriand, outro famoso empresário do setor, criador da cadeia dos Diários Associados, de orientação conservadora, que, ainda em 2010, tinha jornais remanescentes, como o Correio Braziliense, O Estado de Minas e o Diário de Pernambuco. Última Hora era um jornal político. Apoiou o governo Vargas eleito em 1950, até o suicídio do presidente, em 1954. Depois, apoiou também o governo do herdeiro político de Vargas, João Goulart, até sua deposição pelo golpe militar de 1964. Era um jornal vibrante, com ampla cobertura noticiosa, nacional, internacional e local, abrindo um espaço inédito na grande imprensa para notícias do movimento sindical, e movimentos populares, como os das associações de bairro e outras reivindicações das comunidades. Tinha uma forte cobertura policial. E uma seção de cultura expressiva, na qual escreviam críticos como Paulo Emilio Sales Gomes, Paulo Francis, Jean-Claude Bernardet. Um dos humoristas do jornal era o carioca Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta, o outro, o paulista Arapuã. Também Aparício Torelli, o famoso Barão de Itararé, foi colaborador. Tinha uma série de colunistas políticos, entre eles Jânio de Freitas, em 2010 ainda ativo na Folha de S.Paulo. A UH tinha oito edições regionais. José Ermírio de Morais, empresário nacionalista, apoiou a criação da Última Hora do Recife, que fez a campanha que o elegeu senador pelo estado de Pernambuco na chapa com Miguel Arraes, que se elegeu governador do estado.

O golpe militar derrubou o governo de João Goulart, que apoiava Última Hora. E destruiu o jornal. A corrente política que UH representava foi afastada do poder. Muitos de seus protagonistas foram presos. Outros perderam seus mandatos. Até empresários perderam mandatos, como foi o caso de Fernando Gasparian, dirigente de sindicato patronal, afastado pela ditadura. O empresário Rubens Paiva, amigo de Gasparian, foi preso, torturado e morto. Seu corpo continuava desaparecido quarenta anos depois.

Ao se falar da censura não se destaca suficientemente esse ponto: o golpe armado de 1964 destruiu tanto a imprensa socialista como a nacionalista e democrática. Também não se destaca suficientemente que o golpe se voltou violentamente contra os comunistas. Os jornais comunistas tinham uma circulação quase livre. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) não tinha existência legal, mas tinha uma grande liberdade de atuação. Mantinha nas bancas vários jornais, entre eles o semanário Novos Rumos. O outro partido comunista, o PCdoB, tinha A Classe Operária. A esquerda católica editava o semanário Brasil Urgente. Outras correntes de esquerda tinham jornais, como o Semanário, o Ligas, das Ligas Camponesas. Com o golpe, seus dirigentes foram perseguidos, vários de seus jornalistas foram presos e mortos. As gráficas que possuíam foram invadidas e confiscadas.

Essa censura inicial foi a mais radical e muitos de seus efeitos persistem até hoje. Mesmo agora, quase meio século depois do golpe, o País não tem mais, em escala ampla, em nível nacional, nenhum jornal da chamada grande imprensa de qualquer modo parecido com o que foi Última Hora. Em 1967, empresários progressistas fizeram no Rio de Janeiro o Sol, um diário de oposição. Mas era um jornal diferente, mais voltado para assuntos culturais para fugir da repressão. Além disso, teve pouquíssima duração. Pode-se dizer que, no campo político, Opinião (1972-1977) foi o único grande projeto de imprensa da burguesia nacionalista e democrática que se desenvolveu depois do golpe. Mas era um semanário e não teve alcance comparável ao de Última Hora.

 

O AI-5 E O APARATO DA CENSURA

   Depois dessa censura inicial houve momentos e episódios de censura. Mas um aparato censório formal só foi construído com base no Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, que suspendeu todas as garantias e liberdades individuais previstas na Constituição e permitiu aos generais no comando da Presidência do País governar por atos não passíveis de exame pelo Congresso Nacional e pela Justiça. Logo depois da decretação do AI-5, o general Silvio Correia de Andrade, delegado da Polícia Federal em São Paulo, declarou em entrevista coletiva:

Podem dizer que foi instaurado o arrocho à imprensa escrita, falada e televisada por parte do Contel, sob minha fiscalização direta. Os jornais estão sob censura no que diz respeito a greves, passeatas, comícios, agitação estudantil e qualquer tipo de ataque às autoridades.

Em 8 de setembro de 1970, uma extensa lista de normas foi apresentada a delegados da Polícia Federal durante um congresso no Rio de Janeiro. As recomendações, reproduzidas pelo jornalista Maurício Maia de Souza em sua dissertação de mestrado,2 incluíam vetar notícias “falsas” ou sensacionalistas, testemunhos em off, de fontes anônimas, comentários dos punidos pelos atos institucionais ou ligados a entidades estudantis dissolvidas. Também eram proibidos relatos de ações de religiosos que criassem tensões ou choques religiosos, greves e movimentos operários capazes de promover a subversão da ordem e, claro, notícias sobre todo tipo de repressão: cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos, prisões, tortura. Em documento de 29 de março de 1971, o ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, reafirmou os assuntos proibidos: os referentes a campanhas de revogação dos atos institucionais, especialmente o AI-5; os de “inconformidade com a censura”; de “contestações ao regime vigente”; as “notícias sensacionalistas que prejudiquem a imagem do Brasil no exterior”; as “notícias para agitar meios estudantis e sindicais”, “sobre censura e prisões políticas”; a “descrição minuciosa de crimes ou atos sociais”; as “notícias sobre tensões de natureza religiosa”; as “que coloquem em perigo a política econômica do governo”; a “divulgação alarmista de movimento subversivos em países estrangeiros, bem como divulgação que venha indispor o Brasil com nações amigas”.3

A censura foi suspensa em etapas. No início de 1975, o governo Geisel suspendeu os avisos de temas censurados expedidos diariamente para os grandes jornais, que não precisavam de censura na redação, porque obedeciam aos avisos. Acabou, ainda, com a censura na redação de O Estado de S. Paulo, que não obedecia aos avisos. E suspendeu também a censura na revista Veja. A censura a Movimento, O São Paulo, jornal da cúria metropolitana de São Paulo, dirigido por dom Evaristo Arns, e a Tribuna da Imprensa, jornal do Rio de Janeiro, dirigido por Hélio Fernandes, só acabou em junho de 1978. Opinião foi fechado por Gasparian em abril de 1977, ainda sob censura.

 

A CENSURA E A LUTA INTERNA DO REGIME

   Uma visão conservadora vende a história da censura da ditadura como sendo a da luta entre duas correntes: uma, do bem, que seria liderada pelo general Ernesto Geisel e seu assessor Golbery do Couto e Silva, que começou a abrir o País a partir de certa época e eliminou a censura; e outra, do mal, formada por nacionalistas sanguinários que mataram, prenderam gente e censuraram. É um equívoco: tanto a censura como a luta contra ela foram acontecimentos mais complexos. Setores da imprensa que representavam o grande capital, como O Estado de S. Paulo, resistiram à censura. Houve luta contra a censura nas redações dos jornais do grande patronato. Nesses locais houve resistência até mesmo de personalidades em altos cargos, como o jornalista Mino Carta, diretor de redação de Veja. Carta acabou sendo um empecilho para o acordo da empresa dona da revista, a Editora Abril, com o regime militar, para suspender a censura à publicação. A ditadura só liberou a revista depois que Carta foi afastado, no final de 1976.

Também houve uma vigorosa resistência à censura por parte dos jornalistas de órgãos clandestinos. Partidos e organizações em luta contra a ditadura recriaram as gráficas destruídas pelo golpe e continuaram publicando jornais, apesar de todos os riscos. Apenas um exemplo, o jornal Libertação, órgão da Ação Popular, e depois do PCdoB, foi publicado continuamente de 1968 a 1975.

E, no campo oposto, do lado da ditadura, as medidas tomadas refletiram problemas mais amplos e não apenas as posições ideológicas das correntes militares. A censura, por exemplo, foi relativamente contida no início do governo do general Emílio Médici (1969-1973), que é visto de um modo geral como o mais sanguinário dos generais. A história da censura a Veja é emblemática dessa situação. O semanário surgiu em setembro de 1968. O AI-5 veio logo a seguir. Em 1969, o presidente, general Costa e Silva, teve um derrame. A incapacitação do general deixou os militares sem um sucessor escalado. Formaram-se correntes entre os blocos de generais das três armas – Exército, Marinha e Aeronáutica – para disputar a sucessão. Veja estava vendendo apenas 15 mil exemplares em banca, depois de ter vendido 700 mil exemplares no lançamento. E Mino Carta aproveitou a crise entre os militares para fazer a revista crescer. Formou uma equipe, dirigida por Raimundo Pereira, que depois se tornaria o editor de política da revista. Na equipe estavam repórteres mais tarde famosos, entre eles: Elio Gaspari, Dirceu Brizola, Luiz Gutemberg, Bernardo Kucinski e Almir Gajardoni.

Essa equipe cobriu a crise da “sucessão presidencial”, que durou várias semanas, até a escolha do general Médici como presidente. Ouviu as três facções militares que se formaram: a do general Albuquerque Lima, um dos pretendentes à sucessão; a do general Médici, que venceu a disputa; e a do general Ernesto Geisel, que saiu da contenda escalado como o sucessor de Médici.Veja ousadamente aproveitou uma brecha para fazer uma cobertura histórica. Quando Médici assumiu, por alguma razão, a certa altura falou para um assessor que não ia admitir torturas. A revista publicou, então, como matéria de capa: “O presidente não admite torturas”. Na semana seguinte, o repórter Elio Gaspari encontrou o ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, no aeroporto Santos Dumont, mostrou-lhe a capa de Veja e perguntou: “Ministro, o presidente não admite torturas. O que o senhor fará?”. Buzaid falou: “Vou mandar investigar”. E aí a equipe da revista, com o apoio de Mino Carta, que mandou desligar os telefones da revista para não receber as proibições da censura, fez todas as sucursais levantarem histórias de torturas no Brasil. Foi feito um dossiê, que o presidente da editora Abril iria levar depois às autoridades militares. Com o dossiê se fez a histórica capa de Veja, de dezembro de 1969: “Torturas”.

A censura tornou-se mais pesada a partir de meados de 1972. Nos anos anteriores, a partir de 1968, o Brasil vivera um surto de crescimento econômico espetacular, que chegou a 10% ao ano. Essas condições começaram a mudar quando o milagre terminou e, de outra parte, surgiu, dentro da resistência armada ao regime, uma ameaça que, de início, pareceu muito perigosa, a guerrilha do Araguaia. A ditadura não conseguiu derrotar a guerrilha numa primeira e grande operação militar, ficou preocupada, aumentou a repressão. A censura, aí sim, tornou-se permanente em certos órgãos. O ano de 1973, o último do governo do general Mécidi, e 1974, o primeiro do governo do general Geisel, foram os da censura mais pesada.

Nesses anos o regime organizou seu ataque vitorioso contra os guerrilheiros do PCdoB. Os guerrilheiros foram perseguidos, presos, torturados e mortos, a maior parte deles, quando já estavam presos, sob responsabilidade do Estado. Seus corpos foram escondidos e, com exceção de dois, cerca de 70 continuavam desaparecidos em 2010. Como Elio Gaspari mostra em seus quatro livros sobre a ditadura, a quantidade de desaparecidos é maior no período do general Geisel, tido por muita gente, até hoje, como o mais liberal, do que no governo do general Médici, considerado o mais fascista.

Quando a censura saiu formalmente de toda a imprensa, em junho de 1978, ficou, no entanto, um aparato de censura operando na clandestinidade e acobertado pelo aparato repressivo legal, que fez atentados contra as bancas de jornais para impedir a venda dos jornais alternativos. E, curiosamente, um empresário da grande imprensa patronal, Julio Mesquita Neto, editor de O Estado de S. Paulo, ajudou a programar atos de protesto contra a nova forma de repressão à imprensa, fez parte de comissões. Não teve uma participação mais ativa, mas emprestou solidariedade política também à luta contra esse tipo de censura.

 

A PREOCUPAÇÃO DO REGIME COM MOVIMENTO

   A censura a Movimento teve episódios absurdos. Certa vez, o censor vetou todos os nomes próprios de uma reportagem sobre a lei do inquilinato. Em outra ocasião cortou todos os “nãos” de uma matéria. Mas esteve longe de ser uma censura ridícula e aleatória. Os arquivos do Ministério da Justiça, à disposição no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, oferecem uma rica documentação de como o governo tratava Movimento. Os documentos evidenciam a preocupação e a seriedade com que as autoridades da ditadura o encaravam. Jamais lhe deram folga. Até 8 de junho de 1978, data em que foi suspensa, a censura prévia havia vetado no jornal 3.093 artigos na íntegra, além de 450 mil linhas de textos parcialmente cortados e 3.162 mil desenhos. Mais de 4,5 milhões de palavras foram vetadas – cerca de 40% do conteúdo produzido, conforme balanço feito pelo semanário em sua primeira edição sem censura.4

A preocupação dos agentes da repressão com o jornal fica evidente pela frequência com que o material enviado para a censura ia também para o Ministério da Justiça e para o Serviço Nacional de Informações (SNI), o principal serviço de informações da ditadura. Em 7 de outubro de 1976, um funcionário da Polícia Federal, ao explicar que “o material censurado seria entregue com atraso”, disse que “o mesmo estava sendo lido pelo SNI”.5 Outro documento, hoje também no Arquivo Nacional, é o estudo sobre a censura a Movimento realizado pelos agentes do Cenimar, o centro de informações da Marinha. Datado de abril de 1978, o texto detalha as técnicas de “propaganda adversa” usadas pelo jornal nas matérias vetadas desde abril de 1977. O jornalista Maurício Maia acha que esse estudo teria sido “a última cartada dos setores mais duros das Forças Armadas para manter parte da imprensa sob controle direto”.6

O Cenimar analisou e classificou 1.182 artigos e 944 ilustrações e descobriu “técnicas de propaganda” utilizadas, como “insinuações”, “simplificações”, “generalizações” e “desfiguração dos fatos”. Com a intenção de demonstrar a periculosidade do jornal, a análise apontava também outros métodos adotados “no esforço subversivo de ‘conscientização’ e de modificação das ‘condições subjetivas’ da população”. Para o Cenimar, o jornal utilizava tom de “vitória inevitável” sobre a ditadura, o uso de “testemunhos” contrários ao regime, fazia “orquestração” pela Constituinte e usava e abusava de ataques pessoais às figuras do poder.

Por sua vez, o SNI fazia relatórios semanais sobre o conteúdo de jornais da imprensa alternativa, entre eles Movimento. Até 1981, esses relatórios repetidamente chegavam à mesa do ministro da Justiça pedindo providências. É o caso do informe de 30 de junho de 1979,7 que tratava de uma entrevista com um “mateiro” que trabalhou para o Exército durante a caça à guerrilha do Araguaia, publicada na edição 210 de Movimento. Para o SNI, a reportagem dava uma versão “francamente favorável aos guerrilheiros do movimento armado”, e enfatizava o papel “heroico” deles. A conclusão do informe é de que a matéria visava despertar a atenção para o problema dos desaparecidos.

Em julho de 1979, chegava ao Ministério da Justiça outro informe8 em tom de forte alerta, sobre a entrevista com João Amazonas, o principal dirigente do PCdoB, publicada na edição 215 de Movimento, de 13 de agosto. Destacava a defesa da luta armada e a promessa de Amazonas de voltar ao Brasil ainda em 1979. E concluía:

É lícito admitir-se um recrudescimento na pregação da luta armada, em face do retorno, cada vez maior, ao Brasil de militantes do PCdoB, anistiados, que nas declarações à imprensa demonstram claramente a radicalização existente em favor da principal bandeira do partido: a derrubada do atual regime.

Outra reportagem que acirrou os ânimos do SNI foi a revelação de que o comandante de um sequestro que tinha tido grande repercussão política e cuja autoria passara por ser desconhecida, a do bispo de Nova Iguaçu, dom Hipólito, fora um coronel do Exército. Movimento publicou o nome do coronel, José Ribamar Zamith, e a foto dele na capa.

Além de relatar o conteúdo da matéria, o SNI alertava para a crescente importância do jornal. O informe diz que Movimento, adotando uma grande variedade de assuntos em cada edição, vem constituindo-se em veículo de sistemática campanha contestatória ao governo e ao regime, logrando, por força dos enfoques explorados, a maior parte deles de natureza política, influenciar a opinião pública favoravelmente aos regimes de esquerda.9

Em 1980, os informes continuaram. Um deles fazia uma espécie de descrição do suposto plano subversivo dos editores de Movimento. Diz o informe de 16 de julho de 1980:

Indispor a população contra autoridade, instituições e as Forças Armadas; induzir o povo a acreditar que pode haver conciliação entre o cristianismo e o comunismo; exaltar o clero progressista e depreciar o clero conservador; persuadir o povo a colocar-se contra o acordo nuclear e a favor da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte e fazer proselitismo de esquerda foram os objetivos a que se propuseram os editores no exemplar 260 do jornal supracitado.10

 

TRABALHO DOBRADO, “NO ESCURO”

   A censura a Movimento já a partir do primeiro número foi além do esperado. Desde as primeiras reuniões para a formação do jornal, no entanto, Raimundo Pereira sempre insistira que a cara da publicação só seria definida após ser conhecido o peso da censura. E ela passou a ser desde logo um fator muito presente na pauta do jornal. Tanto que, numa reunião de pauta, logo após o seu final, em julho de 1978, um editor distraído comentou, sobre uma matéria: “mas será que isso passa?”.

A ordem na redação era fazer o máximo possível para driblar a censura e, ao mesmo tempo, evitar esforços inúteis. A equação era delicada porque incluía, segundo Sérgio Buarque, levar em conta a “realidade objetiva”.

Não podíamos perder tempo escrevendo que o general Médici e o general Geisel eram ditadores, né? Uma estupidez. Não fazíamos um jornal para censura, mas um jornal para o público, que era censurado. Uma coisa que sempre evitamos, e o Raimundo sempre cuidou disso, era querer ser mais esperto que a censura, fazer brincadeirinha. Esse tipo de esperteza nunca nos seduziu porque a gente sabia, éramos prisioneiros do cara, na semana que vem ele te acaba. Então, sempre foi um jogo ali da chamada correlação de forças. Nem nós, nem ninguém, né? Quem que ia escrever que o regime matava e torturava?

Além dessas questões táticas, havia ainda os problemas práticos criados pela censura. A partir da segunda edição, a Polícia Federal permitiu a remessa de material a ser censurado em três partes – na quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira –, o que, graças a um escalonamento do fechamento das matérias, facilitou a produção e a diagramação do jornal. Mas, ainda assim, sem saber o que viria a ser cortado, trabalhava-se “no escuro”. “Não dava para planejar nada, não tínhamos nenhum controle. A gente mandava aquele negócio, não sabia o que vinha de volta e depois tinha muito pouco tempo pra editar”, lembra Sérgio Buarque.11 Como não dava para fazer um espelho – um esboço do semanário, com a programação do conteúdo de cada página –, o jornal saía não só retalhado no seu conteúdo, mas também na aparência. Todos os aspectos eram influenciados. Programar um desenho em uma página com muito texto para dar leveza visual, por exemplo, por vezes era inviável.

O trabalho, também, era sempre dobrado. Em cada edição faltavam pelo menos três ou quatro matérias principais. Por isso, toda semana os editores trabalhavam com três ou quatro artigos de capa diferentes, porque nunca sabiam quais seriam vetados. No início, a entrega do material era feita na sede da PF em São Paulo, na rua Piauí, no bairro de Higienópolis. A cada semana um funcionário diferente era escalado para levar e ir buscar. O próprio diretor, Tonico Ferreira, chegou a ir. Sérgio Buarque também foi. Os mais escalados eram os novatos. O então estudante Paulo Barbosa, que trabalhava na área de vendas, era um dos que mais levava o material, com sua moto – um envelope com mais de uma centena de laudas datilografadas, sempre as originais. “Quando eu levava a da quinta à tarde eu trazia a que havia entregue na quarta. Na sexta, eu buscava a que entregara na quinta”, lembra Paulo Barbosa. Paulo também tinha que “se virar” quando havia uma notícia quente, de última hora:

Tinha um censor, era um senhor que morava ali na Peixoto

Gomide, que fazia um atendimento excepcional na casa dele.

Muitas vezes eu fui até lá na sexta à noite pra ele liberar uma

matéria. Mas aí era uma matéria só ou duas...12

Aos sábados uma cópia do jornal já diagramado era levada à PF para que os cortes fossem checados. Somente após a aprovação o jornal era impresso e a distribuidora, da Editora Abril, aceitava distribuí-lo.

A partir de segundo número, enquanto o jornal ia para a gráfica, algum jornalista (em geral Tonico Ferreira) escrevia um minucioso “relatório da censura”. O bloco com três ou quatro páginas, detalhando as matérias que tinham sido vetadas, era enviado a cada uma das sucursais, aos acionistas e a colaboradores. Além da descrição dos cortes, o relatório trazia sempre considerações de repúdio à censura.

Os problemas logísticos da censura tornaram-se maiores a partir da edição de nº 20, de dezembro de 1975. Por exigência da Polícia Federal, a censura passou a ser feita em Brasília. E, em princípio, numa só remessa.

Dizia o comunicado oficial, assinado pelo superintendente regional da PF, José Guimarães Barreto:

V. Sa. deverá providenciar a remessa da matéria relativa a cada edição, inclusive anúncios, fotografias, vinhetas, capa, contracapa etc., à sede do DPF em Brasília às quartas-feiras, até as oito horas. Cumpre esclarecer que não será permitida a substituição da matéria vetada, sendo obrigatório o preenchimento de espaços relativos aos vetos com assuntos normalmente aprovados e, se não houver, o editor diminuirá o número de páginas de edição.13

O jornal respondeu com uma carta à imprensa, que deu alguma repercussão, como uma matéria de duas colunas em O Estado de São Paulo. A carta dizia tratar-se de mais um grave cerceamento à liberdade desse jornal e da colocação de novo obstáculo ao funcionamento da empresa que o edita, feitos através de medidas que não têm amparo de qualquer legislação (...)Todos os textos, inclusive anúncios, fotografias, têm de ser enviados e recebidos por malotes a mais de mil quilômetros da redação, o que torna cada edição dependente até mesmo das condições de voos nos aeroportos. Crescem os custos de telefone, de transportes e mesmo de gráfica.14 Para ganhar tempo, o material era enviado por avião, com a colaboração de passageiros dos voos comerciais. Paulo Barbosa ia correndo ao aeroporto: Ficava vendo quais voos iam para Brasília, qual era o primeiro que ia sair... Então ia lá na companhia e via quem estava fazendo o check-in e conversava com ele, ‘olha isso aqui é um material de imprensa, o senhor leva pra Brasília? Um rapaz retira com o senhor no aeroporto’. A grande maioria aceitava, quase ninguém recusava. Isso naquela época, que todo mundo tinha medo...15 A sucursal de Brasília cuidava do contato com os censores. Como descreve Teodomiro Braga: O pessoal de São Paulo colocava o material no avião, a gente ia buscar às oito da manhã. Pegava a matéria, juntava com as nossas, de Brasília, e mandava para a censura. Muitas vezes, quem pegava era o contínuo, ia no aeroporto, levava na minha casa; a gente terminava de fechar lá, juntava e levava na censura. A censura devolvia os textos às cinco horas da tarde. Outra tarefa estratégica era distribuir o relatório das matérias censura das para colunistas, parlamentares, acionistas e colaboradores. Antonio Carlos Queiroz, o ACQ, como era conhecido, relata: Eu tinha na segunda-feira de manhã que fazer o périplo aos colunistas. Um deles, o mais famoso, era o Carlos Castelo Branco, do Jornal do Brasil. Eu chegava lá, ele me recebia, fazia um comentário: “Ô, meu filho, o que aconteceu?” e às vezes o papo se desenvolvia mais.

   Ele também visitava os jornalistas D’Allembert Jaccoud e Pompeu de Souza, na sucursal de Veja, e Carlos Chagas, na do Estadão, com quem costumava trocar muitas “figurinhas”. Muitas vezes o próprio ACQ ia receber o material e levá-lo aos censores: Pegava um táxi do aeroporto, ia para o setor de autarquia Sul, na sede da Polícia Federal, num prédio de vidros fumê. O chefe da censura na época era um tal de Doutor Paulo Leite. Aí, você ia até a sala dele e entregava o material. Se o avião atrasasse, ele ficava puto. Eu dizia assim: “Mas é a Vasp, a companhia aérea, que na época era do governo do estado de São Paulo, que atrasou, como é que nós vamos fazer?”, e , mais ou menos por volta de quatro, cinco horas da tarde, quinta-feira, a censura ligava para a sucursal e dizia: “Tá pronto”. A gente ia lá e pegava o material, para repassar para São Paulo. Uma vez aprovado o material, os registros da censura eram transmitidos em demorados telefonemas interurbanos. Conta ACQ: Em geral, na época em que eu fazia isso, falava com o Armando Sartori. E dizia assim: “Armando, matéria número 1”, ele tinha uma cópia lá, aí, eu falava: “...a página 1, liberada. Página 2, da linha 7 à linha 13, corta. Página 3...” e assim por diante, ou: “a matéria tá toda censurada.” Isso era um trabalho medonho, que tinha que ser feito toda semana. E a reação que se seguia era terrível, porque às vezes o repórter tinha trabalhado uma, duas semanas na matéria e ela era simplesmente vetada. Isso provocava choro, era uma desgraça. Você ficava naquela tensão tremenda!1

Teodomiro conta que chegou a conseguir certo diálogo com o responsável pela censura que, apesar de ajudar pouco, era “extremamente cordial” com eles. Lembro que o jornal ficava tão magro que a gente tinha que convencer o Coronel Romão a nos deixar levar mais algumas matérias, ou, então, fazia um apelo quase que dramático para ele rever alguns vetos. Aí, ele juntava a equipe, fazia um segundo turno de leitura do jornal e liberava alguma coisa. Mas isso acontecia pouco. Você tinha que contar com a boa vontade dele, tinha que pedir, quase que implorar; ele ficava fazendo corpo mole. Era um negócio assim... extremamente desgastante e difícil de fazer.

 

HISTÓRIAS EXEMPLARES DA CENSURA

   A censura em Movimento cortava até mesmo notícias já publicadas em outros veículos. Foi assim a proibição da matéria especial sobre o livro do então procurador Hélio Bicudo, Meu depoimento sobre o Esquadrão da Morte, em 22 de outubro de 1976. A edição consistia basicamente em um compilado de matérias já publicadas em O Estado de São Paulo e no Jornal da Tarde. Mas foi completamente vetada – títulos, olhos, fotos, legendas, tudo. O jornal, através do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, decidiu entrar na Justiça contra o governo.

O mandado de segurança pedia a liberação da publicação, alegando “tratamento desigual, inconstitucional, com total ausência de critério” que feria o princípio de isonomia presente na Constituição Federal. Na peça, Greenhalgh argumentava que a censura “reflete inequívoco e arbitrário abuso de poder”, pois, como o material já tinha sido publicado, “parece que a matéria só se torna censurável por se hospedar em Movimento, o que evidencia uma conduta arbitrária”.18

O ministro Armando Falcão e o diretor-geral da PF, coronel Moacyr Coelho, deram a mesma explicação: isso não era da conta da Justiça. “Toda a matéria submetida para verificação prévia é examinada com base na legislação revolucionária, como tal, salvo melhor juízo, não é suscetível de apreciação judicial”, dizia o ofício de Moacyr Coelho.19 Como havia um decreto genérico assinado pelo general Médici estabelecendo a censura com base no AI-5, o Tribunal Federal de Recursos declinou de sua competência para julgar o caso.

A censura procurou, também, ir além de suas atribuições. Em 7 de agosto de 1975, uma carta à redação, assinada por um inspetor da PF de São Paulo, solicitava “colaboração” em informar nome, endereço e qualificação completa dos responsáveis pelas reportagens do número zero, outrossim, o endereço e a qualificação do Sr. Sergio Roberto Vieira da Motta, que figura como fiador do contrato efetivado entre a diretoria e a PAT – Publicações e Assistência Técnica Ltda”, dizia a intimação20. Pouco depois, o diretor responsável Tonico Ferreira teve de comparecer à sede da PF, onde esteve por quatro horas, prestou depoimento e foi informado de que, com o folheto de lançamento de Movimento, teria infringido dois artigos da Lei de Segurança Nacional: o artigo 16, que previa dois a cincoanos de prisão por “divulgar, por qualquer meio de comunicação social, notícias falsas, tendenciosas ou fato verdadeiro truncado ou deturpado, de modo a indispor ou tentar indispor o povo com as autoridades constituídas”, e o artigo 45, que previa um a três anos de prisão por propaganda subversiva, “quando o ofendido for órgão ou entidade que exerça autoridade pública, ou funcionário, em razão de suas atribuições”. A acusação era, justamente, pela reportagem “Minha vida com a Central do Brasil”, de Aguinaldo Silva, e pela matéria sobre as vacilações do ministro Shigeaki Ueki em relação aos contratos de risco para exploração de petróleo, publicadas no número zero.

Mas Movimento foi censurado especialmente pelo seu esforço de cobertura de assuntos que causavam grande preocupação para o regime. As cinco histórias a seguir são esclarecedoras:

 

CONTRATOS DE RISCO DE PETRÓLEO

   A edição 15 de Movimento traria uma análise detalhada sobre o tema dos contratos de risco que o governo anunciou que iria fazer com empresas privadas, nacionais e estrangeiras, para exploração de petróleo no País, que rompiam o monopólio da exploração de petróleo da Petrobras estabelecido por Vargas. A edição teria uma carta aberta a Geisel criticando a decisão de abrir a exploração às empresas estrangeiras, e pedindo que o presidente revisse a posição. Além disso, havia artigos de análise sobre o problema e reportagens. A edição enviada à PF havia voltado magra. Foram 16 artigos totalmente e 28 parcialmente vetados, num total de 107 laudas. Mesmo assim, a direção considerou que havia material para pôr o jornal na rua.

Mas a edição não saiu. O episódio que tirou a edição de 13 de dezembro de 1975 das bancas foi descrito como “kafkiano” pela direção do jornal. No sábado, dia 11, como de costume, antes de começar a impressão, uma cópia em xerox da versão final do jornal, já previamente censurado e diagramado, foi enviada à Polícia Federal para a censura final. Na PF, o funcionário do jornal foi informado que a edição seria apreendida por ordem do ministro da Justiça.

“Agora temos um jornal apreendido – ‘por ordem do ministro da Justiça’, segundo nos informa o coronel-chefe da Polícia Federal de São Paulo, e esse jornal NÃO EXISTE, isto é, não estava impresso”,21 explica um comunicado à imprensa e ao público. Agentes da Polícia Federal foram até a gráfica para certificar-se de que o jornal realmente não existia. E levaram o diretor até à PF para confirmar que os exemplares só eram impressos depois da autorização da polícia. Tudo em vão. Diz o mesmo comunicado:

Dirigimo-nos então ao chefe da Polícia Federal que comandava

pessoalmente a operação de análise dos xerox e lhe dissemos

que não víamos sentido na proibição, já que o jornal, além

de ter sido submetido à censura e aprovado nas suas peças

isoladas, estava ali para ser censurado. O censor, portanto, que

estava presente, tinha o poder de retirar dessa edição tudo o

que lhe desagradasse.

Na segunda-feira à tarde, Tonico Ferreira foi à sede da PF e recebeu ordens ainda mais absurdas: não só o número 15 não poderia ser publicado, como a partir de então Movimento não poderia mais publicar nada sobre contratos de risco, petróleo brasileiro ou a Petrobras. Além disso, não poderia contar a ninguém sobre a proibição – sob pena de fechamento do jornal.

“Mas isso é impossível! Quando eu for avisar à redação sobre a apreensão do jornal estarei violando a ordem!”, respondeu Tonico.

 “Era uma censura inédita; nós, jornalistas de Movimento, e não apenas o jornal, estávamos sendo censurados!”, publicaria o semanário anos depois, quando foi liberado da censura. Os jornais Opinião, Pasquim, Crítica, Tribuna de Imprensa e Ex também haviam recebido as mesmas ordens.

Movimento abriu um processo contra o governo. O advogado do jornal, Luiz Eduardo Greenhalgh, questionava a legalidade da ação já que nenhuma lei conferia este poder ao governo. Além disso, houve movimentação política em solidariedade. A Associação Brasileira de Imprensa abraçou a causa, enviando telegramas ao general Golbery, ao ministro da Justiça, aos presidentes do STF, do STJ, do MDB e da Arena, pedindo o fim da proibição. Enviou, também, um relato detalhado do caso à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Assim, no dia 22 de outubro, quando a SIP publicou seu relatório anual sobre liberdade de imprensa nas Américas, o caso de Movimento e a proibição de críticas à política petrolífera mereceram destaque. Dois dias depois, o deputado do MDB, Israel Dias Novais, levaria a discussão à Câmara dos Deputados, detalhando o relatório da SIP “cujas palavras candentes me queimaram o ouvido de brasileiro e de brasileiro jornalista, pois não há jornalista que leia tal relatório sem ruborizar”.

O jornal continuou a protestar. Em 24 de fevereiro de 1976, enviou uma carta ao ministro da Justiça, Armando Falcão, pedindo a revogação da proibição. A carta, de cinco páginas e com a assinatura de todos os integrantes do Conselho de Redação, também criticava a forma autoritária como os contratos foram anunciados: “uma decisão de tal importância não poderia ter sido tomada sem amplo debate popular”. E ia ao centro da questão: “estamos preocupados com a entrega a empresas estrangeiras de nossas riquezas minerais mais valiosas”.22

 

VLADIMIR HERZOG, PROIBIDO

   Movimento não pôde dar uma só linha sobre a morte do jornalista Vladimir (Vlado) Herzog, da TV Cultura, no DOI-Codi, em 25 de outubro de 1975. E até o fim da censura, em junho de 1978, o jornal nunca pôde referir-se a Vlado. Entretanto, esse crime teve grande repercussão política, foi a gota d’água que jogou a opinião pública contra o governo e os militares, precipitou o desgaste do regime, agravou suas divergências internas enquanto abria novos espaços para a oposição. Mesmo sob ameaças, 600 pessoas foram ao cemitério no enterro do jornalista. E cerca de 8 mil conseguiram chegar ao ato público na Catedral da Sé, depois de escapar a um enorme cerco policial. Milhares de estudantes entraram em greve em São Paulo. Diversas manifestações se seguiram em outros estados. O Estado de S. Paulo deu grande cobertura aos fatos, em tom cauteloso, mas com riqueza de informações, e repercutiu o tema por semanas.

Movimento não pôde publicar nada, mas os membros da equipe participaram ativamente das manifestações, convocando as pessoas a comparecerem ao sindicato dos jornalistas, de onde iriam se originar os protestos. De acordo com Tonico Ferreira, “Raimundo teve um papel essencial” nessa mobilização. Após o enterro de Vlado havia um clima de intimidação, de não fazer nada, lembra Tonico.

Aí o Raimundo foi lá para o sindicato dos jornalistas e disse:

“Não! Tem de reagir! Se não reagir vai ser uma merda!” E o

Raimundo veio com a proposta, aquele negócio de fazer missa,

de juntar dom Paulo e tornar aquele caso um caso de ampla

repercussão.23

A capa vetada de Movimento trazia um retrato de Vlado desenhado por Elifas Andreato. Quase três anos depois, na edição 154, em 12 de junho de 1978, quando a censura, afinal, foi retirada, o jornal publicou uma reprodução daquela capa com o retrato de Vlado e o carimbo da censura: “vetado”. O desenho original fora doado à viúva, Clarice Herzog. A edição censurada, a de número 18, de 3 de novembro de 1975, saiu com uma capa totalmente preta, era um sinal de luto. E uma única chamada em grandes letras para uma matéria sobre “a queda da ditadura”... a de 1945.

 

TRABALHO DA MULHER, VETADO

Periodicamente, Movimento publicava edições temáticas, com reportagens mais aprofundadas realizadas ao longo de semanas, por jornalistas em todo o País, num esforço extra da equipe. Uma dessas, dirigida pela editora Adélia Borges, sobre “O trabalho da mulher no Brasil”, seria a edição de nº 45, de 10 de maio de 1976. E foi inviabilizada pela censura. Das 305 laudas de matéria enviadas aos censores, 283, ou seja, 93% do total, foram vetadas; de 69 fotos, 58 foram vetadas; de 13 ilustrações, 6 foram vetadas; de 12 tabelas, 10, ou seja, 83% também foram proibidas. Exemplo dos temas impedidos de circular: um resumo de um estudo da ONU sobre a mão de obra feminina em todo o mundo; três dezenas de depoimentos de mulheres que trabalham; um levantamento sobre a legislação do trabalho feminino no País.

O relatório de 7 de maio de 1976, do Conselho de Redação para o público, jornalistas e autoridades, dizia:

a edição vetada corresponde ao maior esforço jornalístico concentrado

que o jornal Movimento já fez: 82 pessoas – 63 mulheres e 19 homens

– de São Paulo, Rio, Recife, Belo Horizonte,

Porto Alegre, Brasília, Salvador e Belém trabalharam ao longo

de 40 dias para produzir essa edição.24

Um documento sobre o jornal proibido foi enviado a inúmeras personalidades políticas das quais o jornal recebeu apoio, entre elas, Prudente de Moraes Neto, presidente da Associação Brasileira de Imprensa, o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, o escritor Antonio Callado, a atriz Tônia Carreiro, os deputados do MDB Ulysses Guimarães e Alencar Furtado.

Escreveu o cardeal dom Paulo:

Depois de ler os originais vetados, resolvi levar-lhe minha solidariedade, nesta hora de tanta incompreensão. Não é apenas a equipe de Movimento que sofre um atentado à liberdade de informar. Também o povo brasileiro está perdendo o direito de ser informado sobre a realidade nacional. Quantas pessoas não poderiam aproveitar aqueles dados, notícias e informações sobre a vida e o trabalho da mulher! É lamentável que a censura continue escondendo ao povo a nossa História presente.25

A proibição foi recebida com protestos. Integrantes do Movimento Feminista pela Anistia, do grupo “Nós, mulheres” e da Sociedade Brasil Mulher, cogitaram a possibilidade de uma ação judicial. Os deputados pelo MDB Jarbas Vasconcellos e Odacir Klein protestaram na tribuna da Câmara. Até mesmo a Arena Jovem do Rio Grande do Sul, o partido do governo, se manifestou contra a censura.26

 

CONSTITUINTE, EDIÇÃO APREENDIDA

Depois do episódio da apreensão da edição de nº 15 de Movimento, a PF determinou que todas as edições do semanário fossem impressas antes de serem levadas para a checagem final. Só depois de tudo impresso era dada a ordem de liberação. Antes, isso podia ser conseguido apenas com a apresentação à censura de um “boneco”, um esboço da edição.

A edição 116, de 10 de setembro de 1977, que tratava da vitória da tese da Constituinte na convenção do MDB, foi apreendida sob as novas regras. A edição já sofrera vetos em 37 matérias. Mesmo assim, às seis da tarde do sábado, um grupo de policiais chegou à redação e proibiu a distribuição do jornal. O motivo da apreensão? Um anúncio na última página, de propaganda da encenação da peça Mortos sem sepultura, de Jean-Paul Sartre, que era a imagem de uma suástica com um torturado sobre ela.

Armando Sartori, então secretário gráfico de Movimento, editor da revista Retrato do Brasil, em 2010, lembra:27

Quando chegamos à redação havia um clima pesado. Era tarde de sábado, e estavam ali o Raimundo, o Tonico, o Sérgio Buarque e o Luiz Eduardo Greenhalgh. Apareceram pelo menos dois caras que se apresentaram como agentes da Polícia Federal. Um deles mais alto e gordo; o outro, baixo e magro. Acho que foi o Raimundo que perguntou se eles tinham ordem legal para fazer a apreensão. O policial não gostou muito e respondeu algo do tipo: “É sábado, eu queria estar em casa comendo pizza com a família, então não complique a situação”. Já que não dava para impedir, Greenhalgh exigiu que os policiais assinassem um documento registrando a apreensão – depois de eles vasculharem algumas salas e reunirem cerca de 200 exemplares que se encontravam por ali, nas mesas, empilhados.

Armando prossegue:

Em seguida foi a vez de Greenhalgh redigir o tal “documento”. Ele pediu a uma advogada que o acompanhava que datilografasse o texto. Ela sentou-se e começou a digitar numa máquina elétrica o que ele ia ditando. Quando Greenhalgh ia ditar o nome dos agentes, perguntou ao mais gordo o nome dele. Depois que o sujeito disse o nome, Greenhalgh falou algo como: “Seu documento, por favor”... O cara ficou furioso. No final deu a identificação e ainda assinou o documento. Depois que os dois foram embora, caímos na risada.

Dezenas de agentes foram às sucursais, viaturas foram aos distribuidores e houve até uma perseguição “hollywoodiana” pela via Dutra atrás do caminhão que levava os jornais para o Rio.

 

A DECLARAÇÃO AMERICANA, VETADA

  A batalha de Movimento contra a censura foi ganha com muita persistência. E também com talento. Na edição nº 53, de 4 de julho de 1976, a censura sofreu uma derrota, que pôs em ridículo o governo militar, não só aqui, mas também no exterior. Era uma reportagem sobre os 200 anos da revolução americana, uma colaboração de Carlos Azevedo escrita na clandestinidade. A matéria incluía um anexo com um trecho do texto da Declaração da Independência americana, no qual há uma referência ao direito do povo sublevar-se quando submetido a um governo opressivo.28 Segundo o Jornal do Brasil, a Polícia Federal informou que, de acordo com as instruções recebidas do Ministério da Justiça, teria de cortar trechos da declaração dos revolucionários americanos de 1776; mas achava isso inconveniente e preferia vetar o texto em bloco.

A direção de Movimento enviou um relatório para os outros jornais e correspondentes estrangeiros. Vários deles, a exemplo de O Estado de São Paulo e Jornal do Brasil, publicaram o texto da Declaração, informando que fora vetado em Movimento, dando-lhe, portanto, muito maior divulgação. O Estado de S. Paulo publicou um editorial de elogio à Declaração, aduzindo:

Não estranhamos que os censores do Ministério da Justiça tenham expurgado a Declaração como matéria provocante ou subversiva em órgão de nossa imprensa (...) estranhamos, sim, que a República brasileira ignore o pioneirismo republicano e que a democracia nacional repudie as matrizes universais da

democracia.

O grande alarido foi além das fronteiras. A imprensa americana adotou um tom de ironia. E o jornalista Paulo Francis, então correspondente da Folha de S.Paulo em Nova York, ouviu do escritor Gore Vidal: “o governo brasileiro deve respeitar muito o povo. Nossa Declaração de Independência é altamente subversiva”. Do senador democrata Frank Church: “Dada a situação do Brasil, é perfeitamente compreensível a censura imposta pelo governo de Brasília, muito a caráter, eu diria”. De Hans Morgenthau, cientista político: “Não me surpreende...”

Alguns dias depois, em correspondência para Raimundo Pereira, Teodomiro Braga informava de Brasília que “o jornalista Elio Gaspari, de passagem pela capital federal, estivera com Humberto Esmeraldo, chefe da Comunicação Social do governo Geisel e, provavelmente, também com o general Golbery”. À saída, dissera a repórteres do Jornal do Brasil que ficara sabendo que a censura vai cair, “inclusive em Movimento”. O episódio da censura à Declaração americana foi citado como exemplo de resultado negativo para o governo. E contribuiu para o desgaste da censura em Movimento, cujo final, contudo, só iria acontecer dois anos mais tarde.

 

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Capa da edição 108 de 25 de julho de 1977. Desenho de Rubem Grilo

 

A batalha econômica

Para que Movimento vingasse, foi importante contar com uma visão empresarial, que imprimisse direção ao empreendimento sem se chocar com o espírito coletivo que o inspirava. Sua longevidade – seis anos e meio de existência para uma publicação independente em plena ditadura pode ser considerado um feito importante – deve-se em grande parte a um personagem que se tornaria marcante na história recente do País, mas que raramente é associada ao jornal: o engenheiro Sergio Motta, o grande articulador da carreira política de Fernando Henrique Cardoso e o principal responsável pela privatização da telefonia brasileira no primeiro mandato do sociólogo como presidente da República (1994-1998). Engenheiro, o ex-dirigente nacional da Ação Popular (AP) se tornara um empresário bem-sucedido como proprietário da Hidrobrasileira, especializada em planejamento de obras de infraestrutura. Sua empresa fazia trabalhos para o governo de São Paulo e também para empresas privadas. E, ao mesmo tempo, contratava tanto ex-presos e perseguidos políticos como pesquisadores do Cebrap (o núcleo dos intelectuais de esquerda liderado por Fernando Henrique) para trabalhar nos estudos e projetos realizados pela empresa.

A Hidrobrasileira bancou as primeiras despesas de implantação do jornal: “dez máquinas de escrever modelo MS/60/33 – TS/Paica adquiridas da Olivetti perfazendo o valor total de Cr$ 31.000,00 (cerca de R$ 55 mil em 2011) pagos em parcelas mensais; dois telefones financiados pela Santa Maria S/A Crédito, estando prevista uma parcela inicial de 12 mil cruzeiros e mais seis de 10.467,80” (um total de R$141 mil),1 além de passagens aéreas para os principais vendedores de cotas de Movimento: Raimundo Pereira, que, além de conhecer gente em muitas das redações de São Paulo, tinha apoio seguro em seu grupo do ITA, engenheiros bem remunerados, entre os primeiros a subscrever cotas e contribuir com doações para o projeto do jornal; Marcos Gomes, bem relacionado em Belo Horizonte.

Os detalhes dessas despesas são conhecidos porque Sergio Motta era meticuloso na organização de seus papéis. Em seus arquivos – conservados no Instituto Sergio Motta e disponibilizados para esse trabalho por sua presidente, Vilma Motta – está guardada toda a contabilidade de Movimento – de março de 1975 a fevereiro de 1982, quando ele ainda lutava para colocar o jornal – já fechado – em condições de liquidez. Como lembra Raimundo:

O grande do Sergio era isso, de cuidar minuciosamente da contabilidade, porque administração é isso: você ver que objetivo tem, quanto vai vender, que meta vamos fazer…Tem, com a letra dele, os relatórios mensais do começo ao fim do jornal.2

Se Motta nunca abandonou Movimento, por maiores que fossem as dificuldades políticas e financeiras, também não fez o papel de “mecenas” como supõem alguns.3 Papéis e entrevistas apontam na mesma direção: Motta doou sua expertise, seu tempo, sua experiência política e empresarial, mas não entrou com dinheiro. A começar pelo documento citado acima, sobre as despesas de implantação da redação, com data de 25 de julho de 1975 e assinado por Antonio Guido, diretor financeiro da Hidrobrasileira, que esclarece:

Considerando entendimento verbal mantido entre a Hidrobrasileira S.A e a Edição S.A (…) no qual ficou acertado (…) que as primeiras despesas de implantação do escritório de Edição S.A seriam pagas pela Hidrobrasileira e, posteriormente, reembolsadas por Edição S.A. Isto porque a Edição teria dificuldade em processar estas compras, em virtude da falta de registros, etc, e está no âmbito de nossas funções de assessoria técnica-contábil fixadas pela carta contrato.4

Os recibos anexados nesse documento comprovam o pagamento de Edição S/A à Hidrobrasileira de valores que somam Cr$ 123.658,80 (R$222 mil), incluindo as parcelas a serem pagas depois, cerca de 30% do total de despesas de implantação do jornal, que foram de Cr$ 434.548,00 (equivalentes a R$754 mil), de acordo com outro documento, este de 3 de junho de 1975, com o planejamento de despesas até o lançamento do número um.5

Motta também indicou um homem de sua confiança para a direção financeira e administrativa do jornal, o engenheiro Francisco Marsiglia. Além de cuidar da administração de Movimento, Marsiglia também foi vender ações.

Fui a empresas estatais... em algumas, é claro, a gente tinha conhecimento, mas sempre orientado pelo Raimundo e a equipe dele. Fomos vendendo ações e, num dado instante, depois de uns três meses, a gente já tinha um certo recurso financeiro, alugamos uma casa.

Ele alugou, (Sergio Motta foi avalista) e mobiliou a sede da redação de Movimento – um sobrado na rua Virgílio de Carvalho Pinto, 625, em Pinheiros, próximo à gráfica onde o jornal seria impresso, de propriedade da família do escritor Raduan Nassar, do Bazar 13, à época um grande supermercado.

Francisco Marsiglia também figurava entre os doze sócios de Edição S.A, ao lado dos jornalistas que compunham a Comissão dos Onze, na minuta de constituição da empresa, com data de 8 de abril de 1975, registrada quatro dias depois na Junta Comercial do Estado de S. Paulo. É dele o cargo de diretor operacional da empresa, ao lado de Raimundo, o diretor editorial. Foi nessa função que seu nome apareceu pela primeira vez no Quadro de Locação de Pessoal do jornal, no mês de junho, recebendo a mesma remuneração que Raimundo, Tonico (editor executivo), Elifas (editor de arte), Marcos Gomes (editor de economia), Bernardo Kucinski (editor de geral) e Chico Pinto (chefe da sucursal de Brasília): Cr$ 5.850,00, cerca de R$10 mil.

 

EMPRESÁRIOS CAUTELOSOS, JORNALISTAS OUSADOS

Com a venda de cotas e doações conseguiu-se pagar as despesas iniciais de aluguel e pessoal, como também mostra o documento de planejamento financeiro e administrativo do jornal. Em abril, por exemplo, a receita do jornal foi de Cr$ 123.000,007 (Cr$ 96.500,00 de subscrição de capital e Cr$ 26.500,00 de doações), enquanto a despesa foi de Cr$ 40.000,00. Na última semana de maio, às vésperas da data prevista para o lançamento do jornal, as despesas saltaram para Cr$ 106.080,00, ainda assim cobertas pela receita de Cr$ 144.300,00,8 sendo Cr$ 121.300,00 em cotas e Cr$ 23.000,00 em doações. Em junho, com a contratação da redação, as despesas de pessoal avançaram de Cr$ 35.000,00 do mês anterior para Cr$ 122.000,00 e o aluguel da sede (até então provisoriamente abrigada na casa de Tonico Ferreira, em Pinheiros) foi de Cr$ 1.200,00 para Cr$ 6.500,00.

A dificuldade era acumular capital de giro suficiente para a decolagem até que a receita das vendas do jornal pudesse cobrir o custo do tabloide de 28 páginas; como a distribuidora (a Abril) completava o pagamento de cada edição 90 dias depois de o jornal chegar à banca, a direção calculou que o ponto de equilíbrio seria atingido com a venda de 27 mil exemplares por edição – o que a experiência em Opinião provara ser possível – e um capital inicial de um milhão de cruzeiros.

A venda de cotas foi bem-sucedida, como narra o texto do número zero do jornal:

Em meados de março, foi feita a primeira viagem para visitar as redações paulistas de onde pareciam cintilar salários mensais de até dezenas de milhares de cruzeiros (…). A primeira redação procurada foi a das revistas técnicas da Editora Abril, em São Paulo. José Elias, o editor de Transporte Moderno, ajudou a vender as ações com um bom humor e um entusiasmo que desarmou as preocupações. (…). De dezenas de reuniões feitas em redações, com grupos de professores, médicos e engenheiros, empresários no Rio, em São Paulo, Belo Horizonte e algumas outras cidades, o capital de Edição S.A – a sociedade anônima que a redação criou para fazer o jornal – começou a surgir. No final de maio, Edição tinha 160 acionistas, metade deles sendo jornalistas, e 705 mil cruzeiros entre dinheiro e promissórias assinadas.

(Jornalistas, políticos e intelectuais, muitos dos quais se tornaram famosos, formavam a maioria dos cotistas. Para verificar quem foi acionista de Movimento, ver Anexo 3, a partir da página 322).

Ainda assim, o lançamento da primeira edição, previsto para 16 de junho de 1975, foi adiado. A ousadia jornalística do empreendimento – que despertou a ira do governo militar desde o número zero – foi sempre acompanhada de cautela administrativa. A arrecadação do capital via subscrição de cotas, embora em volume próximo ao que se pretendia, seria integralizada gradualmente, sendo insuficiente o capital disponível em caixa. Essa explicação, com todos os detalhes, foi fornecida aos membros do Conselho Editorial e aos acionistas de Edição S.A através do relatório Movimento Reservado número 1, enviado junto com o número zero, no dia 3 de junho de 1975:

A campanha para a subscrição do hum milhão de cruzeiros necessários ao projeto do jornal, embora esteja se processando num ritmo mais lento do que o imaginado, tem sido extremamente bem sucedida. (...) Em contatos pessoais havíamos dito aos acionistas que o projeto exigiria Cr$ 400.000,00 de investimentos, a serem feitos ao longo dos três primeiros meses (de março a junho); Cr$ 400.000,00 de capital de giro, a serem gastos em treze semanas a partir da saída do jornal; e R$ 220.000,00 para imprevistos (...).12

Desse esquema se vê que precisávamos de Cr$ 800.000,00 em seis meses. Iniciamos nossa campanha oferecendo cotas de Cr$ 5.000,00 pagáveis em, no máximo, cinco vezes. Se os Cr$ 700.000,00 que temos até agora tivessem entrado dessa forma não teríamos a essa altura nenhum problema financeiro. Entretanto, o interesse em ampliar a venda de ações entre os jornalistas fez com que criássemos cotas pagáveis em até 10 vezes. Em função disso e considerando que já vendemos cotas ao longo de três meses, o capital de que dispomos agora inclui promissórias vencíveis até fevereiro de 1976. No balanço que fizemos no dia 22 passado, a análise dessa situação mostrou que com o lançamento do jornal a 16 de junho, teríamos um “rombo” financeiro de cerca de 300 mil cruzeiros, caso a arrecadação se processasse como vinha se fazendo (...). Entre os riscos de procurar apressadamente um financiamento de 300 mil cruzeiros, optamos pelo adiamento. A diferença de 21 dias será usada para adequar o fluxo de entrada de capital de Edição S/A às necessidades de capital de giro.

Quando o jornal foi finalmente lançado, no dia 7 de julho de 1975, as vendas em banca ficaram bem abaixo do previsto. Pior: os 21 mil exemplares vendidos na primeira edição foram também um recorde, que só seria novamente atingido no final de 1978, quando o peso da censura prévia já havia sido retirado do jornal.

 

PREVISÕES E DECEPÇÕES

   O conjunto de documentos preservados por Motta comprova: foram os problemas de receita, e não os de custo, que atormentaram a vida do jornal. A qualidade do planejamento financeiro feito por Motta e executado por Marsiglia, a minuciosa contabilidade feita por Luiz Bittencourt e Dellinger Mendes – este último funcionário da Hidrobrasileira que trabalhava voluntariamente para Movimento13 – religiosamente entregue a Antonio Guido, diretor financeiro da Hidrobrasileira, no segundo dia útil do mês para que este elaborasse os balancetes mensais, processasse a folha de pagamento e preenchesse as guias de recolhimento de impostos,14 não conseguiram impedir que o jornal operasse no vermelho na maior parte de sua vida.

Os boletins de venda do ano de 1975 mostram que, além de ficarem abaixo das previsões, as vendas também eram inferiores às projeções da distribuidora Abril, feitas com base nos jornais recolhidos nas principais bancas ao chegar a edição seguinte. Começando pelo número um, cuja previsão inicial era de 36 mil exemplares.15 O relatório número um, escrito por Raimundo no dia 14 de julho de 1975 com base no boletim de vendas número um da Abril,16 já reduzia as estimativas de venda para 24 mil jornais e fazia a ressalva: “A censura do número 1 nos atrasou mais de 15 horas e a Abril distribuiu tudo atrasado; o jornal só chegou a Brasília hoje e é possível que em certos lugares não tenha chegado”. Já no boletim seguinte da Abril, o número estimado de vendas dessa edição caía para 22 mil, estabilizando-se em 21 mil no boletim de 3 de setembro de 1975. No mesmo relatório, Raimundo comentava que o número dois foi “também mal distribuído”, além de “a gráfica ter esquecido de fazer 10 mil jornais”. A projeção de vendas dessa segunda edição partiu de uma estimativa de 21.400 exemplares vendidos feita pela Abril no recolhimento dos jornais em 21 de julho de 1975.17 O boletim seguinte corrigiu essa projeção para 17.800 exemplares.

A direção de Edição S.A não esperou mais para rever suas previsões. Em 29 de julho, Raimundo, Tonico, Marsiglia, Sergio Motta e Antonio Guido reuniram-se e propuseram um corte de 20% nas despesas previstas no orçamento de julho a dezembro de 1975. A tiragem foi reduzida de 50 mil para 35 mil exemplares e o número de páginas do jornal de 28 para 24. E deu-se o primeiro corte na folha de pagamento. Alguns profissionais, como Elifas Andreato, Jayme Leão e Luiz Bernardes foram liberados para trabalhar em outras publicações, reduzindo-se o pagamento que recebiam de Movimento. Outros jornalistas que iriam começar no jornal foram dispensados, como Ricardo Kotscho, Ana Maria Bahiana e Tárik de Souza.18 Todos os jornalistas, inclusive os editores, tiveram seus salários reduzidos. Raimundo Pereira, casado com quatro filhas, Tonico Ferreira, casado, duas filhas, e Marcos Gomes, casado, duas filhas, não ganhavam o suficiente para o sustento das famílias. Porém, suas companheiras, respectivamente, Sizue Imanishi, Maria Stella Magalhães Gomes (Teia) e Elza Gontijo, conseguiam compatibilizar os cuidados com as crianças pequenas e suas atividades profissionais. E foi principalmente graças à dedicação e ao salário delas (ganhavam relativamente bem, lembra Teia) que as famílias se sustentaram durante vários anos.

Do lado da receita, um manuscrito de Sergio Motta anexado à ata dessa reunião traz o planejamento de uma campanha de assinaturas a ser desenvolvida a partir de 10 de agosto de 1975.

Os esforços, porém, não foram suficientes para diminuir o prejuízo. A conjuntura política do País se agravara, como demonstrava o discurso feito pelo general Ernesto Geisel no dia 1º de agosto, considerado “uma pá de cal” na promessa de distensão política. Para Movimento, isso significava recrudescimento da censura, portanto, mutilação do jornal e consequente queda de vendas: desde o número um, o jornal perdia leitores por conta das interferências da censura, que iam de atrasos na distribuição, “com prejuízos evidentes para as vendas” à “destruição quase completa dos aspectos formais do jornal”. Por “estimativas da própria distribuidora, os problemas ocasionados pela censura nos primeiros números” haviam ocasionado uma perda nas vendas de “5 mil a 10 mil exemplares por edição”.

Não era à toa que todas as reuniões de avaliação financeira de Movimento começavam por uma análise política, como lembra Raimundo:

Mensalmente, íamos lá no escritório do Sergio Motta, na Vila Mariana. O pessoal tinha contabilizado as receitas, as despesas, tudo bem organizadinho, lá no Movimento, depois levávamos pra lá. A gente sentava, ficava o Tonico que cuidava mais disso, às vezes eu estava cansado e dormia no sofá. O Sergio tinha uma coisa de bom, ele era um cara politizado. Então, primeiro discutia: “O que que tá se passando? Como é que é? O que vamos fazer?” e tal...

Menos de um mês depois do discurso de Geisel, o boletim da distribuidora Abril, de 25 de agosto de 1975, apontava estimativas de venda entre 17,6 mil e 15,3 mil para as edições de 3 a 7. No mesmo dia, em reunião formal da diretoria de Edição S/A, registrada em ata, “partiu-se para uma redefinição da estrutura do jornal” para adequá-la à realidade, com a redução das despesas operacionais e a montagem de um novo orçamento para o período de 1º de setembro de 1975 até 6 de junho de 1976, levando em conta um prejuízo operacional acumulado de Cr$ 347.660,00.23 A receita foi estimada com base na projeção de 15 mil jornais e, para adequar os custos a essa nova projeção, decidiu-se por um segundo corte na folha de pagamento, o que se obteve dispensando colaboradores e praticando uma pequena redução na faixa salarial.

 

SOS ACIONISTAS

As edições de agosto venderam mais ou menos o previsto nessa reunião – variando de 14,6 mil a 15,5 mil (boletim de venda de 24 de setembro de 1975), mas as de setembro, de acordo com as previsões do boletim de 28 de outubro de 1975, foram de 14,9 mil a 13,1 mil. O grande golpe veio em outubro, com a apreensão da edição nº 15, sendo que a edição anterior, muito censurada, já havia vendido apenas 13,3 mil exemplares. Depois de uma reunião no escritório de Sergio Motta, chegou-se à conclusão de que o jornal havia atingido um ponto crítico. Reuniram a redação e expuseram a situação. Tinham que reduzir a folha de pagamento pela terceira vez, o que agora afetaria o conjunto da redação, que concordou unanimemente com o sacrifício.

Anotações de Motta de uma reunião realizada em seu escritório no dia 28 de outubro de 1975 indicavam as providências que foram tomadas imediatamente para alavancar o caixa, sendo a principal delas uma viagem de Raimundo ao Rio e a Brasília com a missão de realizar cortes de despesas, também nas sucursais, e detonar as campanhas de assinaturas com o objetivo de obter Cr$ 144.000,00 com 1.500 assinaturas vendidas; e de subscrição de capital de Cr$ 150.000,00. Em Brasília, Raimundo iria procurar Chico Pinto para “um acerto geral da relação” e definir um responsável por “áreas de arrecadação, especialmente a área política”– seria o deputado federal João Cunha –, que também poderia “listar prováveis doadores ou subscritores” de Edição S/A para obter rapidamente o capital. No Rio, além de conversar com o pessoal da sucursal, Raimundo deveria “contatar Gasparian sobre campanha promocional conjunta de venda de assinaturas” de Opinião e Movimento e “falar com Chico Buarque” para propor um “grande show com ele no Ibirapuera” e a “doação dos direitos de encenação da peça Gota d’água”.

Pelas anotações da reunião de “avaliação da viagem de Raimundo”, feitas por Motta em um bloco de papel amarelo, com data de 27 de novembro de 1975, sabe-se que se obteve o engajamento das sucursais nas campanhas, que Gasparian não havia ficado muito “motivado” com a proposta de realizar uma campanha conjunta, enquanto Chico Buarque concordou em falar com o Paulo Pontes (coautor de Gota d’água); de seu lado não vê empecilho em ceder os direitos de encenação para Edição por meio da produtora Difusão, assim como a apresentação de um show na volta de sua viagem para a Europa.

Não há nada escrito sobre o resultado do chamamento de capital, mas o resultado financeiro de dezembro aponta um capital de giro disponível de Cr$ 362.000,00,26 obtido com subscrição de capital e venda de assinaturas – ou seja, melhor do que o esperado. Do ponto de vista da venda em bancas, as coisas também pareciam ter melhorado: os últimos boletins do ano apontavam uma venda média de 15.500 exemplares, exatamente a prevista por Motta.

Infelizmente, os boletins de venda de janeiro de 1976 corrigiram esses números mostrando que, a partir da edição nº 20, quando se aumentaram os preços e se reduziram as páginas do jornal, as vendas desabaram para uma média de 11.800 exemplares no mês de dezembro de 1975.

 

CENSURA EM ALTA, VENDAS EM BAIXA

A relação entre a situação política do País e as vendas em banca de Movimento aparece na edição nº 154, de 12 de junho de 1978, a primeira publicada depois do fim da censura, que traz uma matéria especial de oito páginas: “A história da censura prévia em Movimento”. A página 14 traz dois gráficos do ano de 1976, com os títulos: “Maior tensão política, maior censura” – em que os picos de páginas censuradas correspondem aos acontecimentos mais dramáticos do ano; e “Mais censura, menos venda em banca” relaciona esses picos de censura às quedas de vendas do jornal.

Com efeito, em janeiro de 1976, a cassação dos parlamentares Marcelo Gatto e Nelson Fabiano, seguida pelo afastamento do comandante do II Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, em razão do assassinato do operário Manoel Fiel Filho no DOI do II Exército, tiveram consequências: a média de artigos censurados por edição foi de 18 para 22 e as vendas em banca caíram de 14,8 mil exemplares no início do mês para entre 12 mil e 13 mil exemplares. Em fevereiro, enquanto a imprensa debatia a crise militar, Movimento tinha mais de 26 artigos censurados por edição, e as vendas caíam para pouco mais de 11 mil exemplares. E diminuíram para 9 mil em meados de março (enquanto o número dos artigos censurados por edição subia para 38), na reabertura do Congresso, quando foram cassados os mandatos dos deputados Amaury Muller, Nadyr Rossetti e Lysâneas Maciel, este último muito próximo de Movimento.

A partir de abril, a curva da censura caiu e as vendas de Movimento ultrapassaram o patamar de 10 mil exemplares. O jornal foi novamente golpeado com a apreensão total da edição nº 45 (11 de maio de 1976) sobre a situação da mulher no trabalho. Em junho, enquanto os censores saíam da redação de Veja, os artigos vetados em Movimento baixaram para dez por edição. Mas a censura recrudesceu no início de agosto, com o estouro do escândalo das “mordomias” (série de reportagens publicadas no Estadão e assinadas por Ricardo Kotscho), derrubando novamente as vendas para cerca de 9 mil exemplares; curva que continuava descendente à medida que o número de artigos censurados subia durante a campanha eleitoral: em outubro, chegou-se a 36 artigos censurados para cada edição e o número de exemplares vendidos no mês caiu para 8 mil exemplares, metade da venda média do ano de 1975.

 

SUSTENTAÇÃO POLÍTICA

Como o jornal se manteve com tantas dificuldades? A melhor resposta está em uma lauda com o logotipo de Movimento, amarelada pelo tempo, e anotada em esferográfica azul com a caligrafia de Raimundo embaixo da curva de vendas em bancas de 1976: “sustentação política máxima possível para o projeto”.29 Foi isso que permitiu que o jornal seguisse em frente mesmo com o capital de giro caindo dramaticamente durante todo o ano – de Cr$ 362 mil em 31 de dezembro de 1975 para Cr$ 83.411 em agosto de 1976 –, chegando ao fundo do poço em dezembro de 1976, com capital disponível negativo de Cr$ 146 mil.

A “sustentação política” de Movimento se traduzia concretamente na solidariedade dos acionistas, “que ao invés de receber lucros e dividendos, foram chamados a integralizar mais ações, que também não lhe trariam mais dividendos”; dos leitores, “que passaram a pagar um preço relativamente alto pelo jornal”, muitas vezes censurado e mutilado; pelos “funcionários e colaboradores da empresa que tiveram seus salários violentamente diminuídos em seu valor real” para que o jornal sobrevivesse31 (fator decisivo para que o furo orçamentário do primeiro semestre de 1976 fosse de apenas 0,6%);32 e ainda por uma rede de apoio que envolvia estudantes e integrantes de movimentos sociais na venda direta em diversos pontos do País. Esse último recurso foi crucial para a sobrevivência do jornal, como mostram os números de 1976: enquanto a venda média em bancas ficou em torno de 9.500 exemplares, as vendas diretas tiveram média de 1.500 exemplares por edição.33 Uma contribuição significativa, uma vez que as vendas diretas não sofriam a sangria de 45% do valor de cada exemplar cobrada pela distribuidora e eram pagas no ato. Pelo mesmo motivo, as assinaturas do jornal cresceram de importância à medida que a censura afastava os compradores de banca. Entre 17 de novembro de 1975 (quando o preço do jornal subiu de Cr$ 5,00 para Cr$ 6,00) e fevereiro de 1976, foram vendidas 2.200 assinaturas a Cr$ 171,00, arrecadando Cr$ 376 mil34 – mais do que o resultado da venda em bancas no mesmo período, que totalizou Cr$ 328.290,00. Foram, portanto, decisivas para equilibrar o orçamento do jornal, como se percebe no mesmo documento.

Em agosto de 1976, uma nova proposta foi apresentada para alavancar as receitas: aumentar o preço de capa do jornal e o valor das assinaturas para recompor o capital de giro, além de fazer “nova chamada de capital integralizado para 1 milhão e meio (já temos um milhão)”.36 Conseguiu-se obter Cr$ 300 mil, de acordo com a ata da Assembleia Extraordinária dos Acionistas de 12 de novembro de 1976, aprovando o aumento de capital de Edição S/A de 1 milhão para 1,3 milhão de cruzeiros.37 Esse valor foi subscrito em nome de Raimundo Pereira e de Tonico Ferreira e pago no ato “em moeda corrente” conforme o registro de livro de atas,38 o que não permite saber como esses recursos, provavelmente doações, foram arrecadados. Além disso, depois de muita polêmica (principalmente com as sucursais de Belo Horizonte e Rio de Janeiro, que se opunham), o Conselho de Redação aprovou o aumento do preço das assinaturas em outubro e “no dia 10 de dezembro de 1976 foi aprovada proposta da diretoria que previa elevação nos preços de capa de Cr$ 7,00 para Cr$ 10,00 em duas etapas e economia geral na empresa”.

Como de costume, anunciou-se o aumento de preço aos leitores: a primeira edição de 1977, de 3 de janeiro, em matéria intitulada “Movimento a 9 cruzeiros”, destacava duas causas principais para o “reajuste”: a primeira é a persistência das extraordinárias dificuldades que o jornal enfrenta (N.E. a censura) e que impedem uma melhoria notável da sua qualidade e, em conseqüência, um aumento substancial de suas vendas; a segunda é a elevação de custos de produção do jornal: do período de junho de 1975 a dezembro de 1976, os custos industriais de produção cresceram 94% (em dezembro de 1976, a inflação chegou a 46%, a maior taxa desde 1974).

A estratégia deu certo: “as campanha de ações, assinaturas e vendas no período de dezembro a abril de 1977 foram bem-sucedidas e o disponível negativo foi suspenso”.41 Quando os preparativos para a segunda reunião conjunta dos Conselhos começaram, no início de abril, o capital de giro estava acima de Cr$ 200.000,00,42 patamar relativamente confortável, em comparação com o ano anterior.

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Edição 123, de 7 de novembro de 1977, página 7. A democracia no jornal

 

Em busca do método democrático

A democracia interna seria uma questão crucial durante toda a existência do jornal “sem patrão”. Além de garantir a propriedade da empresa “de fato e de direito” aos que nela trabalhavam, como pregava o número zero de Movimento, era preciso conferir poder de decisão à redação, o que estava longe de ser simples. A trajetória do jornal foi pontuada por crises e dissidências, seguidas de reformulações que buscavam ampliar a participação de jornalistas, funcionários e acionistas na condução do jornal.

Formatada pelo grupo inicial sob inspiração de Sergio Motta, a sociedade anônima que publicava Movimento – Edição S/A – era controlada pelos jornalistas através de um mecanismo simples: ao adquirir as cotas, os acionistas doavam 51% delas ao Conselho de Redação, que por sua vez representava o conjunto dos trabalhadores do jornal. Um modelo de negócio coerente com a mobilização política em torno de Movimento. Afinal, ninguém estava interessado em ganhar dinheiro, e sim em garantir a sobrevivência de um jornal de combate à ditadura, como lembra Francisco Marsiglia, o primeiro diretor administrativo:

Todo mundo sabia que, no fundo, aquelas ações eram uma doação travestida de compra de cotas, uma forma legal de montar uma empresa sem que alegassem o “ouro de Moscou” ou coisa do gênero. E vendemos cotas adoidadamente, tanto que ficamos com 400 acionistas! As pessoas investiam a fundo perdido, arriscando-se até pessoalmente... Na ditadura em que vivíamos, para ser cotista tinha que ter coragem.

As ações – nominais – conferiam legalmente o controle da empresa aos 12 membros originais do Conselho de Redação; 11 deles remanescentes da Comissão dos 16 (que fez a transição entre Opinião e Movimento). O primeiro documento sobre a sociedade anônima encontrado nos arquivos de Raimundo Pereira é uma carta-compromisso de 31 de março de 1975.2 Nela, Raimundo, depositário das doações naquele momento, promete, “de forma irretratável e irrevogável, dividir essas ações da forma mais igualitária possível”. Seguem-se os nomes dos outros dez jornalistas que formaram o primeiro Conselho de Redação: Marcos Gomes, Maurício Azedo, Jean-Claude Bernardet, Elifas Andreato, Fernando Peixoto, Francisco de Oliveira, Bernardo Kucinski, Antonio Carlos (Tonico) Ferreira, Teodomiro Braga e Aguinaldo Silva. O ex-deputado Chico Pinto, futuro chefe da sucursal de Brasília, se juntaria ao time algumas semanas depois.

As principais decisões a respeito do jornal eram tomadas na reunião desse Conselho, também aberta à participação de outros membros da redação, embora só os conselheiros tivessem direito a voto. Ainda no primeiro ano, o Conselho de Redação foi ampliado para 16 membros com a inclusão dos editores Sérgio Buarque, Juca Martins, Flávio de Carvalho e Flávio Aguiar – ou seja, os que comandavam no dia a dia do jornal também deliberavam nas reuniões do Conselho. Em dezembro de 1976, depois de debater intensamente a necessidade de incluir no Conselho representantes de outros setores do jornal, Francisco Marsiglia, da administração, e Alberto Duarte, o Betinho, chefe da sucursal de Belo Horizonte, tornaram-se também conselheiros.

Alguns membros do Conselho raramente participavam de suas deliberações, embora escrevessem regularmente para o jornal. O ex-deputado Chico Pinto, por exemplo, comunicava-se frequentemente com Raimundo, Tonico e Sérgio Buarque por telefone, mas só comparecia aos eventos mais importantes. Azedo e Aguinaldo Silva, ambos do Rio, também apareciam raramente.

“Eu achava importante participar daquilo, gostava de fazer as matérias, admirava o Raimundo, os jornalistas, mas aquelas reuniões do Conselho eu evitava; o que, aliás, não era difícil, já que raramente o jornal tinha dinheiro para levar a gente do Rio pra São Paulo”, lembra hoje um bem-humorado Aguinaldo. “Das poucas vezes em que participei, lembro de discussões intermináveis, desgastantes. Você percebia que havia alguma coisa por trás, uma divergência política, e aquilo não me interessava discutir”, conta Aguinaldo, que, embora tenha se afastado do jornal em 1977 para tocar outro projeto – o jornal Lampião, publicação gay pioneira no País –, manteve seu nome entre os conselheiros: “Foi um acordo tácito: ninguém me pediu para sair e eu queria ficar porque apoiava o jornal, apoiava o Raimundo. Dar esse apoio publicamente, compor a frente, tinha significado naqueles tempos de combate à ditadura”, explica.

Aguinaldo Silva continuou no Conselho de Redação até 1978, quando este se transformou em Conselho de Direção – e se manteve entre os 35 membros deste novo Conselho, que representava a Sociedade dos Funcionários, Redatores e Colaboradores –, instância máxima de participação deMovimento, com 500 membros, que trabalhavam ou colaboravam com o jornal. Essa reformulação veio na esteira do “racha de 1977”, que será tratado adiante.

 

CONSELHO DE NOTÁVEIS

O Conselho Editorial, composto por oito personalidades proeminentes do movimento contra a ditadura, manteve-se com a mesma composição a maior parte do tempo: o deputado emedebista Alencar Furtado, o intelectual André Forster, o jornalista Audálio Dantas, o compositor Chico Buarque, o jurista Edgar da Mata Machado, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o escritor Hermilo Borba Filho e o indigenista Orlando Villas-Boas. Edgar da Mata Machado decidiu deixá-lo no final de junho de 1977. Apenas em julho de 1981, o CE teria outra mudança: foi ampliado para 25 membros. E dos sete membros antigos mantiveram-se Alencar Furtado, André Forster, Chico Buarque de Holanda, Fernando Henrique Cardoso. Já Audálio Dantas, Orlando Villas-Boas e Hermilo Borba Filho (este havia falecido em 1976) não faziam mais parte dele, conforme mostra o expediente da edição 316, de 20 a 27 de julho de 1981.

Os conselheiros não participavam do cotidiano da redação e compareciam raramente à sede do jornal. Mas este Conselho tinha grande importância, seus membros representavam um amplo leque político e sinalizavam para a sociedade seu apoio ao programa do semanário. Além de ser uma instância respeitável para a denúncia da censura, das prisões, perseguições e processos a que os jornalistas estavam sujeitos.

O jornalista Audálio Dantas opina sobre sua participação no Conselho:

O Raimundo me convidou para o Conselho Editorial de Movimento na qualidade de presidente do Sindicato de Jornalistas de São Paulo, que depois de muita luta tinha acabado de renovar a diretoria (pelega). Era um conselho composto de personalidades, não era deliberativo, era uma instância consultiva, de aconselhamento, um conselho de homens bons, digamos assim. Tanto é que nos reuníamos pouco: em todo esse período lembro de ter participado de duas ou três reuniões, junto com o Alencar Furtado, o Hermilo, o Chico Buarque... Mas Movimento era vítima da censura desde o número um, nasceu vítima, e o que se fazia era denunciar.4

Apesar da pequena convivência, os conselheiros eram contatados com uma certa frequência através de comunicados e telefonemas. A redação percebiaos como aliados, recorda o editor Sérgio Buarque:

Não era um conselho decorativo como são esses conselhos em geral. Você sentia que havia uma adesão ao projeto do jornal, sabe? Eles achavam importante o que fazíamos e o fato de os nomes deles estarem no expediente era importante para nós.

O Conselho Editorial também dividia com o Conselho de Redação a missão de eleger o editor-chefe para um mandato de um ano, conforme estabelecido desde a fundação do jornal. Nesse intervalo, o editor-chefe tinha poderes para contratar ou demitir funcionários, respondendo, a posteriori, diante do Conselho Editorial. Na prática, a eleição anual do editor-chefe ocorria em uma sessão conjunta dos Conselhos (de Redação e Editorial) e seu resultado era ratificado pela Assembleia Geral dos Acionistas, realizada alguns dias depois, para atender a uma exigência legal: pelas regras das sociedades anônimas, o editor-chefe tinha de ser escolhido pelo diretor editorial de Edição S/A, que por sua vez seria indicado pela Assembleia de Acionistas.

A adaptação da regra não chegava a alterar o resultado da eleição uma vez que os membros do Conselho de Redação detinham o controle acionário da empresa e, portanto, ocupavam sua diretoria: Raimundo Pereira e Tonico Ferreira revezavam-se nos cargos de diretor editorial de Edição S/A, e Francisco Marsiglia foi o diretor administrativo até deixar o jornal em 1978, quando foi substituído por Flávio de Carvalho e por Tonico Ferreira; Raimundo acumulava o cargo de diretor editorial com o de editor-chefe, que exerceu durante os seis anos do jornal. Ele e Tonico foram os responsáveis legais pela empresa até o fim, como relembra Tonico em entrevista: “A Junta Comercial não queria saber se éramos um bando de jornalistas, se tínhamos conselho editorial, queria saber quem respondia pela empresa. Do ponto de vista formal, os responsáveis sempre fomos eu e Raimundo”, afirma.

Quanto aos acionistas minoritários – os que efetivamente compraram as cotas do jornal –, tinham direito a participação em todas as reuniões e direito a voto nas assembleias anuais, que, de acordo com Francisco Marsiglia, eram bem populares: “A assembleia era concorrida, em algumas compareceram uma centena, duas centenas de acionistas”.7 Algumas vezes ocorreram assembleias extraordinárias – quase sempre com o objetivo de aumentar capital ou aprovar mudanças no preço do jornal . A direção enviava boletins mensais aos acionistas. Os cotistas recebiam os boletins semanais sobre a censura. Essa relação melhorou depois da reestruturação do jornal de 1977, quando os acionistas passaram a ter dois representantes no Conselho de Direção.

 

A DEMANDA PELA PARTICIPAÇÃO

À medida que crescia a estrutura e a rede de apoio, com o estabelecimento de novas sucursais, correspondentes e equipes de venda e divulgação do jornal, aumentava a pressão por representação direta e pelo estabelecimento de regras de funcionamento para o Conselho de Redação e para a Assembleia dos Acionistas, que ainda não tinham estatutos aprovados.

Como observa a pesquisadora Rosane Montiel, que fez uma tese de mestrado sobre o jornal com base nos arquivos de Raimundo Pereira:

A partir de 1976, iniciou-se um longo processo de discussão

com o objetivo de regular as funções e atividades das instâncias

existentes, como o Conselho de Redação, e de encontrar formas

mais eficazes e institucionais de participação e representação do

coletivo.

A tarefa era grande. Em 1976, Edição S/A tinha 300 acionistas e cerca de 80 jornalistas (entre sede, sucursais e correspondentes), além de centenas de vendedores e divulgadores do jornal. Como organizar a participação de toda essa gente? Além disso, não havia modelos a seguir, dado o pioneirismo do projeto.

Vale reproduzir um trecho do documento “Relatório da Diretoria de Edição S/A – A imprensa popular e democrática – a experiência de Movimento”, assinado por Raimundo Pereira, Tonico Ferreira e Francisco Marsiglia – e apresentado na primeira sessão conjunta dos conselhos, em 24 de abril de 1976. Uma reunião importante, que contou com a presença de cinco dos oito membros do Conselho Editorial (André Forster, Chico Buarque, Audálio Dantas, Edgar da Mata Machado e Hermilo Borba Filho):

Enquanto outros jornais são conduzidos de forma autoritária, por um acordo entre editor e proprietário, nós temos um Conselho de Redação que se reúne todos os sábados para discutir as principais questões que são semanalmente levantadas tanto em nosso relacionamento de trabalho quanto pelos artigos que publicamos ou deixamos de publicar. Dessas discussões já nasceu um processo de crítica no jornal, no qual foi feito um balanço geral e cujo esboço de relatório foi lido no Conselho de Redação, e cuja versão final pretendemos distribuir a nossos conselheiros brevemente.

O Conselho não tem, contudo, até o momento, uma estrutura formal definida e suas relações com o editor do jornal e com os outros funcionários devem ser mais detalhadas ao longo deste ano; está em andamento um projeto de elaboração de estatuto do Conselho no qual estas questões deverão ser definidas.

Em seguida, listava as questões a resolver:

Como os funcionários e colaboradores elegem o Conselho? Quando uma pessoa se torna membro ou deixa de ser membro da sociedade que elegerá esse Conselho? Uma vez escolhido o editor pelo Conselho Editorial mais o Conselho de Redação, como esses Conselhos podem contribuir para ter uma direção cada vez mais democrática? Essas são algumas questões para as quais estamos acumulando experiências práticas e teóricas para poder dar-lhes respostas adequadas.

Assim concluía o documento, publicado na íntegra na edição 46, de 17 de maio de 1976, para que também os leitores pudessem tomar conhecimento do que ocorria internamente.

Movimento não chegou a aprovar os estatutos do Conselho de Redação. O projeto anunciado por Raimundo foi de fato apresentado alguns meses depois, após uma crise provocada pela demissão de um redator da sucursal de Belo Horizonte. O “caso Murilo Albernaz”, como ficou conhecido, expôs os conflitos internos do jornal e trouxe como desfecho nova tentativa de aprofundamento da democracia interna.

 

INDEPENDÊNCIA E DEMOCRACIA

Para entender por que esse episódio aparentemente banal consumiu mais de cem horas de discussão na sede e nas sucursais do jornal e provocou protestos exaltados de diversos membros da redação – o editor de Nacional, Sérgio Buarque, por exemplo, chegou a escrever uma carta de demissão por considerar a saída de Murilo antidemocrática – , vale voltar ao relatório de 24 de abril de 1976:

Em Movimento existiu, desde o início, a convicção profunda de que dois princípios – independência econômica e direção democrática – definem os únicos métodos associados com o objetivo central da imprensa que luta pela ampliação da participação popular. De outra forma, como perseguiríamos uma independência efetiva sem nos basearmos em nossos próprios recursos? E como nos proporíamos a aumentar a participação popular na vida política do país se não nos propuséssemos, ao mesmo tempo, a aumentar a participação dos nossos colaboradores, redatores, editores e conselheiros de nosso próprio jornal?

Durante toda a trajetória do jornal essas duas questões ocupariam o centro dos debates. A primeira – como garantir a independência financeira do jornal

– mobilizou gente do País todo para vender assinaturas e distribuir o jornal, além de um pequeno comitê que se reunia mensalmente na sala de Sergio Motta para enfrentar a difícil tarefa de equilibrar despesas e receitas e garantir a sobrevivência do jornal. Quanto a isso não havia discórdia: todos estavam prontos a se sacrificar para que o jornal continuasse, apesar do volume descomunal de trabalho e dos salários bem abaixo do mercado, menores do que os de Opinião, como lembra Tonico:

No Opinião fizemos um acordo para ganhar 30% a menos do que o mercado pagava. Como o mercado estava aquecido, era um bom dinheiro. Já em Movimento era pouco desde o começo, eu dividia a casa com outro casal, não tinha carro, até deixei de fumar por causa do dinheiro.

Para os que vieram depois, o baque era maior. Sérgio Buarque, por exemplo, ganhava 2,5 vezes a menos em Movimento do que ganhava em O Estado de S. Paulo, onde trabalhou antes. Fui para Movimento pela questão da militância: combater a ditadura, fazer um jornal nosso, sem patrão. E nem me importava muito com essa coisa de salários, o que me incomodava mais é que a gente tinha que economizar em tudo: por exemplo, o controle do telefone era um inferno, prejudicava a qualidade do trabalho.

Para mim, era um choque porque tinha vindo do Estadão que, na época do milagre, tinha dinheiro como nunca na vida. Uma vez fui fazer uma matéria na Amazônia e levei tanto dinheiro que fretei um avião sem ter que pedir para a sede. Aí, chega em Movimento e o Murilo Carvalho, que era o principal redator das Cenas Brasileiras, viajava pelo Brasil todo, me trazia umas prestações de contas que eram assim: pousada da dona não sei o quê, cinco cruzeiros. Porra! Cinco cruzeiros! Era tudo muito franciscano.

Um episódio ocorrido em outubro de 1975 dá a medida do engajamento “franciscano” da redação. Havia cinco meses – desde sua criação –, o jornal acumulava déficits por não ter conseguido atingir a meta projetada de vendas, prejudicadas pelo impacto da censura na qualidade editorial e na periodicidade de suas edições. Como evitar a falência?

Quem conta a história é Francisco Marsiglia:

O jornal estava caindo muito em vendas e, em uma situação dessas, não tinha como aumentar o preço porque seria morte súbita. Decidimos reduzir o número de páginas do jornal de 28 para 20, mas ainda assim tínhamos de cortar as despesas de custeio e a folha de pagamento (de 220 mil para 90 mil cruzeiros mensais). Então, reunimos a redação e falamos: “Tem uma saída assim”. E, incrível, todos toparam cortar seus salários pela metade numa boa! Não tenho lembrança de uma pessoa falar: “Ah, não, eu quero continuar ganhando o que estou ganhando”. Isso foi uma coisa muito importante, não só para a sobrevivência do jornal, mas porque serviu para solidificar a união de pessoas tão díspares ideologicamente, embora fossem todas de esquerda.

 

DEMOCRACIA NO DIA A DIA

Já a segunda questão – a direção democrática – suscitou muito mais conflitos do que a independência econômica. Afinal, aquela era uma redação unida a ponto de cortar na própria carne para garantir o sucesso do projeto, mas composta por pessoas “díspares ideologicamente” e que lutavam por suas opiniões. Mais do que uma disputa pelo poder individual, a batalha que se travava cotidianamente era por posições políticas.

Pode-se dizer que a democracia funcionava no jornal por meio das frequentes e concorridas reuniões. A rotina da redação incluía uma sequência de reuniões semanais. Duas delas mais técnicas, voltadas para o fechamento do jornal, feitas em duas etapas por causa da censura, na quinta-feira e na sexta feira. Nas terças-feiras, definia-se o pré-espelho (que seria refeito diversas vezes, à medida que as matérias furavam, ou eram vetadas e cortadas depois de editadas) e, nas quintas-feiras, escolhia-se a capa. Aos sábados, quando Tonico, Raimundo e boa parte dos editores mal tinha dormido, os encontros esquentavam: além da reunião de pauta, transferida alguns meses depois para segunda-feira junto com a reunião de crítica (que analisava a edição anterior), sábado era dia de reunião do Conselho de Redação.

A reunião de pauta era livre, tradição que vinha desde Opinião nas recordações de Marcos Gomes: todo mundo participava, os editores se pronunciavam sobre o noticiário de seus respectivos setores, cada jornalista dizia o que queria fazer , “reunião de pauta livre, quem quiser faz não sei o quê. Decidida a pauta, entra em edição, não tem assembleia, críticas, a posteriori. Não é autoritarismo”, arremata Gomes.

Ou seja, as pautas eram decididas livremente, entretanto, uma vez fechadas, não se discutia mais, fazia-se a matéria, prevalecendo a hierarquia da redação. Já na reunião de crítica do jornal, de participação igualitária, a disputa política aflorava. Ali se discutia das capas aos artigos de cada edição, sempre do ponto de vista do posicionamento político tomado pelo jornal. As sucursais também mandavam relatórios, debatidos em São Paulo. Como se percebe pela leitura das atas conservadas nos arquivos, as reuniões eram longas, abordando tudo, da cobertura internacional do jornal, por exemplo, da guerra no Camboja à política dos direitos humanos do presidente Jimmy Carter, dos EUA, às matérias de política nacional, como eleições, MDB, disputas internas do governo militar, economia, cultura. Tomando uma das atas15 como exemplo:

Três matérias do número 72 provocaram grandes polêmicas na reunião. A discussão foi muito grande em torno da matéria dos “neo-autênticos”, do Severo Gomes, e do “sinólogo anônimo”. As matérias tocam em temas de constante discussão dentro do jornal (MDB, burguesia, China) e não é de se espantar que as discussões sejam longas e muitas vezes acirradas quando o jornal publica artigos sobre esses temas. É também natural e até mesmo salutar que a discussão desses temas muitas vezes avance além das próprias matérias.

A matéria dos “neo-autênticos”, assinada por Teodomiro Braga (conselheiro e principal repórter de Brasília), foi julgada pelo coletivo “pouco clara, incompleta e muitas vezes contraditória”. Além disso, registra Tonico na ata, a conclusão de que os “neo-autênticos eram politicamente mais amadurecidos do que os autênticos pode causar confusão e irritação na área”. Sobre o artigo a respeito de Severo Gomes, depois de muito debate, Tonico registra:

No geral, houve concordância com a análise do Raimundo, que afirma: “A matéria erra por desconsiderar os conflitos internos da burguesia. Se os conflitos das várias facções da burguesia são secundários, como explicar a morte de Getúlio e a queda de Jango?

Já a matéria sobre a China, uma tradução publicada pelo editor de Internacional, Flávio de Carvalho, “sofreu críticas gerais de todos que a leram”. Foi qualificada de “irresponsável” por Raimundo, acusada de ser “de direita” por Murilo Carvalho, e mereceu o seguinte comentário do secretário da reunião: “Eu, Tonico, achei que a matéria vem mais para confundir do que explicar e causará profunda irritação nas bases do jornal.

 

O CASO ALBERNAZ

Em 29 de maio de 1976, o redator Murilo Albernaz enviou uma carta ao Conselho de Redação criticando duramente seus colegas e chefes da sucursal de Belo Horizonte. Depois, em telefonema à redação, acusou o chefe da sucursal, Betinho, de tê-lo ameaçado de “expulsão do jornal” por ter enviado a carta.

A notícia caiu como uma bomba na sede do jornal. Demitir um companheiro por crime de opinião? No jornal “sem patrão”? A surpresa foi ainda maior quando se soube que o editor-chefe apoiava a decisão de Betinho. Foi nesse momento que o editor de Nacional, Sérgio Buarque, chegou a pedir seu desligamento do jornal e do Conselho de Redação,16 depois da reunião do CR em que Raimundo se manifestou a favor da demissão, “expulsão”, segundo Murilo, ecoado por Sérgio, o que dava uma conotação de partido político à sucursal mineira.

Liderada pela “Centelha”, grupo de tendência trotskista, a sucursal de Belo Horizonte era tida por muitos como radical e desligada da direção do jornal; alguns, incluindo Murilo Albernaz, iam além, acusando o grupo de pretender montar “um partido” e de funcionar à margem das diretivas do Conselho de Redação, posições qualificadas de “nocivas” por Sérgio Buarque em sua carta de (quase) demissão. Entre os fatos apontados para sustentar as acusações estava o modelo de funcionamento da sucursal, adotado unilateralmente desde

o final de 1975, que incluía a participação de assessorias formadas por intelectuais e profissionais liberais com o objetivo de “analisar, criticar e ajudar a fazer o jornal”. Também havia uma proposta de instituir um Conselho de Redação regional, já enviada aos conselheiros, reforçando as suspeitas de dissidência da sucursal.

O apoio de Raimundo a Betinho foi ainda mais surpreendente por causa das conhecidas divergências políticas entre o editor-chefe e a chefia da sucursal. Isso, porém, acabaria legitimando a posição de Raimundo, quando, após dois meses de crise, ele finalmente explicou os motivos de sua decisão em um longo relatório sobre o episódio, com o título “Aprendendo com a crise”,17 afixado nas paredes da redação à moda dos “dazi bao” (jornais murais) dos chineses, em julho de 1976. Buarque desistiu de sair do jornal e a maioria da redação aceitou as explicações do relatório.

Depois de ouvir “exaustivamente” os jornalistas da sucursal mineira, o editor-chefe concluíra “que o erro tinha sido do próprio Murilo”. Segundo Raimundo, embora ele mesmo tivesse advertido Albernaz durante uma conversa travada um mês antes deste entregar a carta de que “é mais correto fazer as críticas primeiramente aos próprios companheiros com quem se trabalha e, só depois de esgotada esta fase da discussão, tentar levá-la a uma instância superior”, ele se recusou a discutir o caso na sucursal, que “não recebeu nenhuma cópia da carta enviada ao Conselho da Redação”. Na opinião do editor-chefe, “Murilo não foi afastado da sucursal por tê-la criticado, mas sim por ter encaminhado as suas críticas de forma incorreta”, o que acabou dando margem “a fofocas e intrigas”. Portanto, argumentava Raimundo, se o Conselho de Redação tivesse interferido na decisão de Betinho de “demitir” Murilo, teria apenas agravado o problema e enfraquecido o papel do Conselho:

Só o enraizamento em nossas cabeças da necessidade de formular críticas aberta e diretamente aos companheiros com quem se trabalha e da necessidade de nos esforçarmos ao máximo para resolver os problemas onde eles surgem pode fazer com que o Conselho de Redação desse jornal seja um órgão guia da construção de um jornalismo democrático...

 

UM PROJETO DE ESTATUTO

Por fim, embora criticasse a sucursal de Belo Horizonte por tomar posições “isoladas” e “democratistas” em seu funcionamento interno, o editor-chefe reconhecia que essas atitudes se deviam em parte à demora do Conselho de Redação em aprovar suas próprias normas – em contraste com a tentativa da sucursal de “avançar em sua organização” – e apresentava, junto com o relatório, um projeto de estatuto para discussão. Entre outras novidades, o projeto propunha que “todos os funcionários e redatores do jornal com mais de um ano de trabalho e todos os colaboradores regulares e frequentes do jornal durante dois anos consecutivos” passassem a fazer parte de uma “Sociedade de funcionários, redatores e colaboradores de Movimento” com poder de renovar o Conselho – o que seria de fato adotado, mas apenas dois anos depois.

O artigo mais interessante era o terceiro, uma espécie de “cartilha” de como devem ser as relações entre chefes e subordinados, evidentemente inspirada no caso Albernaz:

Embora o jornal tenha uma estrutura hierárquica de comando, as operações em cada editoria, sucursal ou departamento devem levar em conta as experiências concretas de cada local; portanto é necessário autonomia e iniciativa nos escalões inferiores (...). Com vistas à eliminação das diferenças entre chefes e subordinados, é necessário buscar métodos de trabalho coletivo que aperfeiçoem o nível técnico, político e ideológico de redatores e colaboradores. (...) Os subordinados, por sua vez, devem desenvolver um espírito combativo e uma luta pelo aperfeiçoamento pessoal, evitando críticas pelas costas ou obscuras, procurando confiar em si mesmos e sempre, antes de apelar a escalões superiores, esgotar todos os recursos pessoais e toda a mobilização possível de seus companheiros de mesmo nível. Havia uma orientação específica para os chefes: O chefe não deve perder de vista a necessidade de aprender com os subalternos e de ser um exemplo, assumindo para si a responsabilidade de executar na prática parte das tarefas que distribui; o subordinado deve respeitar a experiência dos chefes e o conhecimento dos intelectuais dedicados ao jornal, mas ao procurar aprender com eles, exigir deles, ao mesmo tempo, decisões claras e democráticas e uma linguagem inteligível e educativa.

Entrevistado em 2009, Sérgio Buarque afirmou que “Murilo Albernaz foi apenas um ‘pretexto’” para a eclosão de uma crise motivada por “divergências políticas” que se explicitavam à medida que a situação do País evoluía e o “espírito de frente” que inspirara Movimento se esgarçava. O próprio Albernaz acreditava até o fim ter sido vítima de um embate político e sentiu-se logrado pela “visão simplista” de Raimundo sobre o caso, como revela em uma carta escrita um ano e meio depois do episódio, seis meses após o “racha”, o qual em boa medida confirmou seus pontos de vista:

(...)Na verdade o “caso” trazia dentro de si, na sua essência, uma questão política muito mais séria. (...). E a minha expulsão foi, na verdade, a primeira grande vitória que eles tiveram no jornal. Foi o salvo-conduto para continuarem o trabalho de sapa que vinham fazendo. Foi essa vitória, inclusive, que lhes deu força para se agruparem com outras sucursais com o objetivo expresso de dividir o jornal.

Sem negar a origem política do conflito com a sucursal de Belo Horizonte, Raimundo, em entrevista concedida em 2009, continuava a defender a posição tomada 33 anos antes:

O contrário seria aceitar a quebra da estrutura, discutir a solução passando por cima da chefia da sucursal... Essas são discussões que o cara que não participou pensa “olha que besteira”, mas não viveu aquela época. Para você ver a riqueza disso, precisa ver o passado de um modo mais sofisticado.

 

ACUSAÇÃO DE AUTORITARISMO

Não faltava também quem acusasse a direção do jornal, que se pretendia “democrática”, de “autoritarismo”, críticas vindas de colaboradores ofendidos com a edição final de seus textos ou de grupos que divergiam politicamente da direção e não conseguiam fazer prevalecer suas posições. Tudo era interpretado pelo viés político, o que também irritava editores como Sérgio Buarque:

Era tudo uma saia muito justa. Chega lá um negócio jornalisticamente ruim, você não encaminha, o cara já vai te acusar de estar censurando politicamente. Isso é um inferno, sabe? Eu lembro do Jean-Claude Bernardet entrando na sala do Raimundo, para reclamar de mim, que eu tinha cortado não sei o quê. Mas o jornalismo, que eu saiba, é isso: mexe, tira, corta. Mas ali qualquer coisinha que você fazia tinha uma discussão. Aí, fui aprender: toda vez que você corta o texto de alguém, você cortou o “essencial”, você “mutilou”, e tal... Agora, você turbina isso com as questões políticas, vira um problemão.

Apesar disso, em novembro de 1977, o próprio Buarque escreveu uma carta a Raimundo acusando-o de censura por ter derrubado a segunda parte de uma entrevista com o sociólogo Florestan Fernandes, editada por Buarque, sem comunicá-lo. Episódio hoje apagado da memória, segundo o ex-editor de Nacional, na mesma entrevista:

Não lembro desse caso específico, mas acontecia algumas vezes de a censura ter aprovado um texto e o Raimundo não publicar, e eu reclamava. Mas era aquela tensão natural de editor com redator-chefe, né? E lá tinha espaço para discutir, para criticar. Agora o Raimundo tinha um saco de ouro, porque tudo ia em cima dele, tudo dava discussão. Tonico diverge:

O Raimundo era autoritário, não há como negar, e eu como segundo era mais ainda. A gente não tinha muito jogo de cintura, queria impor as nossas coisas, e aí quando eu digo que a esquerda briga, eu me incluo nela, né? Mas todas essas reuniões eram feitas na base do levanta a mão e a redação inteira participava. No fundo, sempre tinha duas posições, entendeu? A posição do Raimundo, que era muito forte porque era muito difícil de contestar – o Raimundo é cheio de argumentos, e vai, vai, vai, vai e vence a discussão – e a outra posição de quem, naquele momento, estava querendo fazer alguma modificação no jornal.

 

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Capa da edição 80, 10 de janeiro de 1977. Foto de João Bittar

 

As primeiras divergências

O jornal Movimento significava jornalismo político. Desde o início, todos os que se aproximavam tinham formação política e queriam fazer oposição ao regime militar. A maioria deles, jornalistas ou intelectuais, inclusive os que vieram de Opinião, havia tido em algum momento proximidade com alguma organização política de esquerda. Raimundo Pereira e Bernardo Kucinski estiveram para entrar na Polop, Tonico Ferreira vinha de laços com o PCB e, depois, com a dissidência desse partido. Marcos Gomes fora dirigente da Ação Popular e se aproximara do PCdoB. Luiz Bernardes havia feito trajetória semelhante. Fernando Henrique Cardoso e Francisco de Oliveira, pelo menos antes de 1964, haviam sido próximos do PCB, da mesma forma que muitos dos colaboradores cariocas, tais como Maurício Azedo, Nelson Werneck Sodré e outros. Havia ex-militantes da antiga Ação Popular, como Sergio Motta e Luis Carlos Mendonça de Barros. Remanescentes da guerrilha urbana, de organizações como ALN e Colina, como João Batista dos Mares Guia e seus companheiros de corte trotskista de Minas Gerais, Aloisio Marques, Fausto Brito, Flávio Andrade, João Machado, Flaminio Fantini e outros. Havia aqueles ex-militantes da Ação Popular que, por diversos motivos, não haviam concordado com a integração ao PCdoB, como Duarte Pereira, em São Paulo, Emiliano José e Tibério Canuto, na Bahia. Havia jornalistas sem vinculação partidária que buscaram em Movimento uma oportunidade de se expressar com mais liberdade, como Teodomiro Braga e Sérgio Buarque de Gusmão. E também aqueles jovens que estavam se iniciando como jornalistas e encontravam uma porta aberta, como Caco Barcellos, Armando Sartori, Roldão Arruda e tantos outros. E havia ainda um movimento nada subestimável de apoio e colaboração por parte de bispos, padres, freiras e leigos católicos, simpatizantes da teologia da libertação, que criava um clima de simpatia em torno do jornal e o levava por todo o País até às comunidades eclesiais de base.

Para Francisco Marsiglia, Movimento era um jornal realmente de frente. Segundo o Raimundo, que usava uma expressão futebolística, “aqui tem Flamengo, tem Botafogo, tem São Paulo, tem Santos”, ele usava essa expressão, mas, no fundo, tinha tudo que era gente, de tudo quanto é partido. Partidão, Polop, 4ª Internacional, olha... o que não tinha lá era gente de direita, só. Porque o que tinha de esquerda, olha, era realmente impressionante. E nos dávamos muito bem, porque é o tal negócio, fazer frente tem que fazer um programa, não adianta juntar porque é amigo, é conhecido, tem que botar um programa e fazer; o jornal facilitou tudo.

Nesse jornal se discutia tudo. Periodicamente, aos sábados e domingos, ocorriam debates sobre grandes temas nacionais, eram grandes reuniões igualmente abertas ao público. A questão agrária, a Constituinte, a Anistia e outros assuntos produziram polêmicas acaloradas. Ali já iam se evidenciando as várias tendências de pensamento político dentro da equipe. Os relatórios desses debates eram depois mimeografados e distribuídos – mais de 500 exemplares – para colaboradores e acionistas.

A discussão continuava no âmbito do Conselho de Redação, onde os temas relevantes da semana eram abordados, desde, por exemplo, a cobertura sobre a guerra de Angola às posições do MDB. A propósito das eleições municipais de outubro de 1976, por exemplo, houve demoradas discussões sobre a posição que o jornal levaria aos seus leitores sobre como votar. Havia quem defendesse voto nulo, ou voto só nos autênticos e outros candidatos combativos ou nacionalistas. Após ásperos debates que opuseram Raimundo e Kucinski (este achava que o jornal não devia ter posição sobre em quem votar), prevaleceu uma decisão de consenso: “o jornal deve em suas matérias e ensaios: 1. lutar pela realização das eleições; 2. lutar pela democratização e aperfeiçoamento das eleições...” Entendia-se que o jornal poderia apoiar determinados candidatos, “inclusive no Ensaio Popular”, mas não apenas esses candidatos, para não dar a impressão que fora deles apoiaria o voto nulo.

Nessa decisão se incluía a intenção de setores da equipe de estabelecer mais controle sobre o conteúdo dos Ensaios Populares. Isso porque os textos dessa seção, cuja autoria até então era atribuída a Raimundo Pereira, não eram submetidos a uma discussão prévia. Raimundo os entendia como pequenos ensaios, pensatas, portanto, quando o colaborador apresenta ideias com mais autonomia. Mas cada vez mais aqueles textos eram recebidos pelos outros, e pelos leitores também, como editoriais, como a opinião do jornal. Bernardo Kucinski desde o início havia sido crítico aos Ensaios Populares. Falava em seu nome, mas certamente havia outros que pensavam como ele, por exemplo, Chico de Oliveira, Flávio Aguiar, Maria Moraes, Guido Mantega, sem falar do pessoal de Belo Horizonte e de Salvador. Havia um clima crescente de disputa.

 

KUCINSKI: POR UM JORNAL “SOCIALISTA”

Bernardo Kucinski, intelectual, politizado, formado no movimento socialista sionista, já era um jornalista experiente em 1974, quando voltou de Londres para trabalhar no novo jornal, conforme acerto feito com Raimundo. Ele conta que vinha como que querendo pagar uma dívida por não ter enfrentado a barra pesada que foi trabalhar em Opinião, “essa coisa de culpa de judeu. Uma culpa que eu inventei”.3 Acabou não indo trabalhar na redação em tempo integral. Assumiu emprego na Gazeta Mercantil, mas colaborava sistematicamente com matérias para o jornal, participava das reuniões na condição de editor especial, membro do Conselho de Redação e acionista. Não participava do dia a dia da redação, mas tinha uma relação especial com Raimundo, mantendo uma nutrida correspondência com ele: “foi a pessoa que mais me escreveu cartas naquela época”, lembra Raimundo.

Em 23 de março de 1976, mais de um ano antes do “racha”, Bernardo escreveu uma carta a Raimundo mostrando sua insatisfação.4 E a razão eram divergências políticas sobre a linha do jornal. Defendia um “jornal socialista” fazendo contraposição à linha política que Movimento estava tomando:

Acho que você comete um equívoco ao definir o jornal como porta-voz de uma frente ampla democrática eventualmente existente no país que luta contra a ditadura, ou seja, o AI-5, o 477 e o restante dos instrumentos de exceção. Opinião, por exemplo, disputa esse papel com as mesmas credenciais, ou até mais algumas, como por exemplo, a credencial de setores da burguesia nacional, a partir de seu proprietário, que tem posições específicas que nós aceitamos com muitas restrições. Não seria mais correto definir o nosso jornal como porta-voz de uma frente dentro dessa frente? Ou seja, como componente específico dessa frente, e não a frente mesma? Uma definição assim imediatamente nos aproximaria muito, e aproximaria o jornal daquelas ideias sobre o jornal socialista. Eu pessoalmente não acredito em nenhuma solução para a sociedade brasileira passando por frentes com a burguesia nacional, e sinto pouca vontade em gastar meu tempo em lances desse tipo, mesmo taticamente. (...) Aliás, agora eu entendo melhor o equívoco que, na minha opinião, você tem cometido, por exemplo, ao julgar o Estadão como nosso aliado. O Estadão é hostil ao AI-5, mas inimigo, um dos maiores talvez no país, do socialismo (...) Não se pode confundir as contradições dos Mesquistas (ao hostilizarem o AI-5 e a censura, por exemplo), com aliança tática com a frente anti-fascista...

Continuando no tema do jornal socialista:

Acredito que a aspiração por uma sociedade socialista já é bastante ampla no país, apesar do gigantesco esforço do regime para ostracisar (sic) e conferir ilegalidade à tendência socialista. Nosso jornal é potencialmente o porta-voz ideal para essas aspirações reprimidas, como muitos depoimentos que têm surgido espontaneamente em nossas reportagens o demonstram. Acredito também que os membros do CR, em sua maioria, se considerem socialistas, se tomarmos essa palavra no sentido de um denominador comum...

E sobre sua contribuição ao jornal:

...Acredito que nesta questão está a chave para o meu relacionamento com o jornal. Sei que o jornal ganharia muito se eu ficasse como teu braço direito, fazendo pautas, editando, escrevendo (...) Sei também que você sempre aguardou com ansiedade minha volta da Inglaterra exatamente por isso. Eu gostaria e quero contribuir, tanto quanto possa. Mas você não poderá mobilizar ou motivar pessoas como eu na base do arrastão. Logo que começaram a surgir problemas, evidentemente que nesses quatro anos nós seguimos experiências diferentes, e talvez eu não pudesse ser o que você queria, deveria ter havido muita conversa (...) Se eu precisar fugir do jornal, ou se já estou fugindo, lembre-se de que sou apenas mais um de uma série. Para evitar isso é preciso fazer um grande esforço mútuo. Esta carta pretende abrir a possibilidade para esse esforço.

Durante os anos em que Raimundo esteve dirigindo Opinião, e criando Movimento, e Kucinski permaneceu em Londres, os dois amigos viveram “experiências diferentes”, como disse Bernardo, que mudaram seu modo de pensar. Influenciado pelos acontecimentos do exterior e do País, que pareciam prenunciar uma nova época, Raimundo movera-se de uma posição de puramente jornalista, politizara-se, entrara em contato com a literatura marxista, já não queria apenas retratar a sociedade, mas transformá-la, que é uma expressão de Karl Marx. Na Inglaterra, Bernardo também esteve em contato com ideias políticas socialistas. Na sua entrevista, ele diz que em Londres pôde constatar que o Brasil estava atrasado “30 anos” em questões políticas. Por exemplo, na Europa, o debate sobre “stalinismo e trotskismo estava completamente superado na década de 1970”.5 O certo é que, naqueles anos, Raimundo e Bernardo haviam mudado, e em 1975 já não tinham a mesma identidade de ideias baseada em posições de esquerda genéricas e na paixão pelo jornalismo. Ao participar em Movimento, Bernardo não se sentiu à vontade desde o começo. Ele se comportava reservadamente com pessoas que identificava que tivessem militância partidária.

Revendo a carta em 2010, Bernardo fez o seguinte comentário:

Acho que eu começo, também, aqui (na carta) a disputar um pouco a qualidade do Raimundo como formulador ideológico, sabe? Como, afinal... querer cagar regra em política. Ele era um puta jornalista, agora, fica querendo ter (...) Acho que eu começo a sentir que ele não é isso que ele pensa que é.

Para ele, a carta também refletia a sensação de que já estava ocorrendo “um processo de exclusão” dos que se opunham à corrente de opinião de Raimundo, conforme diz na entrevista:

Porque isso tudo, essas propostas todas, eram manifestações de um alinhamento político do jornal. Entendeu? Na política, os grupos precisam demarcar posições, demarcar terreno. Muitas bandeiras são feitas só pra demarcar em relação ao outro. Eu nunca gostei dessa cultura sectária, entende? Em que você valoriza a diferença ao invés de valorizar a semelhança, a aproximação. O Raimundo se torna um... ele entra, mergulha nesse processo mental e vai levando o jornal para essas posições que demarcam posição, assim como ele demarcou com o Gasparian. E a minha resistência a isso é de natureza quase que biológica, não é porque eu sou daquele outro partido e acho que a frente é desse tipo ou daquilo, isso não tem nada que ver. Agora, quando ele diz um absurdo como esse, que o Estadão é nosso aliado, entendeu? Aí não dá, também, para engolir.

No seu livro Jornalistas e Revolucionários, Bernardo Kucinski estabelece uma nítida fronteira, dentro da imprensa alternativa, entre os “jornalistas” e os “revolucionários”:

A interferência política desqualificou os participantes como portadores de novo modelo ético-político-democrático... (...) Protagonistas não organizados nos partidos clandestinos – entre os quais frequentemente jornalistas líderes dos projetos – viam-se reduzidos, de sujeitos do processo, a instrumentos de manipulação...

(...) Assim, impulsos libertários, de origem intelectual-jornalística, combinados numa nova matriz de relações baseada na autoorganização, na autonomia do trabalhador intelectual e numa ética em que os métodos determinavam os fins, acabavam sendo negados pelo falseamento das relações pessoais inerentes ao modelo leninista, no qual os fins justificam os meios.

Mas não é essa discrepância que se vê na sua carta de 1976. Nela não se fala em jornalismo, a não ser para refutar uma alegada insinuação de Raimundo de que Bernardo estivesse defendendo “jornalismo por jornalismo”:

Achei especialmente equivocada sua alegação de que outras

pessoas estariam propondo o jornalismo pelo jornalismo (...)

se você não o praticou, muito menos as pessoas mais direta

mente participantes nesse recente processo de críticas, e nem

isso foi proposto.

A carta foi escrita nove meses após o lançamento de Movimento. E é uma antecipação do teor das divergências que levariam ao “racha” um ano depois.

As divergências no jornal iriam crescer ao longo de 1976. Havia uma pressão para debater os Ensaios Populares. Nas reuniões semanais de 11 e 18 de setembro, o Conselho de Redação decidiu planejar debater os Ensaios, conteúdo, forma e a questão da assinatura do autor. Na reunião de 25 de setembro, o CR descobriu como o assunto era complexo. “Queriam discutir tudo”, relatava a ata redigida por Tonico Ferreira, “Mar de 200 milhas, MDB, controle populacional”, isto é, queriam discutir o conteúdo das dezenas de artigos já publicados. E comentava: “havia muita divergência, seria uma discussão sem fim”. Para que a discussão levasse a “alguma coisa, não ficasse apenas em discutir por discutir”, fez-se um plano para desenvolver o debate na sede e nas sucursais.8 Decidiu-se discutir a linha geral. Planejava-se fazer um documento com o histórico da seção, sua evolução e situação atual, para orientar os debates. Nos documentos posteriores não há registros sobre essa discussão.

 

A REPRESSÃO DÁ SUA CONTRIBUIÇÃO

Nesses mesmos dias, Geisel e Golbery eram criticados por setores militares que preconizavam um endurecimento. E o ministro do Exército, general Frota, articulava com crescente desenvoltura sua candidatura à sucessão presidencial. Atos de indisciplina se explicitavam. Em 19 de agosto de 1976, explodiam bombas nas sedes da OAB e da ABI, no Rio de Janeiro. Um panfleto dizia que era advertência aos comunistas, já que as autoridades se omitiam. Em setembro, o bispo dom Adriano Hypolito, de Nova Iguaçu, foi sequestrado. Seu carro explodido em frente à sede da CNBB. Na mesma ocasião, uma bomba na casa do empresário Roberto Marinho, dono da TV Globo, esteve perto de lhe causar ferimentos. Outra bomba explodiu no Cebrap, em São Paulo. Em novembro, bomba no jornal Opinião.

Em dezembro de 1976, o governo agiu, mas não para conter os militares terroristas. Em uma ação repressiva comandada pelo II Exército, uma casa no bairro da Lapa, em São Paulo, foi invadida, surpreendendo uma reunião do Comitê Central do PCdoB. A casa foi metralhada, dois dirigentes do partido assassinados no local, um outro, na tortura, e seis militantes foram presos. Esse fato, que ficaria conhecido como o “Massacre da Lapa”, afora a grande repercussão no País e no exterior, teve muitas consequências políticas, inclusive sobre o jornal Movimento. Por exemplo, o governo ficou sabendo que havia uma ligação de Raimundo Pereira com o jornalista Carlos Azevedo, militante do PCdoB procurado pelo aparato de repressão. Mesmo na clandestinidade, Azevedo havia encontrado um meio de fazer colaborações para o jornal, escrevia matérias, sugeria pautas, mandava artigos do jornal A Classe Operária. Sua companheira, Maria Lúcia de Morais Carmo, se encontrava com Sizue Imanishi, a companheira de Raimundo, periodicamente, para passar os materiais. Ao arrancar essas informações sob tortura, os agentes de repressão se regozijaram.

Essa notícia chegou ao jornal por meio de um dos advogados dos presos, Luiz Eduardo Greenhalgh. Ele compareceu à redação numa ocasião em que a equipe estava reunida e deu essa notícia a todos. Houve uma grande repercussão interna. No início de 1977, menos de um mês depois dessas prisões, Bernardo Kucinski comunicou verbalmente a Tonico Ferreira que estava se retirando do Conselho de Redação. Como Tonico não o atendeu, em 14 de fevereiro reafirmou sua decisão por escrito, pedindo que seu nome fosse retirado daquela posição do Expediente, “sem prejuízo de continuar colaborando com o jornal”.

Porém, em 9 de maio, Kucinski enviaria outra carta, nesta se desligando completamente de Movimento.11

 

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Capa da edição 90, 21 de março de 1977. Desenho de Chico Caruso

 

O debate dos ensaios populares

Eu deveria acusar mais corretamente a época, mostrando o quanto é difícil se orientar em meio a uma batalha tão confusa, mais difícil ainda lutar contra o sectarismo de partidos e de indivíduos que pensavam que uma melhor tática e a prática de meios mais eficazes para vencer provoca o esquecimento da “causa comum”. (Jean Guéhenno)1

Um ponto crucial da divergência e da incompreensão que envolveu a trajetória do jornal Movimento é o da autoria e do conteúdo político dos “Ensaios Populares”. Foi um dos motivos alegados para o grande “racha” do jornal, em abril de 1977, embora questões políticas mais gerais tenham sido o centro da polêmica.

A apuração objetiva mostra um encadeamento dos fatos ao azar, em vez de uma suposta conspiração, como se chegou a supor. Sergio Motta havia indicado o engenheiro Francisco Marsiglia para ser o administrador financeiro do jornal. Eles já se conheciam do tempo da faculdade (Faculdade de Engenharia Industrial, FEI), do movimento estudantil, onde os dois ajudaram José Serra a ser presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) de São Paulo e, depois, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1963 e 1964. Todos então eram militantes da Ação Popular, assim como outro companheiro e amigo, o baiano Duarte Lago Brasil Pacheco Pereira, que foi vice-presidente da UNE na gestão de Serra.

Chico Marsiglia se tornaria um técnico em finanças. Trabalhou em um banco de investimentos, de onde foi demitido depois de haver sido detido sob a acusação de arranjar uma casa para reuniões de dirigentes do PCdoB. Em 1975, estava trabalhando na preparação do lançamento de Movimento quando teve notícias de Duarte Pereira:

Fui procurado por um amigo comum, que me relatou como é que o Duarte estava. Ele estava absolutamente isolado, a AP tinha acabado, ele não topou entrar no PCdoB (...) (Esse amigo2) me procurou e disse: “O Duarte está numa situação incrivelmente ruim, isolado, não está em partido nenhum, tem que sobreviver, está morando na casa de um cara, tem que sair todo dia de manhã para dar uma de professor que vai trabalhar, e não vai (...) Fica girando em ônibus. Um negócio, assim, absolutamente incrível, kafkiano. Tinha que voltar uma determinada hora, também para não dar na vista. Sob o ponto de vista financeiro, vivia de algumas contribuições do próprio cara que o abrigou, que também não era rico.” Eu falei: “Bota ele em contato comigo, vou ver se ele topa trabalhar no jornal, ganhar uns trocos e contribuir”. Marquei um encontro com o Duarte, conversamos andando na rua, naquela época, era perigoso...

a.            (...) Aí, encontrei com ele algumas vezes e comentei com o Raimundo: “tem um cara assim, assado...”, “Quem, da Realidade? Puta vida, traz ele aí!”, “Ah, Raimundo, não dá, né?”(Duarte estava na clandestinidade). (...) E, por outro lado, eu já tinha falado com o Sergio (Motta), ele falou: “vamos, eu converso também com o Raimundo, legal”. E o Sergio promoveu esse encontro.

Duarte Pereira lembra que foi encontrar Sergio Motta na empresa dele, o qual disse: “‘Olha, vamos combinar, te apresento ao Raimundo e vamos conversar. Vou marcar um jantar e te apresento’. E foi assim. Ele marcou um jantar na casa dele, e foi onde eu conheci o Raimundo.”

As reuniões de Raimundo com Duarte para estabelecer os rumos da colaboração se deram na casa dos pais de Marsiglia, no bairro do Itaim: “A casa da minha mãe era um sobradinho, não despertava suspeitas, nada. Deu para fazer reuniões várias vezes.” Duarte Pereira lembra com gratidão dos “saborosos jantares” que a mãe de Marsiglia preparava para eles nas ocasiões em que se reuniam em sua casa.

 

DUARTE PEREIRA E AÇÃO POPULAR

   Baiano de Santo Amaro da Purificação, ex-seminarista que depois iria se formar em Direito pela Universidade Federal da Bahia, Duarte Lago Brasil Pacheco Pereira entrou na recém-criada organização política católica Ação Popular, no segundo semestre de 1962. Ação Popular teve origem na Juventude Universitária Católica (JUC), que, rompendo com a hierarquia da igreja católica, empolgara as massas estudantis com uma proposta eclética de “humanismo” e “socialismo” cristão e uma prática de intenso ativismo, em contraposição ao reformismo e à prática cupulista do movimento estudantil ligado ao Partido Comunista Brasileiro.

Em fevereiro de 1963, Duarte participou em Salvador do primeiro congresso da AP, em que foi aprovado um “Documento-Base” que negava o “idealismo” e o “materialismo” e se definia por uma “terceira posição”, uma “perspectiva realista”.

A AP se organizou como um partido estudantil, primeiro com grande mobilização no meio universitário (a greve do 1/3) e depois no secundarista, com repercussão no meio cultural (UNE Volante, CPC da UNE). Mas logo ampliou-se para outros setores populares. O Documento-Base formulara como meta o trabalho entre operários e camponeses. Por meio do Movimento de Alfabetização de Base (MEB), do movimento de sindicalização rural, e pela Superintendência para a Reforma Agrária (Supra), organismos e programas do governo João Goulart, Ação Popular estabeleceu influência no movimento camponês e de trabalhadores rurais. Teve êxito menor junto aos operários industriais, envolvidos pelo sindicalismo oficialista e “pelego” ou sob a influência do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Os dirigentes e quadros da AP desenvolveriam rapidamente experiência na organização das lutas de massas, aproveitando o forte movimento de ascenso popular do período. Tal chegou a ser a sua influência política, inclusive no Congresso Federal e no Executivo, que, por sua indicação, o católico de esquerda, então deputado federal, Paulo de Tarso Santos, tornou-se ministro da Educação.

Duarte Pereira já era uma das lideranças ascendentes da AP em 1963, quando participou da articulação da chapa de José Serra para a presidência da UNE.

O golpe militar de 1964 sufocou todo esse movimento de ampliação da participação política popular que estava em curso no País. A AP, sofrendo o peso da repressão, foi para a clandestinidade, e seus dirigentes também, como Herbert de Souza (Betinho), Aldo Arantes, Haroldo Lima, e o próprio Duarte, entre outros. Nos anos seguintes, ela havia de se reorganizar na clandestinidade, e participou das lutas de resistência à ditadura. E, ao mesmo tempo, ia se transformando de uma organização de origem católica, de pensamento idealista, reformista, em um agrupamento político que, ao mesmo tempo em que entrava em contato com a teoria do marxismo leninismo, conviveu com períodos de predominância do “foquismo”, passando ao “maoismo”, definindo-se como marxista-leninista no final, até incorporar-se ao PCdoB em 1973.

A partir de 1965, o comando nacional da Ação Popular passou a sediar-se em São Paulo. A organização contava com poucos recursos, mesmo para sustentar seus dirigentes. Pouco conhecido pelo aparelho de repressão policial-militar, e em dificuldades materiais para sustentar-se e à mulher e dois filhos, Duarte decidiu sair da clandestinidade e combinar sua militância com trabalho profissional. Em 1966, foi apresentado por um amigo, Mauricio Segall, a Pedro Paulo Popovic, diretor da Editora Abril. Popovic achou que Duarte se encaixaria bem na equipe de uma nova revista da editora. E o levou a Paulo Patarra, que estava montando a equipe de jornalistas de Realidade. Patarra o contratou incontinênti. Como Duarte Pacheco, um dos seus quatro sobrenomes, ele consta do expediente da revista, encarregado do Departamento de Pesquisas, desde o número um, abril de 1966, e se mantém até o 11, em fevereiro de 1967. Duarte deixou a revista em obediência à orientação da Ação Popular, que anos depois ele passou a considerar dogmática, de “integração na produção” (o critério para ser militante da AP passava a ser trabalhar na indústria ou no campo e viver em bairro popular).

Sua passagem por Realidade foi marcante não só pelos textos com informações bem apuradas e escritos em um estilo transparente. Apelidado de “Baiano”, fez amigos na equipe. Influenciou colegas e trouxe três deles – Narciso Kalili, Sérgio de Souza e Carlos Azevedo – para a Ação Popular. Narciso e Sérgio chegaram a ser dirigentes locais da AP, mas, em 1968, com o advento da política de “integração na produção”, deixaram a organização. Nos anos seguintes, Duarte Pereira esteve entre os dirigentes que promoveram a aproximação entre AP e o PC do Brasil.

Essa afinidade começou nas chamadas ações de massa, nas frentes de luta estudantil e camponesa, onde os militantes das duas organizações com frequência apresentavam propostas semelhantes e agiam como aliados. Também levavam em conta sugestões do PC da China, que os estimulava à unificação. Por volta de maio de 1969, houve uma reunião de troca de opiniões entre Pedro Pomar e Carlos Danielli, pelo PCdoB, e Jair Ferreira de Sá e Duarte Pereira, pela AP. Embora houvesse pontos de concordância, havia muitas diferenças entre as duas organizações. A esse tempo, a AP definia novas posições sobre a sociedade e a revolução, adotava um novo tipo de organização, ao estilo dos partidos comunistas, passava a se denominar Ação Popular Marxista-Leninista (APML) e se propunha a construir um partido de tipo “inteiramente novo” da classe operária.

Nos estudos e debates que promoveu ao longo de três anos, a maioria dos dirigentes de APML chegou à conclusão de que o PCdoB, por sua luta contra o “revisionismo” do PCB prestista e do kruchevismo (de Kruchev, do PC da União Soviética), havia se reorganizado em 1962 e, portanto, era o partido da classe operária. Assim, não se tratava mais de “reconstruir

a.            o partido proletário”, que havia sido até então a posição da organização. Mais adiante APML concluiu que, sendo este o partido da classe operária, a organização devia integrar-se a ele. Essa decisão vinha sendo amadurecida havia algum tempo e se deu numa reunião dos seis dirigentes que compunham o Bureau Político, em meados de 1971. Uma minoria divergia, Jair Ferreira de Sá e Paulo Wright.

Além disso, dentro da maioria surgiram também diferenças de opinião. Haroldo Lima, Aldo Arantes e Renato Rabelo deixaram de defender a tese de um “partido inteiramente novo”. Para eles, agora, a unidade deveria ser feita com a integração no PCdoB. Duarte Pereira concordava com a unificação, mas sua posição se diferenciava. Propunha que as duas organizações construíssem “em torno do PCdoB” um partido inteiramente novo, da terceira etapa do marxismo-leninismo, que incluía o maoismo.7 Posteriormente, Duarte evoluiu dessa posição, mas considerou que a discussão precisava ser aprofundada: “Por influência do PC da China, tínhamos abraçado a tese do ‘marxismo-leninismo-maoismo’ de forma precipitada, dogmática e seguidista. Não devíamos revogá-la da mesma forma agora sob a influência do PC do Brasil”.

Também não concordava com o cancelamento do II Congresso da AP, que havia sido estabelecido para a definição da unificação com o partido. Na sua opinião, os militantes da AP não deviam integrar-se individualmente no PCdoB, mas enquanto organização. E esperava que o PCdoB retificasse afirmações, na sua opinião equivocadas, que fizera sobre a AP no jornal A Classe Operária.

Haroldo Lima foi um dos principais dirigentes da AP desde sua fundação até a unificação com o PCdoB. Depois, passou a fazer parte do Comitê Central do partido, posto que continuava a ocupar em 2010. Ele conta que, em 1972, a decisão pela unificação já havia sido tomada pela maioria da direção da AP, o II Congresso estava programado para coroamento do processo de discussão. Mas quando se divulgou a notícia da guerrilha dirigida pelo PCdoB no Araguaia, “tudo mudou de figura”. Nas próprias palavras de Haroldo Lima:

Eis que surge uma variável extremamente importante, é o surgimento da guerrilha do Araguaia, colocando o PCdoB na alça de mira da ditadura. O partido que estava conduzindo a guerrilha era o PCdoB, com o qual nós queríamos nos unificar. Então, essa realidade é que introduz um dado novo que foi objeto de tratamento da “maioria da maioria”. (...) E nós, da maioria da maioria, que éramos eu, o Aldo e o Renato, esse pessoal pensou “realmente não dá mais (...) Pode ser que a guerrilha acabe nesse período e acabe o partido”. E o próprio partido também, que estava em contato conosco, dizia: “Nós precisamos de vocês. Precisamos urgentemente de vocês”. Isso é um apelo da revolução, não teve dúvida, esse pessoal não teve dúvida.

Em 1973, quando a unificação começou a ser efetivada, Duarte considerou que aquelas premissas exigidas não haviam sido atendidas e decidiu não entrar para o partido. Sua decisão causou estupefação entre os companheiros que ele até então liderava no rumo da unificação, como lembra Carlos Azevedo. Portanto, quando escrevia Ensaios Populares para Movimento, Duarte o fazia na condição de militante político independente.

 

A IDEIA DOS ENSAIOS

Raimundo Pereira queria ter no jornal uma seção de ensaios rápidos, como na seção Time Essay da revista americana Time. Duarte parecia a pessoa indicada para isso. Raimundo conta (e Duarte confirma) que, em 1967, quando pediu demissão em Realidade, Robert Civita, diretor da Editora Abril, o havia convidado para fazer uma seção semelhante em uma nova revista que estava para lançar (Veja seria lançada em 1968), mas, devido à decisão política da AP, ele não pôde aceitar.

Nos Ensaios Populares, em Movimento, Duarte Pereira foi encontrar uma janela para expor seus pontos de vista. Sua colaboração, pelas posições políticas que apresentava, pela qualidade formal e pela repercussão que causava entre os leitores e na área política, teria em qualquer oportunidade produzido polêmica. Os textos de Ensaios Populares tinham o objetivo de promover a “elevação do nível de consciência dos trabalhadores”. Partiam dos fatos, da conjuntura, discutiam a política do governo e as táticas da oposição, para lançar ideias e apontar caminhos. Por exemplo, na edição de Movimento nº 24, de 15 de dezembro de 1975, comentando uma proposta do senador Marcos Freire (MDB-PE) de se institucionalizar o regime introduzindo aspectos do AI-5 na Constituição, um Ensaio tratou didaticamente das duas ordens jurídicas coexistentes no País, a constitucional e a “institucional”, isto é, a do AI-5, que tornava letra morta a outra, a dos dispositivos constitucionais. Isso para concluir que propostas como a de Freire, que não abrigavam as liberdades democráticas e a participação popular, conduziam à institucionalização do regime de exceção e não à democratização. Causando impacto nos vários setores da oposição, os Ensaios Populares se tornaram de fato um ponto de referência para os movimentos políticos.

Na opinião de Bernardo Kucinski:

Os Ensaios Populares destacaram-se pela clareza de estilo e linguagem pedagógica. Propunham-se a “fazer educação popular”, desenvolvendo um tema em forma editorial, a partir de fatos da semana ou da conjuntura. Aos poucos foram definindo, com vigor e estilo econômico, posições políticas, e passaram a desempenhar dentro do jornal e junto ao público o papel de símbolo ou comprovação de existência de uma determinada hegemonia política no jornal.

 

AS DIFERENÇAS APARECEM NO DIA A DIA

O programa do jornal defendia uma frente democrática contra a ditadura, era uma plataforma geral em torno da qual havia consenso. Mas como ela se explicitaria concretamente na pauta, nos artigos e reportagens, nos temas prioritariamente abordados, nos frequentes e concorridos debates promovidos pelo jornal? No dia a dia é que haveriam de se evidenciar as divergências. Pois, em qualquer episódio concreto, cada tendência presente no jornal tinha seu modo particular de enxergar a frente democrática seja como caminho para a democratização ou para a revolução democrática e popular, ou, ainda, para a revolução socialista. Parte considerável da equipe defendia ardorosamente a realização de uma reforma agrária no País. Outra parte era ardorosamente contrária.13 A bandeira da convocação de uma Assembleia Constituinte também era motivo de calorosos debates. Nesse clima, cada palavra se tornava um símbolo, traía um significado, se apresentava como saída ou armadilha, bandeira ou anátema. E tudo era acompanhado com “pente-fino”, como dizem João Batista dos Mares Guia e Aloisio Marques em suas entrevistas, adiante.

Essas divergências, que no cenário nacional empolgavam as várias tendências de esquerda desde os bancos da universidade até todos os meios intelectuais, iriam de fato ser o pano de fundo dos acontecimentos que levaram ao rompimento da primeira frente formada em Movimento.

Como esses temas eram tratados amplamente em Ensaios Populares, a polêmica teve seu fulcro voltado para essa seção. Uma pesquisa com os leitores, feita por Movimento em 1976, havia indicado que Ensaios Populares era a terceira seção mais lida do jornal, depois de Cena e Gente Brasileira e Histórias Brasileiras. Mas, para alguns membros da equipe, esses textos divulgavam posições “atrasadas”, reformistas. E havia um complicador: quem escrevia os Ensaios Populares?

A autoria era atribuída a Raimundo Pereira, mas pelas posições ali defendidas alguns passaram a supor que fossem escritos pela direção do PCdoB. Era um duplo engano, primeiro porque as propostas para a frente pela democratização estavam disseminadas pelos setores progressistas do País, formavam um certo consenso. Embora essas ideias tenham sido mais bem desenvolvidas entre as organizações revolucionárias, pelo PCdoB e também pela AP, isso não significava que o partido e a AP estivessem diretamente presentes onde quer que elas viessem a público. Em segundo lugar, as ideias de Duarte Pereira, o autor dos Ensaios, sobre a tática, em geral, não eram diferentes das do PCdoB, mas Duarte não era militante do PCdoB, como vimos. Quanto a Raimundo Pereira, a sua concordância com aquelas propostas vinha de antes, pelo menos desde quando dirigia o jornal Opinião. Ele com certeza concordava com o que publicava. Entrevistado em 2010, disse:

Os Ensaios, pela sua qualidade, começaram a ter grande

repercussão. Eu os editava. Para mim, e para dezenas de

milhares de pessoas, tenho certeza, eles foram ótimos.

Mas eu só podia publicar aquilo com o que eu estava de

acordo, pois, mesmo sem assinar os textos

– que não eram meus, claro – eu tinha de

defender aquelas ideias publicamente. Eram textos

que a maioria da redação, e mais gente depois, na medida

em que os textos ganharam fama, achava que eram de minha autoria.14

Tonico Ferreira acha que a contribuição de Duarte foi importante:

... ele tinha uma cabeça muito boa e escrevia bem. Para a época, foi importante. Então, ele esclarecia um pouco, toda a ideia que a gente tinha do que tinha que fazer naquele momento que era superar o trauma da luta armada. Você tinha que superar aquilo tudo, porque... ninguém sabia direito o que fazer: “acabou a luta armada, o que nós vamos fazer?”. Isso, um pouco, era o papel dele lá escrever (...) nós éramos jornalistas, a gente não sabia fazer, não estávamos preparados para isso. Então, aquilo era uma contribuição importante para nós. Porque às vezes você tem alguns intelectuais que dão uma ideia muito própria e muito boa para um determinado momento (...) Comigo, total afinidade, com o Raimundo, também.15

Mas despertou divergências desde o começo, lembra Tonico:

Isso era uma grande discussão lá, né? Isso tudo foi motivo de brigas, porque achavam que em tudo aquilo estavam as posições do PCdoB. Achei aquilo tudo muito engraçado, porque eu não conhecia ninguém do PCdoB, não tinha nada a ver com aquilo e até hoje as pessoas acham que eu sou do PCdoB, ou fui. Eu não tenho a menor ideia, nunca fui em nenhuma reunião, não sei de nada, não...

Tonico lembra que houve muita intriga:

É, porque havia uma desconfiança de que todo mundo... é assim, digamos que você não é nada, você é, inclusive, de outra tendência e está lá dando seu sangue pelo jornal. Aí, dizem pra você: “não, você está trabalhando pros neguinhos do PCdoB, eles estão pondo todas as ideias deles nos Ensaios Populares, aquilo lá é para divulgar as opiniões (do partido) e você é massa de manobra”, ninguém aceita um negócio desses. Na sua opinião, o problema era não poder dizer quem escrevia por causa da repressão: Então, não tinha como explicar aquilo. Não dava para dizer que o Raimundo tinha escrito, acho que até tentou-se uma época dizer isso, mas não funcionou (...) eu sou a grande testemunha de que não houve nada, nenhuma grande conspiração, mesmo porque eu ficava lá tanto tempo quanto o Raimundo e provavelmente mais, nunca deixei o Raimundo sozinho. Tonico sabia que era Duarte quem escrevia os Ensaios. Além de Raimundo, só ele, Sergio Motta e Francisco Marsiglia sabiam. O motivo pelo qual Raimundo não informou aos outros companheiros era, entretanto, defensável. Tinha que preservar Duarte. Ele era intensamente procurado pela repressão do regime, como importante dirigente da AP e, depois, do PCdoB. Os órgãos da repressão não sabiam que Duarte não havia entrado para o PCdoB, tanto que esperavam encontrá-lo na casa da Lapa onde houve o massacre de dezembro de 1976. A revista Veja chegou a noticiar sua prisão naquela ocasião.16 Se apanhado, corria o risco de ser assassinado. Além disso, se sua colaboração ao jornal fosse descoberta pelos militares, Movimento estaria seriamente comprometido, poderia ser fechado, poderia haver prisões na equipe. A redação de Movimento era um local aberto a todas as pessoas e não se podia subestimar a possibilidade de uma infiltração policial. Era grande a responsabilidade de Raimundo ao manter contatos sigilosos com Duarte. E grave a decisão que assumiu de não informar sobre a colaboração de Duarte nem mesmo aos amigos, como Marcos Gomes e Bernardo Kucinski.

Para este, a condução do jornal, pelo Raimundo, foi contrária

aos estatutos do jornal. Violentamente contrária ao estatuto do

jornal. Introduziu um elemento de clandestinidade, que ele inclusive

podia ter introduzido, mas de forma legítima, ele introduziu de

forma ilegítima, porque ele poderia ter dito: “Nós temos um

pensador, de esquerda, clandestino, que não pode aparecer,

ele vai escrever sob um pseudônimo, o que vocês acham?”.

Na entrevista citada, perguntado se achava que, naquele clima de repressão, a revelação da identidade do autor de Ensaios Populares poderia levar a problemas de segurança para o jornal e para o próprio Duarte Pereira, respondeu: “Isso eu não sei. O que eu sei é que o jeito que ele (Raimundo) fez não estava correto, não foi a solução adequada. Entendeu? Foi absolutamente não adequada (...)”

E também tem o ressentimento pessoal porque o velho amigo não confiou nele: “Por que para o Marcos Gomes ele fala e para o Bernardo Kucinski ele não fala?” Na verdade, Raimundo não falou de Duarte Pereira para Marcos Gomes. Este, porém, lembra que logo deduziu por conta própria porque conhecia o estilo de escrever de Duarte por haver militado a seu lado na Ação Popular.

Em outro momento da entrevista, Bernardo diz: “Nós éramos muito chegados (...) as famílias eram muito chegadas. Por isso que, depois, nos episódios posteriores, teve uma dimensão muito pessoal, essa traição pessoal, ele não confiar a mim coisas que fazia...”

Tonico Ferreira, Marcos Gomes e Luiz Bernardes concordam com os cuidados de segurança tomados por Raimundo, mas nas entrevistas que deram para este livro disseram achar que foi um erro não atribuir uma autoria aos Ensaios. Sem a assinatura de um autor, dizem, os artigos assumiam um tom de editorial, de posição oficial do jornal, quando não deviam e não podiam assim ser considerados, para o bem da unidade política da equipe.

“Devia ter assinado com um nome qualquer, diz Marcos Gomes. “Depois de 1977 eles não foram assinados com o nome fictício de Alfredo Pereira? Por que não foi assim desde o começo?”

Será que a simples presença do nome de um desconhecido a pretexto de assinatura resolveria o dilema? Se o autor fosse pessoa conhecida, é possível que a situação fosse melhor em termos de confiança dentro da equipe, mas não atenuaria o debate político, que era o centro das divergências. O fato é que, naquele clima tenso de um jornal de oposição sob cerco da ditadura, vivendo internamente divergências políticas, a decisão de manter em segredo a colaboração de Duarte Pereira, tomada por razões de sua segurança e da segurança do próprio jornal, assumiu ares de trama, de conspiração.

Teodomiro Braga afirma que:

Eu nunca me senti enganado. Sabia que tinha as coisas ali que não podia contar, não podia perguntar. Nunca perguntei muito, porque sabia que se perguntasse poderia não ter a resposta que estava buscando. Ficava na minha, sabendo que nós estávamos em plena ditadura, que era perigoso. Era complicada aquela época, você vivia numa tensão permanente, você, a família. Não podia desconsiderar o braço da repressão, ainda mais em São Paulo.

Para Teodomiro, todo mundo sabia. Na verdade, sabia. O pessoal não queria dar o braço a torcer, porque os que faziam expressavam uma corrente diferente, que era rival das outras que não gostavam, era isso. (...) Foi um pretexto. Se não fosse aquele episódio, se não fossem os Ensaios Populares, iam rachar por outro motivo, pela mesma razão, que é a questão de visões diferentes sobre o Brasil naquele momento.

A opinião de Murilo Carvalho é mais crítica:

Eu não estava aqui. Eu lembro que o Flávio de Carvalho me escreveu uma carta contando essa história, ficamos todos muito espantados. Houve uma série de justificativas do Raimundo, dizendo que o Duarte estava clandestino e tudo, mas não foi uma coisa muita inteligente, eu acho, manter isso escondido dos outros companheiros de trabalho.(...) O problema é que aquilo ali (os Ensaios Populares) era a voz do jornal.

Francisco Marsigilia diz que “isso não era importante, o que importava é que, fosse de que tendência ou organização política que fosse, que se trabalhasse, como se trabalhou, para fortalecer o jornal”.

Na sua opinião, a crítica de Kucinski significa negar legitimidade à participação de pessoas que estavam forçadas a viver na clandestinidade, principalmente à participação de militantes ligados ao PCdoB:

“E se havia a influência de partidos e pessoas que estavam na clandestinidade, qual era o problema? Eles não tinham direito de se manifestar só porque eram proibidos pela ditadura?”20, questiona.

 

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Capa da edição 115, 12 de setembro de 1977. Desenho de Jayme Leão

 

 

A política de Carter, um dos estopins

Viviam-se dias dramáticos no início de 1977. Os acontecimentos políticos indicavam tensão crescente entre governo e a oposição, continuavam as cassações de parlamentares, a censura prévia a vários jornais, sem esquecer as medidas mais duras contra outros oposicionistas, prisões e processos. O “Massacre da Lapa” ainda repercutia. A denúncia, feita em 1º de fevereiro, pelos advogados Luiz Eduardo Greenhalgh e Márcia Ramos de Souza, de bárbara tortura contra seu cliente Aldo Arantes, dirigente do PCdoB, provocou protesto no País e no exterior. A Pontifícia Comissão de Justiça e Paz de São Paulo recebeu a mãe de Aldo e se manifestou contra as “práticas abomináveis”. Em Portugal, um abaixo-assinado contra o “Massacre da Lapa”, com 40 mil assinaturas, foi apresentado ao embaixador brasileiro, general Carlos Alberto Fontoura, que recusou recebê-lo. Quarenta personalidades francesas, inclusive um Prêmio Nobel, enviaram carta ao presidente Geisel pedindo que cessassem as violências. O governo também recebia questionamentos do novo governo americano, do presidente Jimmy Carter, sobre a violação de direitos humanos no País, que o levaria a suspender o Acordo Militar Brasil-EUA. As dissensões entre os militares se agravavam, surgiam atos de indisciplina nos quartéis. A política de distensão claudicava, enquanto a dinâmica das denúncias contra abusos e manifestações de oposição tomava impulso. A ideia da democratização se difundia pela sociedade e ganhava até as páginas da grande imprensa.

Nas áreas de influência da esquerda havia uma animação. Grandes questões eram debatidas, todas parecendo vitais para o futuro da nação. O regime dava sinais de esgotamento, entre militares e empresários formavam-se correntes divergentes. As classes sociais buscavam se posicionar tendo em vista seu lugar no novo cenário de poder que se esboçava. Quem iria dirigir o processo? A oposição precisava tomar a iniciativa. Precisava se unir para buscar

o poder. Mas unir-se em torno de quê? Quem eram os protagonistas? Quem fazia parte da frente de oposição? Que objetivos essa frente devia almejar? A burguesia nacional fazia parte da frente? Mas a burguesia nacional existia?

Qual o papel da classe operária dentro dessa frente? Se ela não fosse a classe dirigente, seria manipulada pela burguesia? A frente devia incluir os militares dissidentes? Mas eles queriam de fato a democratização ou controlar o processo democrático? Devia-se lutar por uma Assembleia Constituinte que elaborasse uma nova Constituição? Mas quem iria convocar e dirigir a Constituinte? Ela iria democratizar de fato o País ou institucionalizar as leis de exceção do regime ditatorial? Essas questões estavam presentes no cotidiano da equipe e nas páginas (quando passavam pela censura) do jornal Movimento, com uma grande carga de emocionalidade.

Em 1º de abril, o general Geisel baixava o “pacote de abril”, um decreto com base no AI-5, fechando temporariamente o Congresso, criando novos limites para as eleições de 1978 e impondo pela força a Reforma do Judiciário que

o Congresso se recusara a aprovar por meio de emenda constitucional. Na edição 92, de 4 de abril, Movimento dava matéria de cinco páginas e meia (apesar dos cortes dos censores) detalhando o episódio. Pouco depois, o deputado Alencar Furtado, líder do MDB na Câmara dos Deputados e membro do Conselho Editorial de Movimento, após discurso pela TV em que lamentava os mortos e desaparecidos, tinha seu mandato e seus direitos políticos cassados.

Alencar Furtado, aos 85 anos, com boa saúde, morava em Brasília em 2010. Relembrou com entusiasmo:

Fui o último cassado. Houve um protesto internacional muito grande. A Câmara, o governo receberam, por exemplo, mensagens do Partido Socialista Francês, do Partido Trabalhista Inglês, a Assembleia de Portugal fez uma mensagem unânime e mandou contra eles aí. Enfim, houve uma reação, por que realmente, naquela época, só havia dois partidos, era Arena e MDB, então, cassaram um líder do MDB – naquela época eu estava liderando a bancada –, ia ficar só o outro líder. Então, foi uma violência enorme e a repercussão foi muito grande. Eu acho que isso concorreu para não cassar mais ninguém. Mas também já estava com as frestas de luz da abertura, né?1

 

A POLÊMICA

Na ressaca da derrota no Vietnã, o governo Carter iria adotar uma linha diplomática de tomar certa distância dos governos autoritários instalados sob a inspiração dos EUA pelo mundo afora. Tonico Ferreira lembra que o cônsul americano aqui, que era provavelmente um cara da CIA, chamou a gente para conversar. Fui eu, porque o Raimundo não quis ir (...) o Fernando Henrique Cardoso e acho que o Airton Soares, ele convidou três caras para conversar, para sondar como é que seria recebida pela esquerda a política de direitos humanos do novo presidente, que ia tomar posse. (...) Enfim, de uma certa forma, o governo americano sondando a esquerda sobre o novo governo em uma nova fase. Desse ponto de vista, é superrico, você não poderia fazer nada, entender a oposição no Brasil, naquele momento, sem passar pelo jornal Movimento.

Qual o real significado da política de direitos humanos de Carter? Na edição 92, Movimento tratava do tema em dois artigos. Num Ensaio Popular intitulado “Os direitos humanos e a soberania nacional” avaliava a política dos direitos humanos do governo de Jimmy Carter como uma forma de os EUA refazerem sua “autoridade moral”, abalada por uma série de episódios como a derrota no Vietnã e pelo apoio a regimes repressivos como os da Indonésia e Chile.

(N.E. obviamente, não podia referir-se ao Brasil, mas estava implícito). Apropriar-se da bandeira dos direitos humanos se prestava “a recuperarem o apoio interno e a iniciativa externa” para poderem continuar sua política tradicional. Não significava uma mudança na sua essência: “(...) O sentido geral da política de Carter é imperialista, não democrático...”

Ao lado desse texto foi publicado um artigo de Bernardo Kucinski, intitulado “Capital financeiro e direitos humanos”. Referia-se a uma emenda apresentada por Carter ao Congresso americano, “que, condicionando a concessão de empréstimos em organismos internacionais nos quais o governo norte-americano tenha assento, a um certo código de respeito a direitos humanos por parte dos tomadores desses empréstimos, contraria uma lei fundamental que rege o movimento do capital financeiro”, isto é, a lei que leva o capital a procurar sempre os melhores juros para seus investimentos. Os melhores juros estariam, explicava o autor, nos países que têm taxas maiores de exploração do trabalho e que frequentemente são aqueles que menos respeitam os direitos humanos. Porém, “a ‘emenda Reuss’ só pode ser aplicada naquela fatia bem diminuta atualmente de financiamentos concedidos por organismos internacionais com participação direta governamental”, cerca de 15 a 20% dos empréstimos.

Por todos esses motivos, os possíveis efeitos da “emenda Reuss” dificilmente sairão de limites bem estreitos. De uma estreiteza diretamente proporcional ao que essa emenda tem de revolucionária em relação aos critérios consagrados pelo capital financeiro...

Essa expressão – revolucionária – foi retirada do texto pelo editor, que fez quase duas dezenas de outros ajustes.

 

KUCINSKI E RAIMUNDO TROCAM CARTAS

Bernardo Kucinski protestou veementemente. Em 5 de abril de 1977 criticou o Ensaio:

Sr. Editor, li com espanto o artigo que procura explicar a nova política externa norte-americana como pouco mais que um mero truque retórico. Em nome da “descoberta” de que o imperialismo norte-americano continua sendo o imperialismo norte-americano, o autor despreza uma oportunidade histórica que certamente terá seus limites mas que já produziu resultados concretos e ainda parece longe de atingir a plenitude desses limites. Para alimentar seu raciocínio o autor emprega fatos incompatíveis com sua tese, subverte a ordem das coisas e da história e termina sugerindo que a campanha de Carter é nociva aos interesses dos trabalhadores da União Soviética. Razões técnicas impedem-me de fazer já uma crítica detalhada deste editorial que fez avançar o processo de confusão ideológica que tem – mais frequentemente que deveria – caracterizado o jornal. Quero no entanto desde já deixar registrada a minha vigorosa discordância principalmente porque meu artigo sobre capital financeiro e direitos humanos, publicado com destaque ao lado do editorial, poderia induzir os leitores a acreditarem que concordo com esse ensaio popular. Tanto não concordo que em meu artigo, ao mesmo tempo em que procuro mostrar os limites estreitos da “emenda Reuss”, digo que essa estreiteza é diretamente proporcional ao que a mesma tem de “revolucionário”, expressão essa inexplicavelmente ausente do texto publicado.

Raimundo respondeu três dias depois, em 8 de abril de 1977: Caro Bernardo, (...) a (sua) carta não contribui para o debate porque faz afirmações, mas não as fundamenta (...) sugerimos que você esclareça, por exemplo, que “oportunidade histórica” a política de Carter nos proporcionou; que “resultados favoráveis” já produziu; que “plenitudes” está ainda longe de alcançar; quais os fatos relevantes que o Ensaio omite de forma premeditada; qual a ordem natural “das coisas e da história” que ele subverte; qual “o processo de confusão ideológica” que tem “mais frequentemente que deveria” “caracterizado o jornal?”

Raimundo explicou quais eram os critérios gerais estabelecidos por

consenso no jornal para as correções nos textos de seus colaboradores.

Em seguida escreveu: Quanto aos cortes específicos feitos em seu artigo: acreditamos que nada de essencial do que você escreveu inicialmente foi omitido; é certo que omitimos a expressão onde você dizia que a estreiteza da “emenda Reuss” era diretamente proporcional ao que ela tinha de “revolucionário”; no entanto, todo seu artigo se empenha em demonstrar que ela não significará coisa alguma, dizer, de passagem, sem nenhuma explicação, que a emenda tem alguma coisa revolucionária, não nos parece qualquer contribuição significativa ao texto. Isto pode ser visto se compararmos o texto que saiu publicado com o texto integral.

 

CARTA DE DUARTE PEREIRA

A propósito dessa polêmica, no início de abril, Duarte Pereira, que se mantinha na clandestinidade, escreveu uma carta a Raimundo. Quanto à divergência de conteúdo – diz ele – devemos ter cuidado para situá-la no eixo apropriado. Vejo o risco de se embaralharem duas questões distintas: uma é a avaliação da “política de direitos humanos” do governo Carter, de sua natureza imperialista, de seus propósitos hegemônicos (...) outra questão são as consequências negativas ou positivas que podem derivar dessa política, apesar de seu caráter imperialista. A primeira questão é a mais importante, é o eixo do Ensaio. Não consigo entender como alguém que se pretende de “esquerda” possa negá-la! (...) Quanto à segunda questão, precisamos ser cuidadosos para não sermos arrastados, no calor do debate, a um falso dilema. Esta segunda questão está tratada insuficientemente no Ensaio: em primeiro lugar, por uma auto-limitação deliberada, imposta pela censura prévia, é (...) um problema muito mais difícil de ser exposto de forma aceitável à censura, tanto isso é verdade que o bloco do Ensaio que abordava o problema, embora redigido com cuidado, sem aprofundar muito o problema, ainda assim foi vetado pela censura. O desaparecimento desse bloco pode parecer secundário, mas não é, quebra o equilíbrio do Ensaio (...) o Ensaio terminava tirando conclusões práticas, sugerindo como, apesar do caráter liberal-burguês das “políticas de direitos humanos” e de seus propósitos imperialistas nas mãos de Carter, ainda assim as forças populares poderiam tirar proveito dela, fazê-la voltar-se contra qualquer imperialismo, a bem da luta revolucionária, e sugeria ainda sob que condições isso seria possível. Em suma, o Ensaio enfrentava o problema primeiro num plano crítico-ideológico e depois num plano político-tático; a censura acabou com o segundo e não é difícil entender por quê! É de se notar como a intervenção da censura havia complicado ainda mais o debate entre Kucinski e o editor.

Duarte lamentava a forma agressiva com que Kucinski estava se relacionando com o editor do jornal, em um tom “arrogante”, “presunçoso”, e sua falta de confiança na honestidade de propósitos dos companheiros. Apesar das sucessivas tentativas de entendimento, essa atitude estaria levando uma contradição não antagônica a se transformar numa contradição antagônica, opinava. E, defendendo-se das acusações feitas aos textos dos Ensaios Populares, lembrava, sem modéstia: “também Lênin foi acusado a seu tempo de ‘dogmático’, ‘intolerante’ e ‘doutrinarista’”.

Desde 14 de fevereiro, Kucinski já estava fora do Conselho de Redação, conforme pedido dele feito por escrito, como se viu. Estava em processo de saída. Esse retardamento objetivamente favoreceu uma saída coletiva, que causou impacto e ajudou na criação de um novo jornal.

 

PROPOSTA DE FLÁVIO AGUIAR

Aproximava-se o momento da primeira Convenção anual do jornal, para um balanço geral de sua atividade e a eleição do editor-chefe, marcada para 29 e 30 de abril de 1977. Em clima de tensão, realizavam-se as reuniões regionais de preparação. Para encaminhar o debate sobre os Ensaios Populares havia sido instituída uma comissão especial, formada por Flávio Aguiar, Chico de Oliveira e Marcos Gomes. Em abril, Flávio Aguiar produziu um texto que esclareceu em grande medida o teor das divergências, evidentemente políticas e já caracterizando a luta pelo poder dentro do jornal.7 Escreveu:

A leitura desses textos mostra que os ensaios têm sido uma interpretação doutrinária adequada do programa do jornal, no sentido de que buscam, sempre, ligar todas as lutas e aspirações do povo brasileiro – sua versão delas, é bom não esquecer – à questão da luta pela democracia e pelo fortalecimento desta democracia. Mas esta ligação se faz num nível de detalhamento tal que os fazem uma interpretação possível do programa. Outras cabem dentro deste programa. Ou pelo menos o seu debate. Não creio que esteja no âmbito desta comissão determinar qual delas é a mais correta, ou a mais interessante, para o jornal Movimento. Os debates no Conselho e no jornal deverão, se for o caso, mostrar isso. O que interessa, a meu ver, é fixar aqui o princípio de que cabe mais de uma interpretação do programa do jornal – desde que se mantenha como eixo central destas interpretações a formulação da luta democrática. Mesmo sobre isso é possível ir a detalhes que o programa não prevê expressamente.

E continuando:

Me parece evidente que no nível de detalhe a que chegaram, os Ensaios não podem ser tomados como uma expressão global do Conselho de Redação ou, muito menos, de todas as pessoas que compõem o jornal (...) sendo tomado como editorial quando, na realidade não o é – a seção deixa de satisfazer a unidade do jornal.

O documento de Flávio Aguiar propunha que a seção fosse transformada numa seção de debates, “uma seção aberta a todos os membros do jornal”(...), cujas colaborações seriam assinadas por iniciais; que a responsabilidade de sua edição fosse do editor-chefe; e que fosse criada uma comissão executiva do CR para aprovar textos, produzidos pelo editor-chefe ou por quem ele indicasse, para serem publicados sem assinatura e com a rubrica de “editoriais”. E justificava: Esse conjunto de medidas tem por objetivo preservar a convivência democrática entre diferentes linhas de pensamento dentro do jornal (grifo nosso) (...) visam assegurar um tratamento igualitário para todas as pessoas que se disponham a se aliar ao jornal, em nome de um programa. (...) Tenho certeza de que, se não tivermos sempre estes alvos em mente, nossas discussões tenderão a se tornarem bate-bocas fratricidas, ou negociações burlescas entre posições estanques e sectariamente demarcadas.

 

RAIMUNDO RESPONDE A AGUIAR

Raimundo Pereira respondeu avaliando o texto de Aguiar como “sério, pesquisou, apreendeu muito bem a articulação essencial dos Ensaios Populares; é aberto e fraterno nas críticas; nunca se ressaltará demais essas qualidades!” Mas discordava: Um programa, por mínimo que seja, deve ser um todo articulado e suficientemente demarcador; por isso, nas posições básicas que tome não comporta mais de uma interpretação (...) Na realidade, sob a aparência de “várias interpretações” o que pode ocorrer são vários programas... Mais adiante: Como os “Ensaios” não nasceram para ser editoriais, e por isso não tiveram um método de encaminhamento correspondente, como o Relatório examina muito bem, então é possível que tenha avançado demais, entrado em questões que ultrapassam o terreno da unidade; então é preciso circunscrever mais claramente esse terreno da unidade, para que os “Ensaios” se limitem a ele; mas, dentro dele, a interpretação tem de ser uma só, senão estaremos entrando num terreno de engano mútuo, fazendo jogo de palavras para dissimular divergências reais. A importância do problema está em que um programa claro e preciso, por mínimo que seja, é indispensável para todo o jornal e não apenas para os Ensaios; ele interfere em toda a pauta, nas ilustrações, nos títulos, na paginação, na seleção de funcionários e colaboradores etc. É impossível que um jornal como o nosso possa funcionar sem um programa único claro. Raimundo argumentava que a proposta de Aguiar “altera substancialmente a concepção do jornal e dos Ensaios”. Para ele, “um jornal aberto, definido apenas pela marca geral de ‘democrático’ e de ‘oposição’(...) representaria um passo atrás no que temos tentado ser até agora...”

(...) Pois, embora aberto e solidário às oposições “liberal” e “nacionalista”, nosso jornal tem procurado encarar os problemas do ponto de vista da oposição popular (...) Mas para isso não pode ater-se apenas à luta pela liberdade, pela democracia; esta luta tem que estar articulada à luta anti-imperialista e também por reivindicações especificamente populares, como uma nova política salarial, reforma agrária, democratização do ensino, direitos femininos etc.

As divergências políticas estavam claras. O terreno em que o debate iria se travar já estava definido.

 

A ALTERNATIVA MINEIRA

Em São Paulo, o debate se radicalizava, unindo no confronto com a direção do jornal personalidades com posições políticas tão diferenciadas quanto as de Bernardo Kucinski, Francisco de Oliveira, Flávio Aguiar, Guido Mantega, Maria Moraes, Ricardo Maranhão, Silvia Campolin e outros intelectuais isolados que não tinham massa crítica para se opor ou almejar o poder no jornal. A massa crítica viria de Minas Gerais. A maioria da equipe da sucursal de Belo Horizonte fora formada por um grupo previamente existente, cujo núcleo somava novas lideranças do movimento estudantil com ex-militantes da guerrilha urbana derrotada pela ditadura. Esse grupo alcançara grande unidade política, era organizado e mobilizava amplos setores na capital mineira, tinha força de massas. Arregimentara muitas energias em torno do jornal, tanto que a sucursal chegou a vender quase tantos jornais e assinaturas quanto a própria sede, segundo as palavras de Betinho. Era a Centelha, um grupo político influenciado pelas ideias de Ernest Mandel, mas principalmente formado no pensamento de Leon Trotsky, conforme relata o economista Aloisio Marques, na época um de seus articuladores: “Nós não tínhamos relação com a Quarta Internacional, mas éramos afinadíssimos nas teorias de Trotsky, a revolução russa, as teses da revolução permanente, da abertura para as tendências, etc. e tal...”

Aloisio Marques conta que Raimundo Pereira contatou Alberto Duarte, o Betinho, e este, que anos antes militara com Aloisio na antiga Ação Popular, mas não fazia mais parte de qualquer grupo político, foi quem convidou o grupo da Centelha para participar na sucursal.

Aloísio lembra que na Centelha tinham convicção “absoluta” de que o PCdoB era o orientador das ações do jornal Movimento e sobretudo de Raimundo Pereira. Mas era um jornal de frente, cujo programa defendia a luta pelas liberdades democráticas e a Assembleia Constituinte, posições que eram centrais para o grupo, oferecia, portanto condições “para a unidade na diversidade”, para sua participação com vistas a unir forças contra a ditadura e também expandir a sua influência:

Sabíamos que no Brasil tinha muita gente como nós, dispersa, desgarrada, perdida e o jornal funcionaria como um agregador, um aglutinador de forças (...) Nosso grupo, que já era bem organizado, foi decidido, uma decisão política de participação integral (no jornal)... O sociólogo João Batista dos Mares Guia, que participara da guerrilha urbana pelo grupo Colina, quando retomou a vida legal foi um dos organizadores da Centelha. Tornou-se um dos participantes mais ativos na sucursal de Belo Horizonte. Ele conta: O Raimundo veio, o Raimundo é que foi o desbravador. Ele agregou, no estilo do Raimundo, muita convicção, muita firmeza, que tinha a política de luta por liberdades democráticas, Assembleia Constituinte, uma aliança política preferencial com o campo dos Autênticos do MDB, coisas muito claras. De modo que quem entrou sabia no que estava entrando. E não é plausível, razoável nem justo com Raimundo e com outros dizer que era um jornal do PCdoB, um jornal de partido. O jornal foi tão amplo, tão aberto, que todos nós, que não éramos ligados ao PCdoB, e muitas pessoas, o grupo Centelha, aqui em Minas Gerais, através do Aloisio Marques e de mim próprio, na época era ligado ao grupo, pudemos participar.10 Mares Guia ressalta a importância de Movimento como estuário da reorganização das forças políticas de oposição: O pessoal do PCdoB, esse grupo todo da Centelha e muitas outras pessoas, acadêmicos, alguns professores universitários, que eram colaboradores do jornal. E o jornal passou a ter uma atividade política, de agregar todos os presos políticos que saíam da cadeia, militantes que estavam sem perspectiva, não tinham mais nenhum grupo de referência, de alguma maneira se agregaram; pessoas que tinham parado de atuar em 1968, com a ditadura, a fase dos anos de chumbo, voltaram a ter algum tipo de participação, mesmo que fosse na vendagem de cota, ou nos eventos que o jornal organizava. E passamos a ser muito convidados para dar conferências no interior. Eu virei um conferencista sobre a Assembleia Nacional Constituinte. Aloisio lembra que na sucursal nem todos pensavam do mesmo modo.

Aqueles que eram ligados ao PCdoB polemizavam, mas o seu grupo era muito forte, organizado e o debate era intenso: Era muita gente e muito combativa, decidida. Nosso pessoal era de corte trotskista e muito jovem, o que por vezes levava a excessos. Eu, que era um pouco mais velho, até passei a usar uma expressão, dizia que tínhamos “uma sanha crítica”(...) Era pegar tudo, ponto por ponto, uma vírgula fora do lugar, uma palavra, uma concordância, qualquer coisa você pegava, a gente tinha muito tempo, muita vontade, muita disposição de participar, isso em excesso atrapalha (...) Nosso trabalho era só fazer as matérias e criticar, enquanto que em São Paulo, Raimundo e a equipe de lá tinham que fazer o jornal, enfrentar a censura, fechar o jornal toda a semana...

O pessoal da sucursal de Belo Horizonte considerava que, diante de sua expressão na vida do jornal, estava sub-representado e se encaminhou para a reunião de abril de 1977 com o projeto de alcançar uma parcela maior de poder.

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Capa da edição 93, 11 de abril de 1977. Xilogravura de Rubem Grilo

 

O “racha” de abril de 1977

Quarenta anos depois de uma batalha é fácil para um não combatente discutir sobre como ela deveria ter sido travada. Outra coisa é pessoalmente e sob fogo cerrado, dirigir a luta enquanto se está envolto na fumaça escura dos disparos. O mesmo se dá em relação a outras situações emergenciais que envolvam considerações tanto práticas quanto morais, e quando é imperativo agir imediatamente.

Herman Melville1

Para Bernardo Kucinski, em entrevista, a polêmica sobre a política de Carter foi o estopim do racha. Na verdade, nas semanas que antecederam a Convenção houve vários “estopins”, como um incidente entre Chico de Oliveira e Sérgio Buarque, o fato de a “oposição” começar a reunir-se à parte na casa de Bernardo Kucinski...

Outra polêmica, ainda mais acesa, e mais importante, agitava as lideranças do jornal. Era a questão da posição sobre a amplitude da frente democrática contra a ditadura.

No início de fevereiro de 1977, havia ocorrido a demissão do ministro da Indústria e Comércio, Severo Gomes. Este vinha havia tempos fazendo uma pregação de cunho marcadamente nacionalista e pelo restabelecimento das franquias democráticas como meio de retirar o País da crise e buscar um outro padrão de desenvolvimento. Isolado a maior parte do tempo, começara a agregar apoios velados a partir de meados de 1976, particularmente junto a médios empresários e em certos bolsões militares e, mais recentemente, entre o grande empresariado.

Ensaios Populares, da edição 86, de 21 de fevereiro de 1977, trazia o texto intitulado: “O acordo e o desacordo dentro da oposição”. Referia-se à queda de Severo Gomes, sinal de agravamento das divergências dentro do regime, que havia sido matéria de destaque na edição anterior.2 Segundo

o Ensaio, da polêmica nos meios empresariais após a queda do ministro, podem ser extraídas três conclusões mais importantes: a primeira é de que não existe unidade entre os grandes empresários e fazendeiros na maneira de analisar a situação atual; se alguns insistem nos métodos atuais de controle, ainda mais no atual período de dificuldades econômicas, outros acreditam que a própria crise econômica torna aconselhável a passagem aos métodos liberais. (...) Esses setores empresariais e de grandes proprietários de terra não pretendem mudar, no essencial, a estratégia econômica que vem sendo aplicada desde 1964; entendem, contudo, que essa estratégia não pode ser preservada, nas novas condições, sem reajustes no terreno político e social.

A segunda conclusão, por conseguinte, é que uma parcela dos grandes empresários e fazendeiros pode apoiar o objetivo básico do programa oposicionista, que é a luta pela reconstitucionalização democrática do país. Confirma-se dessa maneira que o leque oposicionista é amplo: começa com as correntes populares que representam operários urbanos e rurais, lavradores pobres e médios, camadas médias das cidades, passa pelas correntes nacionalistas, que expressam as aspirações de pequenos e médios empresários urbanos e de lavradores mais ricos, e chega até às correntes liberais, representativas dos setores dos grandes empresários e dos grandes proprietários de terra.

A terceira conclusão é fácil de deduzir: numa frente tão larga, as contradições são evidentes. Bastaria considerar que os grandes empresários sugerem reformular o modelo político justamente para preservar o modelo de desenvolvimento capitalista dependente e combinado com o monopólio da propriedade da terra; ao passo que a oposição popular busca alterar o modelo político para alterar o modelo econômico. (...) Para além desse objetivo comum, as correntes oposicionistas divergem (...) Essas divergências, contudo, não impossibilitam, no momento atual, um pacto democrático entre as várias correntes da oposição...

 

OS DISSIDENTES PUBLICAM SEUS ARTIGOS

Na edição anterior, nº 85, Bernardo Kucinski analisara a demissão de Severo Gomes avaliando que o ministro “estava isolado do empresariado, que não aderiu a suas ideias no geral”. Na edição nº 86, o economista Guido Mantega3 recomendava “... não cair em conclusões equivocadas, a exemplo de analistas apressados e de memória curta que julgam assistir à adesão do empresariado brasileiro à democracia liberal”. Mantega admitia, entretanto, que havia divergências, localizava o problema na luta do grande empresariado por controle da política econômica do governo, porque “as estatais estavam ampliando demais, penetrando em setores tradicionalmente ocupados pela iniciativa privada”. Na edição nº 87, de 28 de fevereiro de 1977, Maria Moraes contestava a avaliação feita por Paul Singer, no jornal Opinião, que falava numa “adesão dos empresários a uma reivindicação já levantada por outros setores sociais”, isto é, a favor da democratização. Mas reconhecia que “seria falso afirmar que a classe empresarial como um todo tem ojeriza à democracia representativa”... E, nas edições seguintes, Guido Mantega voltaria a escrever sobre o tema, assim como o jornalista Jair Borin. Sinal de que nas páginas do jornal havia espaço para a manifestação de pontos de vista divergentes.

A equipe da sucursal de Belo Horizonte, liderada por Betinho, Fausto Brito, João Batista dos Mares Guia, Flaminio Fantini, Flávio Andrade e Aloisio Marques, manifestou-se coletivamente e mais claramente. Mas sem ir a público. Numa carta ao editor-chefe criticou fortemente o conteúdo político do texto da seção Ensaios Populares.

Resposta de Raimundo em 4 de março de 1977, três dias depois:

Vocês não admitem que grandes empresários possam ter divergências essenciais com o sistema. Disseram: “foi considerado mesmo um absurdo a colocação na oposição brasileira de grandes empresários e latifundiários, os quais podem ter divergências secundárias com o sistema, mas no essencial concordam com ele, o colocaram aí e apoiam e defendem”.

O primeiro e grave erro que os companheiros cometem é de me atribuir uma afirmação que não fiz; aliás, é o de afirmar exatamente o oposto do que eu disse para depois afirmar que eu estou errado. No Ensaio se diz que os grandes empresários sugerem reformular o modelo político justamente para preservar o modelo de desenvolvimento capitalista dependente e combinado com o monopólio da propriedade da terra; ou seja, a “parcela dos grandes empresários e fazendeiros (que) pode apoiar (...) a luta pela reconstitucionalização democrática do país está perfeitamente de acordo com o modelo de desenvolvimento capitalista dependente vigente no país, ou seja, com o sistema”. Ou seja, eu digo que a parcela dos grandes empresários e fazendeiros que pode apoiar o programa oposicionista está de acordo com o modelo capitalista dependente e combinado com o monopólio da propriedade da terra, e vocês me criticam dizendo que eu digo que não está.

Qual a origem do erro? É que vocês confundem o regime político brasileiro com o sistema capitalista; e pensam que, quando se diz que um setor dos empresários está em desacordo quanto ao regime político, se quer dizer que ele está também em desacordo com o sistema. Ora, a matéria diz expressamente que esses setores querem mudar o regime exatamente para preservar o sistema...

 

A REUNIÃO: O RELATÓRIO DE RAIMUNDO

A “oposição” paulista passara a se reunir na casa de Bernardo Kucinski, onde formulou em 25 de abril um manifesto propondo a redefinição do programa do jornal, a elaboração de estatutos, o controle editorial dos Ensaios Populares etc. Em seguida, essas reuniões seriam ampliadas com a participação das delegações de Belo Horizonte e Salvador. Ao ir para a Convenção já levavam pronta a proposta que iria ser apresentada e derrotada na votação.

No dia 29 de abril, o Conselho Editorial e o Conselho de Redação se reuniram conjuntamente para um balanço das atividades do jornal, a escolha do editor geral e a definição da linha editorial a ser seguida. No dia 30, a Assembleia Geral dos Acionistas de Edição S/A, a empresa que fazia Movimento, reuniu-se na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo para eleger seus três diretores.

O relatório sobre as reuniões relata: foram as eleições mais debatidas e preparadas de toda a história da equipe de Movimento: através de reuniões preliminares em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Brasília e Campinas, as atividades do jornal e da empresa foram discutidas demoradamente por mais de 500 pessoas, envolvendo portanto grande parte de seus 400 acionistas e cerca de 300 colaboradores, redatores, pesquisadores, vendedores e outros funcionários.

Na reunião, Raimundo Pereira apresentou seu informe ao plenário.5 Um documento de dez laudas em que afirmava que, ao completar seu terceiro ano, o projeto de Movimento havia alcançado grandes realizações. Apresentava cinco causas para o jornal ter sobrevivido e crescido: a primeira delas era que o jornal manteve “intocada” sua linha geral de oposição. “É um jornal político de oposição que não descaracterizou sua linha oposicionista geral correta e decidida”.

Como lembra hoje João Batista dos Mares Guia, essa era a questão central de nossas divergências, porque Raimundo insistia em ter uma linha programática hegemônica no jornal e nós da sucursal de Belo Horizonte recusávamos uma linha (ou essa linha) hegemônica. Queríamos que as linhas das várias tendências, como a nossa, presentes no jornal, tivessem seu espaço. Não que não houvesse democracia, havia democracia, tudo era discutido...

Prosseguia o informe:

Segunda: Edição S/A cresceu porque tem um programa de luta e de trabalho, de defesa de posições comuns e não um programa de discussões; cresceu porque tem clareza sobre algumas poucas ideias que são muito justas e porque luta por elas e não porque tem dúvidas sobre muitas questões e procura debatê-las; cresceu porque debate para eliminar confusões e obter novas ideias justas pelas quais lutar e não porque lança dúvidas sobre todas as tarefas práticas que tem pela frente.

E aprofundava a crítica:

Sempre estamos ameaçados pelo sectarismo dos que, sem ter informação, querem ter posição e opinião a respeito de tudo e se recusam a qualquer debate, estudo e pesquisa; mas estamos ameaçados também pelos ecléticos, que querem pairar acima de tudo, que adoram debater e detestam realizar as tarefas práticas da luta. Edição cresceu (...) porque esteve, como manda seu programa, “ao lado dos cidadãos brasileiros na luta por liberdades democráticas, contra a exploração do país por interesses estrangeiros, pela melhoria da qualidade de vida da população” (...) Parodiando um lema famoso: a oposição nos aceitou porque chegamos para esclarecer e não para confundir.

 

A REAFIRMAÇÃO DO PROGRAMA

Terceira causa. Aqui, Raimundo passava a repetir, detalhando, os conceitos emitidos no Ensaio Popular da edição nº 86 de Movimento sobre a frente democrática e sua amplitude, que já havia provocado o protesto da sucursal de Belo Horizonte. Tratava-se de um detalhado programa político:

Edição S/A sempre esteve concretamente ao lado dos interesses das amplas classes e camadas trabalhadoras do país e ao lado do senador Paulo Brossard nas suas bravas lutas por uma justiça democrática e contra as violações dos direitos humanos; ao lado da grande e crescente imprensa popular do país na luta por liberdade de imprensa e ao lado de O Estado de S. Paulo (na carta a Raimundo, um ano antes, Kucinski havia se oposto explicitamente à aliança com O Estado de S. Paulo), mesmo na convenção da Sociedade Interamericana de Imprensa por liberdade de imprensa que reuniu em São Paulo, como de hábito, alguns dos maiores representantes da imprensa oligárquica do continente; ao lado dos que tentaram denunciar todas as maquinações e casuísmos de leis eleitorais e ao lado do ex-Ministro Aliomar Baleeiro quando ele excelentemente definiu os pré-requisitos para uma verdadeira reconstitucionalização democrática: a anistia ampla, o fim dos atos de exceção, amplas liberdades de propaganda, reunião e organização e a convocação de uma Assembleia Constituinte; ao lado da classe operária do campo e da cidade na sua luta por maiores salários e maior participação nas decisões políticas, culturais e econômicas e ao lado do trabalhador camponês que quer um pedaço de terra mesmo que este venha a sonhar em ser um pequeno empresário capitalista, ao lado do pequeno e médio empresário e dos empresários nacionais independentes que desejam maior participação nas decisões mesmo que estes sonhem apenas com um modelo de desenvolvimento capitalista independente e este seja irrealizável ou inconsequente (Neste ponto em particular, o informe se opunha à maioria dos participantes da sucursal de Minas Gerais, como vimos). Quarta causa: Edição S/A se manteve e se fortaleceu porque é uma empresa cujas publicações procuram ligar-se às amplas oposições do país, mas apoiam-se mais decididamente e procuram voltar-se cada vez mais para as classes e camadas populares e as correntes e personalidades políticas que as representam. O informe defendia a busca da popularização dessas publicações. E mais adiante afirmava: precisamos ligar de forma cada vez mais ampla e profunda as nossas publicações com as classes e camadas populares, para fugir do círculo de giz do jornal de jornalistas, estudantes e intelectuais “progressistas” feito em função dos interesses paroquiais dos jornalistas, estudantes e intelectuais progressistas, que é como o trabalho daqueles que procuram “se erguer do chão puxando seus próprios cabelos”. Parece ser uma alusão à posição do “jornalismo pelo jornalismo”, esquecendo os objetivos políticos, tema também debatido na carta de Kucinski. Quinta causa: “Edição S/A cresceu porque tem democracia interna, mas ao mesmo tempo tem organização e disciplina...” E se estendeu sobre os métodos de debate e as relações entre editores, redatores, colaboradores, sucursais, etc. No capítulo das “nossas tarefas”, o informe avaliava que a despeito da convicção de que internamente estamos mais fortes e organizados e de que externamente crescem os movimentos pela independência e pelos direitos democráticos dos povos, nossas tarefas principais ainda, tanto a nível interno como externo, consistem em levantar o máximo possível de bandeiras bem gerais que interessem ao máximo possível de pessoas e portanto evitem o isolamento e o esmagamento dos setores mais progressistas. E discutia as diferentes concepções da sociedade existentes em setores da equipe: Alguns procedem como se, no plano nacional, as massas estivessem muito mais adiantadas que o jornal e que questões como pedaço de terra, um salário maior, o fim de uma humilhação econômica e liberdades burguesas formais não tivessem mais praticamente qualquer sentido; como se, no plano internacional, o imperialismo tivesse se desagregado completamente, mudado de caráter, passado a apoiar a causa dos direitos democráticos dos povos e a repudiar o apoio aos regimes militaristas e fascistas e desistido das guerras de agressão e que, portanto, bandeiras como a independência nacional (...) perderam o sentido (...) A hipótese de que o imperialismo vai desistir por razões morais é ingênua e perigosa...

Essa crítica tinha endereço certo, a polêmica que o editor-chefe acabara de travar com Bernardo Kucinski sobre a política de direitos humanos do governo dos EUA. A reunião prosseguiu por 12 horas, virou a noite em ásperos debates.

Duas propostas foram, afinal, postas em votação. A proposta da diretoria dispunha criar um amplo programa de debates e consultas para “esclarecer pontos de vista divergentes da atual diretoria”; a instituição de uma Sociedade de Colaboradores, que receberia as ações do Conselho de Redação, para ampliar o número de proprietários e dos que podiam participar da democracia interna; a criação de uma série de comissões para comandar esse processo. Dispunha que a seção Ensaios Populares passasse a ser assinada pelo editor do jornal e que haveria editoriais não assinados, planejados coletivamente por seus editores e uma Comissão de Editoriais. Ratificava a política de prosseguimento da experiência de popularização dos textos do jornal.

 

A PROPOSTA DA OPOSIÇÃO

Os que divergiam apresentaram a “Proposta Movimento”, a qual reproduzia em detalhes o documento apresentado um pouco antes por Flávio Aguiar, e cuja introdução dizia:

Movimento se propôs a ser expressão de uma frente jornalística de oposição democrática e popular, unida em torno de objetivos comuns. No entanto, no decorrer da experiência, o jornal assumiu uma interpretação particular desses objetivos, definida de modo unilateral. Tal fato se constata pelo amplo questionamento da nossa linha editorial, expressa principalmente nos Ensaios Populares. Esta unilateralidade, evidentemente, ameaça a nossa unidade e o desenvolvimento do jornal. É necessário corrigir esse rumo. (...) A reparação da atual unilateralidade da linha editorial de Movimento começa pela discussão de seu processo de gestação. Isso aponta para a análise dos atuais métodos de trabalho, para a questão da democracia interna...”

Propunha “o desenvolvimento da democracia interna, partindo do princípio do número zero, de que o jornal deve ser conduzido por aqueles que o fazem (...) o desenvolvimento do nosso programa mínimo (...) ele deve delimitar explicitamente os termos da nossa unidade.” Propunha igualmente “um amplo movimento interno de discussão e debate”. (...) “Durante o período de 90 dias... a seção Ensaios Populares fica aberta à participação de todos os membros do jornal, e fica definida como única seção editorial do jornal, segundo as seguintes normas: a) à retranca Ensaios Populares acrescenta-se a palavra Editorial; b) todos os ensaios são assinados; c) todos são previamente aprovados à luz do programa mínimo de 6 pontos, por um grupo de acompanhamento...” Nesse mesmo período, “o jornal se declara em regime de intenso debate interno com o objetivo de obter consenso (...) sobre o caráter do jornal e seus objetivos: (...) o desenvolvimento de um programa mínimo do jornal; um estatuto que formalize a democracia interna do jornal...”. O documento se estendia em seguida sobre a criação de comissões e procedimentos para a realização das tarefas propostas.

Ao final da reunião, o Conselho de Redação e mais um membro do Conselho Editorial aprovaram a proposta da diretoria, por 9 votos contra 5 e uma abstenção. No dia 30, a assembleia geral referendou a votação. De acordo com o jornalista Armando Sartori, que à época era secretário gráfico do jornal, a reunião terminou já de madrugada.

Havia cerca de 50 pessoas, a sala da redação estava abarrotada. Sem poder entrar, fiquei com outras pessoas, no corredor em frente à sala. Bernardo Kucinski também estava ali. Quando a votação terminou, Bernardo dizia exaltado a Paulo Barbosa: “Está vendo? Eles conseguiram o que queriam, nos dividir!”

 

RADICALIZAÇÃO

Outros protagonistas viram o mesmo episódio com nuances diferentes. Tanto João Batista dos Mares Guia como Aloisio Marques dizem que, quando foi para a reunião do Conselho em São Paulo, a delegação de Belo Horizonte não tinha em mente participar de um “racha”. Mares Guia conta que encontrou em São Paulo uma situação radicalizada.

Eu notei uma certa impaciência por parte das pessoas muito ligadas ao Raimundo, por exemplo, esse que hoje é um jornalista proeminente na Globo, o Tonico Ferreira. Tonico já era um sujeito mais impaciente, mais aguerrido, mais agressivo. O Luis Marcos Magalhães Gomes, que em geral era muito gentil, foi ficando mais agressivo (...) eu mesmo senti no ar como se houvesse um propósito deliberado de estabelecer uma hegemonia dentro do jornal. Então, as pessoas começaram de alguma maneira a se sentir excluídas e ameaçadas. Então, elas se defendem. Se defendem como? “Vamos conversar entre nós e ver o que está acontecendo.”

Aloisio Marques: Tínhamos a ideia de conquistar mais espaço, de arejar mais

o jornal que era muito centralizado (...) não tínhamos a intenção nem trabalhamos com a ideia de rompimento. Mas ele se deu. Não foi puxado por nós, nós tivemos de participar (...) Eu acho que (foram) basicamente Bernardo Kucinski, pessoa de difícil operação política, e Chico de Oliveira, esse pessoal processa a política de uma maneira muito de ruptura, nós éramos mais mineiros (...) Tenho certeza absoluta de que Bernardo Kucinski e Chico Oliveira precipitaram, forçaram – as reuniões se davam na casa de Bernardo – nós fomos envolvidos, atropelados, a palavra é essa, porque nós não trabalhávamos com a hipótese do rompimento, trabalhávamos com a ideia de abertura, sabíamos da importância da unidade, que era muito difícil construir as coisas (...) mesmo que tivéssemos ideias diferentes achávamos importante o papel de Raimundo e de todas as pessoas que trabalhavam no jornal...”

João Batista dos Mares Guia, sobre o racha:

Eu posso falar por mim. Primeiro, um sentimento de tremenda ambiguidade, no sentido de um sentimento de perda. Uma coisa que você ajudou a construir, e eu dediquei dois anos da minha vida intensamente, com completa lealdade ao jornal Movimento. Intensamente, em todos os sentidos (...) o centro da minha militância era o jornal Movimento. Então, foi um sentido de perda dolorosíssimo. Dolorosíssimo. Por outro lado, um sentimento de alta expectativa com a criatura que nós íamos gerar (refere-se ao novo jornal).

Aloisio Marques: Essa ideia de ruptura foi precipitada, foi atropelada, agora, o atropelamento ocorreu, você não tem como decidir. Aí nós decidimos criar o jornal Em Tempo, transferir parte dessas pessoas para São Paulo para poder dirigir, e já tínhamos uma conexão mais estreita com o Rio Grande do Sul, com o pessoal do Raul Pont (...) depois, fizemos também uma conexão com a Bahia (...) nesse processo Flávio Andrade teve um papel muito importante...”

Na reunião ocorrida na casa de Kucinski, em 1º de maio, foi formulada a carta de demissão coletiva. Mares Guia: “E aí vem a história, talvez isso tenha ensejado a oportunidade de nós percebermos que havia entre nós um elo de articulação que nos diferenciava. E era o quê? Exatamente essa ênfase mais proletária, movimento operário.”

Devido às afinidades políticas, a partir de então, já começavam a se sentir como um grupo com objetivos definidos. Nessa mesma reunião, decidiram iniciar o projeto de um novo jornal, o Em Tempo.

Ainda de acordo com Mares Guia:

o Flávio Andrade é um sujeito de família muito rica( N.E. da família Andrade, sócia da empreiteira Andrade e Gutierrez) e dava o lastro, o suporte para o jornal Em Tempo. Ele tinha gráfica, então, por esse lado, o jornal Em Tempo era viável. (...)

Mas enfim, tinha uma razão de fundo que, naquele momento ou mais tarde, justificaria uma separação. Porque aí as linhas editoriais, embora se encontrassem no denominador comum da Constituinte e das liberdades democráticas, elas se diferenciavam no sentido de que o Movimento era percebido por nós como estando num alinhamento automático com o MDB Autêntico, enquanto que nós tínhamos uma inclinação para fortalecer o movimento operário, divulgar o movimento operário.

Pode-se inferir dessas declarações que a questão da formação dos novos partidos já estava subjacente ao debate que levou ao “racha”, esta foi também a opinião de Bernardo Kucinski na entrevista dada para este livro. Aloisio Marques, por seu lado, lembra que, já no tempo em que estavam em Movimento, representantes da Centelha se reuniam na casa de Almino Afonso, com a presença de Fernando Henrique Cardoso, para discutir a formação de um novo partido (ora falavam em Partido Popular, ora em Partido Socialista), um partido amplo, que seria mais à esquerda que o MDB: “Depois quando veio o PT, nós fomos para um lado, eles foram para um outro...”

 

A OPOSIÇÃO DEIXA O JORNAL

Em 1º de maio, os representantes da proposta derrotada emitiram um comunicado, assinado por 38 membros da equipe, sendo 22 de São Paulo, nove de Belo Horizonte e sete de Salvador, anunciando que se retiravam do jornal. Os motivos:

1.         Durante um tempo prolongado, a direção do jornal afirmou uma linha editorial que não satisfazia o consenso mínimo do conjunto de pessoas que nela trabalhavam. Essa posição editorial manifestou-se básica e explicitamente nos “Ensaios Populares”, seção considerada como editorial de Movimento.

2.         Em razão dos métodos de trabalho (de participação e decisão) vigorantes no jornal, definidos por uma estrutura burocrática que mantinha fechado o poder de decisão, embora aparentasse abri-lo em discussões amplas, qualquer consenso estava longe de ser alcançado. E a direção do jornal objetivamente não se interessou em promover o consenso através de métodos democráticos.

No item 3, o texto se referia ao resultado da votação que aprovou uma proposta da direção que, no fundamental, legitima a atual linha editorial e confirma também o poder dessa estrutura burocrática que levaram à quebra do consenso acima apontado. A partir daí, continuar no jornal implicaria em ser conivente com tal perspectiva.

Assinaram o documento Bernardo Kucinski, Flávio Aguiar, Jean-Claude Bernardet, Francisco de Oliveira, todos membros do Conselho de Redação; Maria Rita Khel, Silvia Campolin, Laís Tapajós, editoras. E colaboradores como Guido Mantega, Maria Moraes, Ricardo Maranhão, José Miguel Wisnik e outros, num total de 22 de São Paulo; nove de Belo Horizonte, entre eles Betinho Duarte, também do Conselho de Redação e diretor da sucursal, Fernando Miranda, Fausto Brito, Flávio Andrade, Flaminio Fantini. E sete de Salvador, como Adelmo de Oliveira, Tibério Canuto, Emiliano José, Oldack Miranda. Trinta e oito pessoas no total deixaram o jornal. Esse documento foi publicado no O Pasquim e em outros jornais. A censura não permitiu que Movimento o publicasse de imediato.

Em resposta, os defensores da proposta vencedora (136 signatários mais 36 que assinaram depois), entre eles a grande maioria de jornalistas que “tocavam” a rotina do jornal, divulgaram nota, pedindo que os que haviam saído reconsiderassem sua decisão e continuassem a debater. Diziam que o motivo alegado – não estarem de acordo com a linha editorial do jornal expressa através de sua seção “Ensaios Populares” – não era suficiente.

Quais são as divergências que os companheiros têm em relação a eles? Alguns tinham de fato manifestado discordância em relação à maneira pela qual os Ensaios tratam as correntes de oposição liberais; outros haviam criticado a insistência desses textos na defesa da independência nacional; outros ainda tinham objeções às tentativas específicas que o jornal utilizou para aproximar-se dos setores mais populares. Mas sempre foram críticas ouvidas isoladamente; não se aprofundaram nas discussões que precederam o dia 29; mais ainda, nunca foram apresentadas como razões centrais das divergências...11

Em Tempo começou a ir às bancas a partir de janeiro de 1978. Este, sim, iria ser o jornal dos jornalistas, é o que se dizia, mas logo passou a ser porta-voz de tendências trotskistas, o que motivou a saída de parte de seus participantes iniciais, como Francisco de Oliveira e Ricardo Maranhão. Estes tentaram criar outro jornal, Amanhã, que não foi avante.

 

SERGIO MOTTA E O “RACHA”

Embora procurasse limitar sua participação ao setor financeiro de Movimento, Sergio Motta estava a par dos acontecimentos e percebia o agravamento das tensões entre a equipe. Ele se empenhou para evitar que o “racha” se concretizasse. Porém, pouco antes da Convenção de 29 de abril de 1977, Motta viu-se envolvido em uma intriga que contribuiria para acirrar os ânimos. Depois de um debate sobre a questão agrária, tema que dividia a esquerda naquele momento, o sociólogo Chico de Oliveira, um dos membros do Conselho Editorial que estava na oposição, comentou com ele: “Isso é um belo programa para um partido político”.13 A conversa não parou por aí, como relembra Chico:

Quem foi saber disso depois? Raimundo Pereira, que me interrogou diretamente sobre isso na reunião seguinte do Conselho de Redação. E acionou o Sérgio Buarque Gusmão, que estava nas minhas costas, porque a versão que chegou a ele foi dada pelo Sérgio Buarque de Gusmão, com quem, provavelmente, Sergio Motta se reuniu. Raimundo Pereira disse: “Agora, proponho uma acareação entre você, Chico, e o Sérgio Buarque”, o Sergio nas minhas costas. Eu disse a ele: “Olha, Raimundo, no dia em que eu quiser ir ao Dops, eu vou por minhas próprias pernas”.

Motta se referirá a esse episódio em um texto ditado a Francisco Marsiglia, por telefone, para que fosse lido por este na Assembleia Geral dos Acionistas, realizada no dia seguinte (30 de abril).14 Marsiglia reconhece sua letra nesse manuscrito, mas não se recorda se realmente o leu, uma vez que, além de tumultuada, a reunião começou no dia 29 de abril e terminou na madrugada do dia 30.15 Trata-se de uma raríssima oportunidade em que Sergio Motta manifesta suas convicções políticas, em geral, e a única em que se posicionou publicamente por escrito sobre o jornal Movimento.

A seguir, alguns trechos: Acho que os Ensaios Populares representam um avanço da oposição brasileira, sendo o que mais fortaleceu e caracterizou

a.            o jornal, por ter levantado teses que contribuíram para ampliar o debate junto a amplas camadas da população na busca de posições mais justas; acredito que os Ensaios Populares, em alguns instantes, talvez tenham avançado além do permitido pelo consenso da frente que apoia o jornal hoje, sendo que esse avanço, entretanto, pode ser canalizado positivamente através do debate interno na frente das posições levantadas.

Algumas das teses divergentes sobre o processo de condução da luta política no país, acredito que devam ser debatidas intensamente sem, no entanto, servirem para romper a unidade na fase do processo já que as divergências de tais teses não me parecem essenciais na fase atual da condução da frente de oposição ao regime, devendo ser explicitadas numa etapa futura. (...) O esclarecimento de questões tais como a agrária, a nacional, política externa devem ser objeto de debates, e levadas até o nível que o programa do jornal já as define, ou seja:

a) a luta pela independência nacional é essencial em função da contradição básica entre o imperialismo internacional e os interesses nacionais

b) a questão agrária torna-se fundamental como qualquer outra luta a favor dos oprimidos brasileiros por ser a conquista da terra uma bandeira de luta das mais amplas camadas do povo brasileiro submetido à exploração no campo

c) a questão internacional deve ser compreendida no âmbito da busca de uma posição de defesa dos interesses nacionais, fugindo às áreas de influência dos imperialismos norte-americano e soviético.

(...) Assim em relação à situação atual do jornal acredito que devemos buscar a unidade para a consecução dos objetivos programáticos, entendendo que qualquer solução que leva para a Assembleia Geral o conflito de facções na busca do poder, como a apresentação de chapas antagônicas, seria nesse instante uma solução a serviço da ditadura, o enfraquecimento da unidade e o início de uma fase interminável de luta interna que não seria suportada por uma estrutura frágil igual a do jornal, idêntica à oposição brasileira no geral, levando ao esfacelamento. Em função do colocado, a solução correta me parece a eleição de uma diretoria de unidade para Edição que garanta para o próximo ano o término do estatuto de funcionamento que venha a superar as dificuldades do debate interno e o término da discussão das questões políticas inseridas ou não nos Ensaios Populares e que conduzam a um salto qualitativo do jornal.

Sobre o incidente com Chico de Oliveira, Sergio Motta, embora o considerasse “secundário”, lamentava-o e avaliava que ele deveria ser resolvido em clima de “lealdade revolucionária”. Para Motta, “o clima policialesco sugerido pelo surgimento de tal problema pode nos levar a eliminação de qualquer liberdade individual de expressão e manifestação, contribuindo para a manutenção das trevas da realidade brasileira atual”. E concluía: “em relação à necessidade de acareação lamento ter isso sido proposto no território democrático do jornal já que tais mecanismos são utilizados em outras repartições e tendo enfrentado-os nas mesmas não esperava me defrontar com o mesmo procedimento no jornal”.

 

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Capa da edição especial “Ensaios Populares”, abril de 1977

 

A luta continua

O racha” de Movimento ocorreu num momento crucial. Em abril de 1977, a ditadura recrudescia. Com o “pacote” de abril, o general Geisel pretendia conter a vaga crescente da oposição e apaziguar as divergências internas no regime. De imediato, o jornal podia esperar mais censura e dificuldades para sua sobrevivência. Em razão disso e como consequência do “racha”, o jornal fez um esforço duplo, para tomar posição diante da crise em que o País estava mergulhado, e para se reorganizar e democratizar as relações internas. Na própria reunião da ruptura, sob o efeito da demissão de parte dos colaboradores, o Conselho de Redação decidiu:  adiar a eleição definitiva de uma nova diretoria por seis meses para que pudesse haver um amplo debate interno (e isso quando todos, mesmo os defensores da proposta perdedora estavam de acordo em que os atuais diretores deviam ser mantidos em seus cargos); criar uma comissão ampla para aprovar os editoriais do jornal; eliminar o caráter editorial dos Ensaios Populares, transformando-os em uma seção assinada pelo editor; criar duas comissões com poderes legislativos, só subordinada aos Conselhos, para deflagrar um amplo debate para aprovação e renovação de seus estatutos e programa; tornar a indicação dos editores da seção e chefes de departamento do jornal sujeita à aprovação do Conselho; formar uma diretoria de unidade para trabalhar por consenso.

O semestre seguinte seria consumido entre a promoção dos debates para reformular o jornal internamente, conforme essa determinação do Conselho, enquanto se lutava para preservá-lo, pois continuava sob censura prévia e sujeito a apreensões. Um desafio e tanto, reconhecido diversas vezes por Raimundo Pereira, como transparece em um balanço apresentado por ele um ano depois, em uma reunião de abril de 1978, transcrita em ata:

Raimundo, como já disse em várias ocasiões, atribui à crise interna que tivemos em abril passado um peso muito grande nas quedas de vendas (bancas e assinaturas) de Movimento; houve uma clara dispersão de forças na imprensa independente e democrática, com aumento do isolamento político do jornal”

 

RENOVANDO O COMPROMISSO

A primeira ata de reunião do Conselho que consta nos arquivos, datada de 29 de junho de 1977, mostrava a preocupação de reforçar os laços e aumentar o espaço dos que ficaram: além de cinco conselheiros, participaram da reunião com direito a voz e voto o chefe do Departamento de Vendas, e mais seis representantes, ou chefes de sucursais, de outras cidades: Salvador, Rio, Goiânia, Londrina, Campinas e Belo Horizonte.

Ainda assim, a reunião foi considerada “pequena demais para decidir” sobre o primeiro item da pauta: “discussão de critério básico de participação dos funcionários de Edição S/A na direção da empresa”. Optou-se por levar às bases as três propostas existentes para colocar em prática o princípio que deveria orientar a decisão: “a cada um de acordo com o seu trabalho”.3 Basicamente, as propostas se diferenciavam pelo peso menor ou maior dado aos votos de colaboradores e funcionários na escolha dos delegados que os representariam na eleição – por voto secreto – do novo Conselho de Direção.

A partir dessa reunião, a Sociedade de Colaboradores, Redatores e Funcionários de Movimento começou a tomar forma. Na edição de número 121, de 24 de outubro de 1977, o jornal publicou um documento, dirigido “aos colaboradores e amigos”, chamando à participação:

Movimento e Edição S/A farão nos próximos dias 28 e 29 eleições gerais para renovar a sua diretoria e o seu Conselho de Direção, que substituiu o Conselho de Redação a partir dessas eleições. Podem participar desse processo todos aqueles que de alguma forma contribuíram para construir esse jornal e esta empresa. Para isso estamos formando uma sociedade de amigos e colaboradores de Movimento e de Edição S/A que será o grande colégio eleitoral desse processo. As editorias do jornal e os departamentos da empresa já estão há cerca de um mês conversando com colaboradores e organizando a sociedade. Toda e qualquer pessoa que julgue que contribuiu efetivamente para a construção de Movimento e Edição S/A e que não tenha sido até agora consultada deve procurar a sede do jornal em São Paulo ou suas sucursais em outros Estados para se informar sobre o assunto.

Ao lado desse documento foi publicado um comunicado “aos leitores de Movimento” explicando a necessidade de aumentar o preço do jornal, e uma convocação para a Assembleia Geral Ordinária dos Acionistas a se realizar no dia 29 de outubro de 1977, no auditório do Sindicato dos Jornalistas. Além da eleição da nova diretoria, estava na pauta a aprovação de um aumento de capital para 2 milhões de cruzeiros, o equivalente a R$ 1,57 milhão. O jornal estava precisando de gás para seguir em frente.

 

A AMPLIAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO

As atas das reuniões de outubro de 1977 foram publicadas com destaque na edição 123, de 7 de novembro. Sob o título “As eleições em Movimento”, o texto destacava o avanço democrático do jornal: “Nos dias 28 e 29 passados cerca de 500 pessoas, membros do jornal Movimento e Edição S/A elegeram sua direção por voto secreto”. E fazia um balanço da situação do jornal desde o “racha” à reestruturação interna consagrada nessa reunião. Transcrevendo o original, publicado no jornal:

As eleições de abril haviam sido adiadas para outubro para que fosse possível (...) debater mais aprofundadamente algumas divergências internas manifestadas na época, principalmente com relação à estrutura de decisão e de organização do jornal e da empresa.

(...) A saída precipitada de 38 companheiros após abril (de 1977) foi desestimulante para cumprir a longa pauta de debates exposta acima, porque entre eles estavam aqueles que em abril mais manifestaram discordâncias em relação à forma como o jornal vinha tratando todos aqueles relevantes temas.

Mesmo assim, nesse período, Edição S/A através das páginas de suas publicações, de seminários e comissões, pode desenvolver um debate amplo e profundo sobre a democracia e a campanha por uma Assembleia Nacional Constituinte e sobre a popularização da imprensa democrática. Por viver sob dificuldades bastante conhecidas de seu público e por escassez de tempo não pode aprofundar os outros temas propostos.

Mas, o resultado mais completo desses seis meses de debates foi a criação de uma nova estrutura de decisão e de organização para a empresa e para o jornal, através da fundação da Sociedade de Colaboradores, que congregava os membros de Edição S/A, e da eleição de um Conselho de Direção que substituirá o antigo Conselho de Redação.

E prosseguia o documento: (...) o Conselho de Direção da Edição S/A será renovado a cada doze meses, pelo menos, através do voto secreto e direto dos delegados da convenção da sociedade de colaboradores ao contrário do antigo Conselho de Redação de Movimento, que não tinha uma estrutura de renovação ampla e determinada.

A criação da Sociedade de Colaboradores, por sua vez, concretiza uma antiga aspiração dos membros do jornal, pois definitivamente coloca a propriedade do jornal nas mãos de quem o faz. A sociedade com cerca de 500 membros é proprietária de 51% das ações de Edição S/A e será renovada a cada doze meses. Sua criação tornou muito mais presente e muito mais ampla a participação dos membros do jornal na definição de seu rumo político. Exemplo disso foi a escolha dos delegados da convenção da sociedade ao longo do mês de outubro passado: todos os membros do jornal, dos contínuos aos editores, discutiram as diretrizes mais gerais para o trabalho do jornal e elegeram, em quase todas as seções por voto direto e secreto, seus delegados, num processo onde não havia nenhuma restrição para votar e ser votado a não ser a de pertencer ao jornal. Um organograma publicado junto com esse documento detalhava a “estrutura de decisão de Edição S/A” e uma retranca separada, publicada nessa mesma edição de 7 de novembro de 1977, explicava o funcionamento do Conselho de Direção: Trinta e cinco nomes, entre jornalistas, intelectuais, membros da administração, de vendas e acionistas, integram o novo órgão de decisão de Edição S/A. O Conselho de Direção de Edição S/A eleito no último dia 28 substitui o antigo Conselho de Redação de Movimento. A mudança de nome reflete a mudança ocorrida nos dois últimos anos nas funções do Conselho de Redação de Movimento que deixou de decidir somente sobre a política geral do jornal para decidir também sobre a política geral de toda empresa editora e de todas suas publicações. O Conselho de Direção recebe agora todos os poderes que o antigo Conselho de Redação vinha acumulando inclusive o de aprovar ou não a indicação dos editores de seção e chefes de departamento da empresa, conforme aprovou-se nas eleições de abril passado. O novo Conselho de Direção tem uma representação por funções muito melhor do que o antigo Conselho de Redação no qual o setor de vendas e os acionistas não estavam representados. Além disso, as sucursais e os núcleos de apoio, que cresceram muito em várias cidades do país, tinham apenas uma representação em um conselho de 13 pessoas. No atual Conselho de Direção estão diretamente representadas as sucursais do Rio, Brasília, Belo Horizonte e Salvador e os núcleos de apoio em Fortaleza e Goiânia. Dois acionistas integram hoje o Conselho de Direção: Kurt Mirow, empresário bastante conhecido por suas lutas contra o capital estrangeiro e em particular contra o cartel da indústria eletro-eletrônica; e Raimundo Teodoro de Oliveira, engenheiro, professor da UFRJ, integrante do núcleo de acionistas cariocas que tem sempre apoiado o jornal desde sua fundação.

Havia outros novos integrantes no Conselho de Direção, entre representantes dos funcionários do jornal, como Armando Sartori (editor gráfico), Maria Leonor Viana (secretária), Paulo Barbosa (da administração), Murilo

Carvalho (redação) e representantes de sucursais (entre eles Luiz Bernardes, de BH, Márcio Bueno, do Rio, e José Crisóstomo, de Salvador) e do departamento de vendas. Também os colaboradores aumentaram sua participação com a eleição de Clóvis Moura, Eduardo Suplicy e Jair Borin, entre outros. Do Conselho antigo restaram Raimundo Pereira (editor-chefe de Movimento e diretor editorial de Edição S/A), Tonico Ferreira (diretor de Operações de Edição S/A até o último dia 29; agora, editor executivo de Movimento), Flávio de Carvalho (diretor de Operações de Edição S/A e editor de internacional), Sérgio Buarque (agora editor de Cadernos), Marcos Gomes (editor de Nacional) e ainda Teodomiro Braga, Chico Pinto, Elifas Andreato, Fernando Peixoto, Aguinaldo Silva e Maurício Azedo.

DISCUSSÃO ABERTA E COMANDO UNIFICADO” A iniciativa de ampliar a participação de acionistas, funcionários e colaboradores em Movimento pode ser compreendida também como uma forma de restaurar a rede de apoio do jornal. Paralelamente às mudanças internas, esse foi o momento em que a questão da popularização do jornal, que iria se materializar no suplemento Assuntos, tornou-se central nas reuniões do Gruex (Grupo Executivo do Conselho de Direção), uma comissão executiva do Conselho de Direção composta por 6 dos 35 conselheiros eleitos, que dirigiu o jornal de 1978 a julho de 1980.

O documento “Nasce o Gruex”, apresentado na reunião de 10 de novembro de 1977, explicava a criação da comissão:

A ideia surgiu da necessidade de diminuir a defasagem que necessariamente existe entre os objetivos editoriais e administrativos que podem ser definidos em uma grande reunião, como são as do Conselho, com a sua execução prática, que ficava a cargo da diretoria da empresa e dos responsáveis diretos por cada um dos setores de Edição S/A (...)4

A escolha dos membros do Gruex, segundo o documento, obedeceu aos critérios de “praticidade”, todos deviam morar em São Paulo, e de “representatividade dos diversos setores do jornal”.5 Eram eles: Raimundo Pereira, Tonico Ferreira, Marcos Gomes (que acabava de se mudar do Rio para São Paulo, para substituir Sérgio Buarque na editoria de Nacional), Antonio Neto Barbosa, chefe do Departamento de Vendas, Armando Sartori e Maria Leonor Viana.

No que se refere à política editorial, o Gruex devia, por exemplo, “aprovar os editoriais avaliando se estão de acordo com o programa editorial das publicações” e “a escolha de novos editores que será depois referendada ou não pelo Conselho de Direção”; entre as tarefas administrativas constava: “estudar e aprovar alterações de orçamento e de pessoal quando foram sensíveis”, e “escolher os novos chefes de departamento que será depois referendada ou não pelo Conselho de Direção”.6

Como os componentes da comissão representavam setores específicos do jornal, o Gruex acabou conferindo muito poder a seus membros, trazendo novas lideranças, como Barbosinha, para o comando do jornal, ainda que a direção editorial se mantivesse nas mãos de Raimundo. A maior participação dos funcionários e das equipes de vendas teve uma contrapartida que envolveu os salários, cortados mais uma vez durante a crise que se seguiu ao “racha”. As condições de trabalho passaram a fazer parte da pauta de discussões. A exaustão das pessoas submetidas a jornadas infindáveis de trabalho e reuniões era quase palpável, e havia reclamações constantes de que apenas alguns carregavam o jornal nas costas.

 

NAVEGANDO EM ÁGUAS AGITADAS

Deve-se notar que Movimento não era mais o mesmo. Tinha sido esvaziado de diversas pessoas, que representavam, em ultima instância, correntes políticas do movimento democrático, que buscavam outra saída para a crise do País. Não acreditavam, por exemplo, na tese que se tornara quase que uma bandeira central do jornal, da necessidade de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, como forma de democratizar o País. O “racha” de Movimento fora o sinal de que correntes de mudança diversificadas e profundas estavam presentes nas lutas populares. Eram as forças sociais em demanda de afirmação política. A própria dissensão em Movimento fazia parte dos choques entre essas correntes. No jornal, como em outras frentes de luta contra a ditadura, estavam se gestando as propostas que iriam moldar o futuro.

Nos anos seguintes, o semanário iria navegar, tentando manter um rumo nessas águas agitadas em que o regime militar experimentava um recuo organizado, sob a pressão das oposições, que buscavam arrancar de suas mãos a condução do processo. A cada semana era impositivo posicionar-se sobre fatos nacionais e internacionais que se precipitavam em sucessão vertiginosa: a crise econômica, a violência da repressão, a candidatura de um general de oposição à presidência da República, a irrupção das greves operárias que alteraram definitivamente o cenário político; as campanhas pela anistia e assembleia constituinte, a volta dos exilados, a reorganização partidária. No plano internacional, as novas políticas de potência dos Estados Unidos, as divergências no campo socialista, o conflito sino-soviético, a China no Vietnã, a URSS no Afeganistão. Era imperativo tomar posição. Movimento noticiou tudo e tomou posição sobre tudo. Provavelmente, não houve fórum em que mais polêmicas se desencadearam, em que foram travados mais debates, de maneira consciente, sob a máxima de acompanhar os fatos, interpretá-los, não só informar, mas educar, procurar elevar a consciência política, promover a cidadania e a participação em favor da democratização. Porque não bastava conhecer a realidade, mas transformá-la.

Por suas páginas iriam se desenrolar variadas polêmicas: desde aquelas com líderes políticos dos vários setores da oposição, do MDB, do PCdoB, PCB, brizolistas etc., àquelas com as novas lideranças operárias que planejavam formar um partido de trabalhadores, e até as que envolveram opiniões de artistas, a exemplo do cineasta Glauber Rocha, do músico Caetano Veloso, do militante político Fernando Gabeira. Naqueles anos não houve seção de cartas dos leitores mais movimentada que a de Movimento.

É o que se verá nas próximas páginas, em que o jornal se atém a seu programa pela radicalização da democracia em defesa dos interesses populares. Entretanto, no processo de democratização, o polo do movimento popular não se desenvolveu suficientemente, nem muito menos concretizou uma perspectiva revolucionária. Seu núcleo operário, centrado no movimento sindical do ABC paulista, iria atrair tendências de esquerda, constituindo um conglomerado de orientação social-democrata que daria origem à criação do Partido dos Trabalhadores. Posições políticas partidárias específicas ganharam relevo, a frente de oposições se dividiu.

 

BELO HORIZONTE, DE NOVO

Movimento se reorganizou rapidamente, demonstrando que continuava a contar com uma base de sustentação política dinâmica e ainda ampla. As sucursais que haviam tido grande participação daqueles que deixaram o jornal com o “racha” foram logo reorganizadas, com pessoas mais próximas das posições dos que ficaram. Em Belo Horizonte, com a saída de Alberto Duarte, o chefe da sucursal, e de um grande número de intelectuais, vendedores e colaboradores, a sucursal foi recomposta, sob o comando de Luiz Bernardes, que rememora: “A ideia era tentar manter a sucursal aberta, porque como o pessoal saiu em bloco a gente achava que ia desandar”. Segundo ele, não desandou. A reorganização teve início com o apoio de Murilo Albernaz, que se mantivera sempre na sucursal, apesar de marginalizado pelo grupo da Centelha, e de Renato Godinho, ex-militante de Ação Popular. Vieram novos colaboradores: Claudia Sampaio, Itamar Sardinha, Lucile Machado, Marilio Malaguth Mendonça, Elisabete França.

“Nós refizemos a redação com o Aloísio Morais, Vilma Fazitto. E tinha um esquema de vendas violento, pegava o pessoal que fazia trabalho operário, pegava pessoal que fazia movimento estudantil... Era uma vida política muito intensa”, comenta Bernardes.7

 

SALVADOR

Na sucursal de Salvador, onde estavam alguns líderes do “racha”, como Tibério Canuto, as perdas também foram grandes. Mas, como a sala onde ficava a sucursal estava alugada por Adelmo de Oliveira, do grupo de Chico Pinto, que não deixou o jornal, a reorganização de Movimento na cidade foi facilitada. Elementos fortes de apoio, como políticos do MDB e estudantes da tendência Novação, preencheram os postos deixados pela equipe de Canuto. Como em Belo Horizonte, o esforço para reconstruir a sucursal e ampliar o apoio foi concentrado e se deu rapidamente. Três dias depois de uma carta em que o pessoal da Bahia pedia, mediante procuração a Bernardo Kucinski, que seus nomes fossem retirados do expediente (27 de maio de 1977), o jornal já apresentava a nova equipe: Admilson Carvalho, José Crisóstomo de Souza, Jadson Oliveira e Paulo Jackson Vilas Boas – este, futuro deputado estadual pelo PT.

Dentro do Departamento de Vendas do jornal, chefiado por Antonio Neto Barbosa, experiente quadro do partido, no entanto, passou a haver uma forte presença do PCdoB. Ela era um problema? Para muitos, não, conforme indica o comentário a seguir: “Havia uma hegemonia do PCdoB, mas que não impedia uma ampla cooperação. Tínhamos um conjunto vasto e muito diversificado de acionistas e uma preocupação grande em dar um caráter jornalístico ao nosso trabalho acima de tudo”, lembra Crisóstomo de Souza8, novo chefe da sucursal e que montou outra equipe. Formado em Filosofia, Crisóstomo era filiado ao PCdoB e atuava no Centro de Estudos e Ação Social (Ceas), grupo ligado à igreja católica que buscava fomentar e aprofundar discussões teóricas entre militantes e ativistas. “Leia-se, marxismo para ajudar o movimento social”, resume. Além da atuação nas Comunidades Eclesiais de Base, o Ceas editava cadernos com análises econômicas, sociais e conjunturais. “Fiquei conhecido por essa dupla condição de ter uma militância clandestina revolucionária e ao mesmo tempo ser uma personalidade pública democrática”. A ligação com o Ceas contribuiu para isso através da articulação com associações de bairros da periferia que se formavam para a luta pela posse da terra. Movimento também mantinha ligação com associações de profissionais liberais e o movimento estudantil. “Fazíamos o debate com setores médios, economistas desenvolvimentistas, estudantes. A gente fazia uma política muito ampla e boa, a ditadura não tinha como botar a mão em cima”, diz Crisóstomo.

a.                     Tal como nas outras sucursais, o momento de maior agitação era no sábado de manhã. Mal Crisóstomo chegava do aeroporto, uns 15 jovens já estavam apinhados na sala, esperando para enrolar cada exemplar, apertar com elástico e enviar para os assinantes. “Era a nossa celebração, nossa eucaristia”, diz

b.            o filósofo. Mas a espera, claro, não era pelo trabalho em si. “A gente esperava em pleno fervor cívico-revolucionário, e se encantava com a capa, os desenhos do Elifas Andreato, do Grilo...”

No fim de semana acontecia um mutirão pelas praias soteropolitanas. Anos depois, muitos desses vendedores acabaram se tornando figuras políticas de peso, como a futura vereadora Jane Vasconcelos, o futuro secretário estadual do Trabalho Ilton Vasconcelos e Lídice da Mata, militante do PCdoB que foi vereadora em Salvador, deputada federal constituinte e depois, pelo PSDB, prefeita de Salvador e senadora da Bahia pelo PSB, eleita em 2010.

O ex-vendedor Washington Carlos Ferreira Oliveira9, que se tornaria diretor de educação básica da Secretaria de Educação estadual, testemunha:

Me dediquei plenamente às vendas pela motivação de me sentir contribuindo diretamente para a ampliação da frente democrática de esquerda contra a ditadura. Os contatos com as mais diversas lideranças de esquerda, com a finalidade de tentar aglutiná-las em torno de metas jornalísticas e políticas comuns, marcaram para sempre minha formação política.

“Era uma escola de formação”, concorda Crisóstomo.

O chefe da sucursal chegou a ser detido algumas vezes quando houve ordem de apreensão do jornal. “Quando eu sumia, o pessoal ligava para o Ceas, o Ceas ligava para dom Avelar Brandão, um cardeal nada progressista, mas que se sentia obrigado a defender os direitos humanos”. Ao ser liberado, Crisóstomo começava a sua própria via crucis: ia procurar dom Timóteo Amoroso, o progressista abade do Mosteiro de São Bento, representantes da OAB e o escritor Jorge Amado. “Ele era amigo de Antônio Carlos Magalhães, mas me recebia na sua casa e dizia: ‘em se tratando de liberdade de imprensa estou à disposição’”.

Salvador se tornou o principal polo de influência de Movimento para o Nordeste, dando apoio a outros grupos na região; mantinha contatos próximos com outras capitais, passando informações e trocando experiências, e ajudaria a organizar um encontro regional em Recife no início de 1978. Ali, Salvador se propôs a ajudar uma sucursal em Recife a “deslanchar”. Também se propôs a enviar alguém para Sergipe, Alagoas e até Belém. Crisóstomo relatou também à diretoria que alguns colaboradores de Alagoas já haviam escrito pedindo ajuda na estruturação de um grupo por lá, que tomaria força no começo de 1979, quando o líder estudantil Aldo Rebelo, ligado ao PCdoB, assumiria o posto de correspondente – um ano antes de se tornar presidente na UNE. Mais tarde, Aldo viria a ser vereador em São Paulo, várias vezes deputado federal, foi ministro no primeiro governo Lula e presidente da Câmara de Deputados.

O respaldo regional, bem costurado pela sucursal, se refletia em uma força interna que acabou fazendo de Salvador um dos mais fortes aliados de Raimundo e Tonico dentro da redação. A sucursal participava ativamente dos debates e disputas internas, organizando discussões entre a equipe soteropolitana e tirando posições que depois eram transmitidas à sede.

“São Paulo geralmente contava com a gente”, explica Crisóstomo.

Nós tínhamos uma convergência sobre a condução do jornal: ele tinha que ser amplo e fazer a cobertura com critérios jornalísticos. Chamávamos de “clube dos 50”, as pessoas que já sabem das coisas. E dizíamos: o jornal não é só para o clube dos 50, tinha que ser um jornal que você pudesse dar ao seu vizinho, à namorada, ao cara que você encontra no elevador do seu prédio.

 

RECIFE

Em Recife, esse trabalho de frente de apoio ao jornal, com grande ajuda do PCdoB, se ampliaria também. Em outubro de 1978, a convite de Barbosinha, Luciano Siqueira foi convidado a fazer parte da sucursal de Movimento na cidade. Com o tempo, graças ao seu grande poder de articulação, Siqueira tornou-se chefe de redação. Foi só então que se pôde fundar uma sucursal de fato. Figura conhecida na política local, Siqueira era militante desde a época de secundarista. Ligado à Ação Popular participou da resistência ao golpe de 1964, tendo depois passado quatro anos na clandestinidade, período em que entrou para o PCdoB. Quando foi parar em Movimento, estava saindo da prisão. Na ocasião, Raimundo Pereira viajou pessoalmente ao Recife para, em um debate público, marcar a instalação da sucursal. “O jornal se converteu aqui no Recife num polo de debates e de aglutinação de pessoas que participaram da resistência à ditadura militar”, diz Siqueira, que, além de coordenar as colaborações e escrever matérias, enviava toda semana, por telex, um resumo do que acontecia na região.

Em 1979, a sede mudou-se para uma sala mais ampla, na avenida da Boa Vista, uma das principais da cidade. A partir de então, toda segunda-feira havia um encontro para leitura e discussão da edição da vez, que reunia até 20 colaboradores. “A sucursal ficava aberta, mas funcionava mais ativamente da boquinha da noite em diante, quando as pessoas saíam do seu trabalho e marcavam encontro ali, porque sabiam que ia ter gente tratando de política”, lembra Siqueira. A equipe também promovia debates mais amplos, com personalidades da cena política local, abordando temas relevantes da conjuntura nacional. Iam intelectuais, artistas, políticos do MDB. “Isso ajudava a nos relacionarmos com o mundo político de Pernambuco, arrecadando apoio ao projeto do jornal. Além disso, esse entrosamento ajudou a me reintroduzir na cena política”.

Luciano usava sua influência para angariar assinaturas entre parlamentares do MDB e até empresários progressistas.

Eu indicava uma lista de personalidades que deveriam ser visitadas pelo vendedor e telefonava para a pessoa para ver se ela se sensibilizava. Intelectuais, jornalistas, artistas, empresários que colaboravam com o MDB, gente da academia e da universidade sempre tinham interesse na leitura.

A relação com o setor progressista da Igreja Católica também era forte, mais diretamente com a Comissão de Justiça e Paz e a Ação Católica Operária. “Além deles, ex-presos políticos que estavam ‘soltos’, isto é, sem militância organizada, encontravam no Movimento de alguma maneira uma oportunidade de participar da resistência política”, explica.

Ao mesmo tempo, Luciano usava o trabalho em Movimento para rearticular o PCdoB no estado, destroçado pela repressão em meados da década de 1970. “Quando saí da cadeia, a direção nacional me deu a tarefa de reorganizar o partido, eu fiz isso concluindo o curso de Medicina e trabalhando com o jornal. Ali nós desenvolvemos um trabalho amplo e plural, mas paralelamente isso ajudou também a reconstruir o PCdoB. Reiniciamos o partido com três pessoas – eu, o jornalista Marco Aurélio Albertim e o economista Reginaldo Muniz; todos do Movimento”, diz ele, que anos depois se tornaria vereador, deputado estadual e vice-prefeito de Recife pelo PCdoB. Assim, quando Miguel Arraes retornou do exílio em 1979, compareceu à sede do semanário, que lhe fez uma recepção.

 

ACRE

Não foi só o PCdoB que ajudou na reestruturação de Movimento após o “racha”. No Acre, nesse período, o jornal desenvolveu um trabalho notável, iniciado por um militante do PCB, o sociólogo Pedro Vicente Costa.

Costa foi assumir um posto de delegado regional do Sesc e Senac em Rio Branco, em meados de 1978. Antes, já havia ajudado a formar o grupo de apoio às vendas do jornal em Natal, no Rio Grande do Norte. Ex-estudante de Sociologia, ele levara o núcleo de vendas para a sede da Associação dos Sociólogos do Rio Grande do Norte, quando assumiu a presidência. Para ele, o semanário foi fundamental para engajar os estudantes potiguares. “Antes, a gente tinha um pequeno jornalzinho mimeografado que circulava no diretório acadêmico. Mas agora tínhamos um tabloide que veiculava matérias relevantes, de fundo, sobre a conjuntura nacional”. Anos depois, essa mesma vanguarda estudantil estaria na linha de frente da campanha pela eleição direta para reitor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Ufrn). “Foi uma projeção natural”, avalia.11 Desde então, a Ufrn elege seus reitores de maneira direta.

Em Rio Branco, Movimento acabou colaborando com um dos mais importantes movimentos sociais do fim da década de 1970, o dos seringueiros, tendo entre seus vendedores o próprio líder Chico Mendes. Pouco depois da mudança, Costa mandou uma carta à redação propondo fundar um grupo de apoio no município, então com cerca de 90 mil habitantes. Segundo o relato, as bancas locais ainda ofereciam exemplares do mês anterior. “Os assinantes, coitados!, quando recebem o jornal é com dois ou três meses de atraso”.

Assim, havia uma “necessidade urgente” de fazer Movimento circular regularmente, “superando o descrédito aqui reinante”. O núcleo de apoio, form-do por ele, José Moreira e Saulo Petean, se encarregaria de distribuir o jornal nas bancas e encetar uma campanha de assinaturas, podendo também enviar colaborações. Petean, um ex-militante do PCdoB em São Paulo que fora para a Amazônia por orientação do partido, trabalhava então na Funai, e já havia entrado em contato com o semanário ao escrever uma Cena Brasileira sobre os índios kuikatejês e paracatejês do sul do Pará. “O pessoal do PCdoB dentro do Movimento, o Barbosinha, já me conhecia e me recebeu bem”13, lembra ele, que depois passaria também a tirar fotos para a agência F-4, parceira do jornal.

Embora estivesse longe de tudo (“Estamos aqui no Acre com relativo isolamento do resto do país. A exemplo podemos citar o atraso até com relação ao fuso horário”, dizia uma carta), o Acre vivia uma época de fortes mobilizações sociais. De um lado, a aceleração da ocupação da Amazônia promovida pela ditadura havia levado à organização os trabalhadores rurais, em especial os seringueiros, que resistiam à ocupação predatória da terra, à exploração dos trabalhadores e à violência patronal. De outro, a igreja, liderada pelo bispo progressista dom Moacir Grecchi, apostava nas comunidades eclesiais de base, promovendo debates e cursos de formação que estiveram na raiz daquelas organizações sociais.

Rio Branco tinha seus próprios jornais progressistas, como o Nós, irmãos, um jornal mimeografado, ligado à teologia da libertação, lido nas missas católicas; e o Varadouro, jornal mensal, voltado para as questões locais e para a luta dos trabalhadores, que chegou a imprimir 7 mil exemplares.

Movimento, mesmo tendo chegado pelas mãos de um grupo de “forasteiros”, acabou conquistando uma parcela da classe média – em especial, professores universitários e artistas teatrais ligadas ao Sesc –, frequentadores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e trabalhadores rurais. Costa explica que “enquanto o Varadouro era de denúncia, mais específico, Movimento era mais bem elaborado do ponto de vista teórico, era um jornal orientador”.

Na época, havia duas bancas de revistas em Rio Branco. Saulo Petean buscava de ônibus os exemplares, que a princípio eram estocados na salinha do Sesc antes de irem às bancas. No começo eram enviados, além dos exemplares dos assinantes, 20 jornais a mais. Com o tempo, o número chegaria a 200. Pouco depois, a sede da distribuição passou a ser a redação de Varadouro. Essa foi uma característica da imprensa alternativa, era um canal muito solidário, todos estávamos ameaçados pela ditadura e fazer jornal sempre era um risco. Então tanto Movimento como outros jornais a gente recebia e distribuía para outros lugares”, lembra Elson Martins14, ex-editor de Varadouro.

Pedro Vicente Costa saiu do grupo, mas antes procurou um jovem professor universitário, Paschoal Muniz Torres, para assumir a coordenação. Vindo de Recife, onde também ajudara nas vendas de Movimento, Paschoal era dirigente do PCdoB no Acre e coordenava a pastoral da periferia.

Eu tinha entrada em pastorais, circulava com as lideranças, ia bastante para Xapuri... Tinha uma pessoa da igreja ali, o padre Claudio Perani, que tinha uma relação muito próxima com o Chico Mendes. Ele ajudava a distribuir em Brasileia e fazia essa ponte com os trabalhadores.

Junto com a esposa Sueli Freitas, a mesma que fora vendedora do jornal em São Paulo e se transferira para Recife, Paschoal tentava ainda de modo incipiente organizar o PCdoB na cidade. A aproximação com Chico e seu irmão Raimundo Mendes data dessa época. “Chico Mendes veio na minha casa várias vezes”, lembra Paschoal, que na época promovia grupos de estudos e articulação. “A ideia era compreender todo o processo político que estava acontecendo naquele momento”, explica Sueli.

Durante os encontros, que incluíam ativistas e professores universitários, discutia-se textos teóricos, marxistas, mas também artigos retirados de Movimento. Chico Mendes se tornaria vendedor de Movimento, buscando exemplares cada vez que ia a Rio Branco para redistribuir em Xapuri. Quando ele mesmo não ia, um pequeno pacote, com 20 a 30 jornais, era enviado de ônibus para a sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade. Lembra Elson Martins:

O Chico Mendes foi uma pessoa que sempre valorizou muito a mídia para a luta dele. Ele se interessava por tudo que era de esquerda, tinha uma formação de esquerda. Então se ofereceu pra vender Varadouro, o Movimento e mais tarde também a Tribuna da Luta Operária (jornal do PCdoB).

Saulo Petean lembra o entusiasmo com que Chico Mendes se apresentou durante uma exibição de teatro no Sesc.

Ele disse: “sou eu que distribuo o jornal em Xapuri. Acho muito bom o jornal, o que eu vejo ali são exemplos da luta dos trabalhadores de outros lugares. Isso dá uma sensação de fortalecimento pra nós, a gente vê que não está sozinho...”

Um ano antes de ser assassinado (22 de dezembro de 1988), Chico Mendes relembraria a importância de Movimento em uma carta enviada à Fundação Ford:

Foi a partir do nosso conhecimento com o companheiro Saulo Petean, já como jornalista e repórter-fotográfico da agência F-4 de fotojornalismo, morando no Acre desde 1977, que a gente começou a se entrosar mais na causa da organização dos seringueiros para fazer frente ao jugo da escravidão e exploração impostas pelos patrões e a voracidade do capitalismo em destruir a Amazônia, através do trabalho que fizemos juntos como correspondentes e distribuidores do extinto semanário Movimento da imprensa alternativa da década de 70. Se, por um lado, nós já tínhamos algum nível de informação sobre a nossa região, ele foi ampliado a partir dos levantamentos feitos pela equipe de Movimento sobre a Amazônia, da qual a F-4 fazia parte e nós também, que começamos a amadurecer mais essa luta do dia-a-dia e adquirir mais conhecimentos.

 

TENTATIVA DE “POPULARIZAR”

Logo depois do fim da censura, com o aumento das vendas, o jornal pode contratar reforços: Hamilton Almeida Filho (HAF), Mylton Severiano e Sérgio Fujiwara, profissionais experimentados. O jornal mudou de cara, causou polêmica e agradou uns, desagradou outros. A disposição inicial era que fossem aprimorar sua forma, com mudança de títulos, paginação, texto. Assim, Myltainho voltou a trabalhar ali, dessa vez de maneira fixa, como redator.

Diz Sérgio Fujiwara:

Não tínhamos um projeto gráfico exatamente. Mudamos as fontes dos títulos, passamos a valorizar as imagens e a edição final principalmente. A páginas eram pensadas e trabalhadas em função do conteúdo editorial, com a participação direta dos editores de fechamento. Trabalhávamos muito na concepção de primeira página do jornal.17

De acordo com Armando Sartori, essa foi a primeira tentativa “profissional” de dar um trato visual mais chamativo:

Trabalhar com um cara como Serginho, ver ele trabalhar e resolver graficamente as coisas é um puta privilégio, é um senhor profissional, você vê como é que o cara faz, como ele pensa, começa a resolver os problemas, você vai aprendendo.

Logo a influência se estenderia ao conteúdo, tornando o jornal mais impactante, mais “popular”. “Penso que conseguimos o objetivo, as capas eram vistosas nas bancas, mas como todo jornal em banca, o que vende não é só o visual. As manchetes e as pautas eram muito boas”, comenta o editor de arte.

A primeira edição em que Sérgio Fujiwara aparece no expediente é a 168, de 15 de setembro de 1978. A manchete da capa era “Escândalo no Planalto”, denúncia de corrupção nos altos postos do governo. A edição 171, cuja manchete foi “Geisel num mar de lama”, iria custar um processo a Tonico Ferreira, diretor responsável. Nessa capa havia mais impacto: a metade inferior dela estampava uma foto de HAF pendurado num pau de arara, para mostrar como era esse instrumento de tortura.

Sérgio Fujiwara puxa pela memória:

A ideia pintou das conversas na redação, nos bares. Era simples: como é esse tal pau de arara, todo mundo fala, mas nunca ninguém mostrou, a imprensa nunca deu uma foto. Por que a gente não faz uma produção e fotografa? Quem? O HAF disse: “é melhor que seja um repórter, pra ele descrever o que acontece”. Bem, o melhor repórter que tínhamos era ele mesmo. E assim foi feito. Marcamos o dia, ou melhor, a noite de seção de pau de arara, ali mesmo na redação. Precisamos de uma barra de ferro, cordas, dois cavaletes. Quem vai pendurar o repórter? Já que é pra ser feito é melhor que sejam os amigos. Bem, nesse dia eu e Myltainho penduramos o nosso amigo no pau de arara e outro amigo, Amâncio Chiodi, fotografou. A Mônica Teixeira também participou da cena. A seção foi bastante rápida, a vítima não aguentou muito.

Foram cinco minutos, contados no relógio.

Seguiu-se uma sucessão de reportagens de impacto, como a da investigação do sequestro de dois exilados uruguaios em Porto Alegre. A manchete de capa da edição 186, de 22 a 28 de janeiro de 1979, era “Sequestro: descobrimos tudo!”. A matéria vinha assinada por HAF e Myltainho. Foi criticada pelos exageros, a começar pelo fato de que não haviam descoberto tudo. Membros da equipe, aliados e leitores, que já vinham reclamando dos excessos “sensacionalistas”, tornaram-se ainda mais críticos. O argumento de defesa era de que essa linha de matérias deveria promover o aumento das vendas do jornal. Mas nem isso vinha ocorrendo, as vendas haviam voltado a cair.

Armando Sartori resume o sentimento de boa parte dos integrantes do jornal. “No caso do pau de arara, de alguma maneira, acho até que é uma coisa que valia a pena, é um tipo de escândalo que se justifica porque é uma denúncia muito clara”, diz ele, o primeiro cotado para subir no pau de arara. “Mas aí, entra uma fase, que os escândalos do governo Geisel começam a minguar, porque aquela dissidência militar vai se acertando”.

Para ele, havia ali também um outro tipo de visão gráfica sobre o jornal, era uma coisa mais escancarada, era diferente de Movimento. O jornal era muito mais contido do que isso aí. Mas ficou uma coisa mais parecida com o (jornal) Ex. E aí junta não só a parte gráfica como a parte do texto para provocar as discussões. Era uma coisa diferente do que o Movimento fazia.

O nome de Sérgio Fujiwara já não apareceu no expediente na edição 193, de 4 a 11 de março de 1979. No fim de fevereiro, os três profissionais haviam deixado a equipe, depois de 5 meses e meio de colaboração. Raimundo Pereira lembra de HAF atravessando a rua, dizendo em voz alta: “não quero saber de Gruex, Gumex, sei lá!...”

 

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Capa da edição 226 de 29, outubro de 1979. Desenho de Jayme Leão

 

O sobe e desce das finanças

Em maio de 1977, depois de quatro meses com balancetes positivos, o jornal voltou ao vermelho, apresentando prejuízo de quase 100 mil cruzeiros. O problema se agravou nos quatro meses seguintes e, em setembro de 1977, o capital disponível – que era de 250 mil cruzeiros em 30 de abril – estava novamente negativo: menos Cr$ 194.423,20 segundo as anotações de Raimundo.1 O “racha” havia repercutido nas contas do jornal.

No balanço geral de 1977, as vendas em banca caíram de uma média de 10.244 exemplares por edição (1976) para cerca de 7 mil, atingindo apenas 4.525 em setembro com a apreensão da edição 116 com a capa “Constituinte com Liberdade e Anistia” . E permaneceram abaixo dos 5 mil exemplares até o fim da censura prévia, em junho de 1978. A venda das assinaturas também caiu de uma média mensal de 1.000 no primeiro quadrimestre de 1977 para 738 no segundo, subindo ligeiramente no terceiro trimestre, para 752 assinaturas vendidas. Com isso, o ano fechou com um capital disponível negativo de 400 mil cruzeiros, atingindo o recorde negativo em fevereiro de 1978: menos 600 mil cruzeiros!

Ainda assim, novamente Movimento resistiu. A explicação? Mais uma vez a esferográfica de Raimundo aparece sob a curva que mostra a queda de vendas entre maio de 1977 e junho de 1978: “sustentação política grande! Mobilização”. O que abrangia diversos aspectos – do aprofundamento da democracia interna, reforçando os laços dos que ficaram no jornal , inclusive dos acionistas, que, por sua vez, novamente aprovaram um aumento de capital de Edição S/A,3 à busca do apoio externo entre as forças políticas que compreendiam Movimento como instrumento no enfrentamento à ditadura.

A participação dos editores de Movimento em palestras e debates por vários estados resultava em novos colaboradores e leitores, além de servir para denunciar a censura a que o jornal estava sujeito. Entre outras iniciativas surgiu a ideia de realizar um grande show musical para arrecadar fundos. Chico Buarque, com sua sempre presente solidariedade e prontidão, e que jamais recusou apoiar o jornal e receber com manifestações de amizade o seu pessoal, atendeu a um pedido de Raimundo. Não só aceitou participar, como conseguiu reunir os artistas populares mais expressivos do País, como Elis Regina, João Bosco, Fafá de Belém, César Camargo Mariano, Gonzaguinha, Macalé, Ivan Lins, entre outros. O show aconteceu no ginásio do Corinthians em São Paulo. Realizado em 13 de dezembro de 1977, nono aniversário do AI-5, o espetáculo “Somos todos iguais esta noite” foi apresentado como uma manifestação “em apoio a Sombras (associação de músicos) e à imprensa independente”.4 A coordenação era de Fernando Peixoto, editor de Cultura do jornal, e a produção da Difusão, a empresa promotora de espetáculos de Sergio Motta. O show trouxe grande emoção para o público, mas rendeu pouco dinheiro, pelo menos é o que lembra Tonico Ferreira:

O Raimundo falou com o Chico Buarque, e o Chico armou uma reunião para chamar os artistas. Aí, tudo foi organizado pelo Serjão – porque a gente não tinha tempo, estava fechando o jornal – ele alugou o ginásio, fez os bilhetes, a venda de bilhete, o anúncio no jornal, tinha anúncio na rádio, organizou o palco, a luz, o som... tudo isso foi o Serjão que arrumou, a turma dele. E deu prejuízo. Aí, ele comeu o prejuízo, eu acho. O Serjão acho que engoliu o prejuízo.

A injeção de apoio e capital, no entanto, resolvia apenas a situação imediata. Felizmente, para todos, 1978 acabaria sendo um ano muito melhor. Em março a queda das vendas em bancas e assinaturas começou a ser superada, tendência que se ampliaria com o fim de quase três anos de censura prévia.

Se a censura prévia não tivesse sido retirada do jornal em junho de 1978, interrompendo a queda das vendas e aliviando a exaustão dos seus integrantes – à aquela altura com salários atrasados e uma média de doze horas de trabalho por dia –, provavelmente a história de Movimento teria acabado ali.6

O gráfico desenhado por Raimundo mostra o crescimento contínuo das vendas em banca de junho de 1978 ao início de 1979, com um salto inicial de 5 mil para 10 mil exemplares em julho/agosto e uma curva ainda mais acentuada depois – quando Raimundo anota “sustentação comercial”, sinalizando que finalmente o jornal atingira o ponto de equilíbrio, perseguido desde seu lançamento. Foi também nesse momento que Movimento – Sergio Motta com ênfase – se engajou na campanha de seu colaborador, Fernando Henrique Cardoso, que concorria por uma sublegenda do PMDB ao Senado. Em outubro de 1978, as vendas subiram para 15 mil exemplares, alcançando o patamar dos 20 mil exemplares no início de 1979, marca que só havia sido atingida uma única vez na história de Movimento, na primeira edição.

Embora essa evolução nas vendas tenha garantido a sobrevida do jornal, do ponto de vista financeiro a situação ainda estava longe de ser confortável, por três motivos: primeiro, a venda de assinaturas e as vendas diretas não acompanharam a alta nas bancas, permanecendo estáveis; segundo, o prejuízo acumulado entre fevereiro e junho de 1978 era maior do que a recuperação econômica representada pelas vendas: as dívidas com bancos e fornecedores, além dos salários atrasados em setembro, ainda superavam as receitas acumuladas, como escreveu Motta na “Avaliação da execução financeira de abril a setembro de 1978”:

Sob o ponto de vista econômico, somente começamos a operar no equilíbrio a partir de julho, com o aumento significativo das receitas de vendas em banca; entretanto, esse aumento foi absorvido pelo permanente estouro da despesa em todo o período; assim, na execução financeira de 78, temos um prejuízo acumulado de Cr$ 537.502,49, (R$306.000,00)7 o que explica não só as dificuldades de caixa como o fato dos recursos que entraram em integralização de capital não terem melhorado a posição do disponível negativo”.

O terceiro motivo foi a pressão para aumentar os salários – que desde julho de 1975 perdiam valor real todo mês – bem como para aumentar o investimento na qualidade do jornal.

Na comunicação do Gruex (Grupo Executivo do Conselho de Direção) aos membros da Sociedade dos Colaboradores, de 29 de setembro de 1978, propõe-se uma elevação de mais de 100% no teto salarial para os editores, subeditores e chefes de departamentos de 6 mil cruzeiros (R$ 3.400,00) para 15 mil cruzeiros (R$ 8.500,00), além de aumentos significativos para repórteres e correspondentes (os funcionários que recebiam menores salários haviam sido poupados da deterioração salarial e, portanto, ganhariam apenas a reposição da inflação). Também se sugeria contratações de pessoal para a redação e departamento de vendas e um reajuste do preço do jornal de 33%, para cobrir a inflação.

A previsão orçamentária para outubro e novembro já levava em conta esses aumentos – embora em escala menor do que o pretendido –, mas, ainda assim, o Balanço de Edição S/A para outubro e novembro de 1978 abria com a informação: “Nós gastamos muito mais do que havíamos previsto para nossas despesas operacionais. No bimestre, gastamos 300 mil cruzeiros (R$ 162.000,00) a mais do que fixamos em outubro”. O interessante é que boa parte dessa despesa se deu em função do salto de venda em bancas, o que obrigou aumentar também a tiragem: “só nesse item, gastamos no bimestre 160 mil cruzeiros a mais do que o previsto”. “Por outro lado”, assinala o mesmo balanço, “o desempenho das receitas básicas no bimestre foi melhor do que o previsto: vendemos 290 mil cruzeiros a mais do que fixamos em outubro. Esse superávit deveu-se somente ao aumento das vendas em banca, que superou as metas de 365 mil cruzeiros (R$ 200.000,00), pois a venda de assinaturas ficou 74 mil cruzeiros abaixo da meta e a venda direta ficou Cr$ 1 mil abaixo”.

O comentário a seguir mostra também que, mesmo sem censura prévia, Movimento continuava a perder dinheiro com apreensão de edições: “O desempenho de venda em banca poderia ter sido bem melhor ainda se a edição 177 não tivesse sido apreendida; somando a receita provável dessa edição, nós poderíamos ter tido um superávit de 555 mil cruzeiros (R$ 300.000,00) nas bancas”. Prejuízo que pretendiam recuperar com a venda de bônus realizada para compensar a apreensão da edição 177, e que só seria computado no mês de dezembro: “O resultado da venda de bônus foi muito bom (…); o Paulo, que coordenou muito bem essa operação, apresenta o total arrecadado: 140 mil cruzeiros”. Ainda assim, não havia motivo para comemorar: “Esses números confirmam que no bimestre nem ganhamos, nem perdemos. Isso é ruim, porque indica que, apesar dos significativos aumentos na venda em banca, nós não conseguimos diminuir o disponível negativo. Permanece, assim, a empresa em precária situação financeira”, concluiu Tonico, que assinou o balanço com data de 15 de dezembro de 1978.

Mas as vendas em bancas continuavam a crescer, e, com as despesas controladas, o balancete de janeiro de 1979 apresentou lucro de Cr$ 180.533,75. Se isso estava longe de cobrir o disponível negativo de 650 mil cruzeiros (R$ 341.000,00), acumulado até o final de 1978, era o suficiente para prever um cenário alentador no restante do ano, que seria animado pelas greves que se espalhavam pelo País e pela pressão popular por liberdades democráticas, culminando com a promulgação da Lei da Anistia, em agosto de 1979.

A situação econômica de Movimento, porém, era, como sempre, crítica. As vendas em banca, que voltaram a cair em março, estavam novamente no patamar dos 10 mil exemplares, provocando uma queda de receita que novamente poria o jornal em risco. Apesar de inúmeras tentativas de reverter esse quadro, incluindo a busca por financiamento de fundações estrangeiras e novas chamadas de capital, Movimento fecharia 1979 com um endividamento de mais de 2 milhões e meio de cruzeiros, algo como 785 mil reais em 2011.

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Capa da edição especial “Constituinte”, agosto de 1977

 

A campanha pela constituinte

Após o “racha” de abril de 1977, ficou mais fácil direcionar a pauta do jornal para ampliar a divulgação da bandeira da Assembleia Constituinte. A necessidade de sua convocação tinha uma história e era apoiada por muitas forças. Depois do golpe militar de 1964, a primeira referência a favor da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte havia sido feita em 1966, pelo PCdoB, em documento do Comitê Central.1 Em 1967, na declaração do seu Sexto Congresso, o PCB também propôs uma Assembleia Constituinte. Em 1971, numa reunião em Recife, os “autênticos” do MDB encamparam uma proposta dos deputados Chico Pinto e Jarbas Vasconcelos pela Constituinte, que acabou aprovada apesar da resistência da cúpula do partido. A “Carta do Recife” foi em seguida tornada pública em discurso do deputado Freitas Nobre na Câmara Federal, propondo, pela primeira vez, legalmente, a Constituinte. Essa proposta ficou esquecida num canto do programa do MDB apresentado ao público nas eleições de 1974. Mas após o golpe contra o Congresso representado pelo Pacote de Abril de 1977, a cúpula do MDB aceitou debater o tema com suas bases. O próprio Tancredo Neves, um dos mais conservadores dirigentes do MDB, quando Geisel decretou o recesso do Congresso, admitiu que não via outra saída para o partido “senão abraçar a bandeira da Constituinte”.

No jornal Movimento o tema da Constituinte apareceu pela primeira vez na edição de nº 25, de 22 de dezembro de 1975, num Ensaio Popular intitulado: “A Constituinte é uma posição justa? Viável? Agora? Quando?” Não era ainda uma proposta de ação, mas de um debate. Durante todo o ano de 1976, o jornal praticamente não abordou o tema, provavelmente porque naquele período não havia unidade na equipe para isso.

A edição 83, em 31 de janeiro de 1977, trouxe uma entrevista do jurista liberal Aliomar Baleeiro, ex-membro do Supremo Tribunal Federal, que apoiara o golpe de 1964, mas havia se desencantado com o regime militar: “Seria bom convocar uma Constituinte”, era o título da matéria em que ele defendia também a revogação da legislação de exceção. Na edição seguinte, o jornal publicou um longo artigo sobre os 30 anos da Constituinte de 1946.

Na edição 95, de 25 de abril de 1977, vésperas da reunião que levaria ao “racha”, o jornal noticiava que, na reunião da Executiva do MDB, em Brasília, “pela primeira vez em sua história, a direção do partido admitia ‘em documento, abraçar a luta pela convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, como saída para o atual impasse institucional’”. Dizia ainda: “Segundo a nota oficial distribuída após a reunião, o MDB deverá ‘consultar as bases partidárias e outras forças representativas da sociedade nacional’” para a deflagração da campanha com esse propósito. Em seguida, o jornal deu início a uma longa série de reportagens, artigos, entrevistas sobre a Constituinte, que se estenderia por 39 matérias, publicadas em sequência, no intervalo das 50 edições seguintes, isto é, ao longo de um ano, até a edição de nº 145, de 10 de abril de 1978.

Em agosto de 1977, também foi lançado por Edição S/A, a editora do jornal, um caderno especial, intitulado “Constituinte”, com 40 páginas, recheado de depoimentos e artigos de 25 representantes da oposição, intelectuais, deputados, jornalistas, religiosos e estudantes. Nomes como Aliomar Baleeiro, Jorge Amado, Fernando Henrique Cardoso, Mario Schemberg, Marilena Chauí, dom Angélico Bernardino, Therezinha Zerbini, Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos, Octavio Ianni, Florestan Fernandes e outros. Esse caderno, que teve várias impressões e alcançou tiragem de 40 mil exemplares, era vendido separadamente do jornal por todo o País, repercutiu e deu bom resultado financeiro. Por ser vendido em separado, pôde escapar da censura. E serviu de instrumento de divulgação da campanha pela Constituinte que o jornal apoiava.

O tema da Constituinte chegou à grande imprensa e ao Congresso, provocando debates acalorados, como o do senador Marcos Freire com dirigentes da Arena, em abril de 1977.3 E logo foi assumido pela Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, então presidida por Raymundo Faoro. Em 11 de agosto de 1977, era lançada a “Carta aos Brasileiros”, redigida e encabeçada pelo professor Goffredo da Silva Telles e assinada por centenas de personalidades dos meios jurídicos e acadêmicos do País. A carta, que encontrou grande repercussão, advogava, entre outros, “o direito de ter um Poder Executivo limitado pelas normas da Constituição soberana elaborada pela Assembleia Nacional Constituinte”. Um mês depois, 14 de setembro de 1977, a primeira grande vitória da campanha: a convenção nacional do MDB, sob forte pressão de inúmeros diretórios regionais, consagrava a Constituinte como sua principal bandeira para a democratização. A edição 116, de 19 de setembro de 1977, trazia um título que ocupava a capa inteira: “Constituinte com liberdade e anistia” e uma grande matéria que registrava a convenção, divulgava a nota oficial e historiava a luta por essas bandeiras dentro do MDB. Destacava o pioneirismo de Chico Pinto e Jarbas Vasconcelos, e o resultado como “vitória da obstinação” dos dois. Mas o público jamais iria conhecer essa edição. O jornal foi apreendido, como já mostramos no capítulo sobre a censura.

 

PROPAGANDISTAS

Raimundo Pereira, Marcos Gomes, Sérgio Buarque de Gusmão e Tonico Ferreira estavam entre os diversos jornalistas de Movimento que se tornaram divulgadores da Constituinte. Em campanha aberta, eles realizaram centenas de palestras nesse período, a convite de faculdades, diretórios estudantis, centros de debate populares, viajando por todo o País. Mesmo quem saiu do jornal, mas não discordava da tese, como João Batista dos Mares Guia, da sucursal de Belo Horizonte, também refere que se tornou um conferencista da Constituinte, fez inúmeras palestras em viagens por Minas Gerais.

Tonico Ferreira se refere a esse ativismo da equipe:

E tinha outra coisa muito interessante, também: nós nos metemos em todos os debates que você pode imaginar, na época. Tudo tinha... Eu conheci o Brasil, porque eu debati no Brasil inteiro. (...) Anistia, Constituinte, todos os temas polêmicos... se a anistia era restrita ou não, recíproca ou não; Se era a Constituinte assim ou assado, se não era Constituinte, tudo isso era debate... E, como já estava começando a surgir um certo movimento estudantil (...) Então, como é que você fazia política naquela época? O cara convidava: “vamos fazer um debate”. Então, sempre tinha: “Vamos chamar alguém do jornal Movimento”, o Raimundo ia, mas, quando ele não ia, ia eu...

Embora as vendas do jornal não estivessem indo bem entre o segundo semestre de 1977 e o começo de 1978, o prestígio de Movimento entre os vários setores da oposição era crescente. O jornal e seus integrantes eram respeitados nos meios oposicionistas e insistentemente procurados para debates. Raimundo Pereira lembra que a campanha da Constituinte foi muito bem recebida porque estava afinada com vários setores da sociedade:

Era o programa do grupo Autêntico, também. A questão da Constituinte, que está por trás disso... O que é a ideia da Constituinte? A gente precisa desmantelar os atos de exceção, anistiar e formar uma assembleia, pra discutir o País, reformar o País. Isso é que pode juntar todo mundo, né? E isso tinha já discussão em 1972, já rolando uma oposição; não era uma novidade. Então, é, tipo assim, propor isso ao Chico Pinto é juntar o queijo com o macarrão. (...) E o Alencar Furtado, (que foi para) o Conselho Editorial”.

Tonico ainda se diverte com as situações inesperadas que encontravam nas viagens:

Pagavam as passagens. A gente ficava na casa de alguém que... do cara que vendia o jornal, né? Tinha um cara interessante, na Bahia, o Crisóstomo (...) (Ele era) duro, tão duro, que quando eu cheguei lá em Salvador, ele foi me levar na casa dele, era num bairro de periferia, quando nós chegamos, era uma casa totalmente destruída, ainda tinha um bêbado na frente, tivemos que afastar o bêbado para entrar... era umas coisas assim inacreditáveis, mas eu adorava isso, essa era uma parte boa, eu adorava fazer parte disso.

A mudança de posição do grande empresariado frente ao regime já não parecia fantasia de “analistas equivocados”, como havia escrito o economista Guido Mantega poucos meses antes. A Folha de S.Paulo passava a dar destaque a artigos de Luis Carlos Bresser Pereira, professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getulio Vargas (FGV). O economista falava em nome pessoal, mas era diretor dos Supermercados Pão de Açúcar, uma empresa da grande burguesia, e iria repisar a tese da democratização. Por exemplo, em 5 de julho de 1977, no texto “Do que ter medo”, ele dizia:

A partir do momento em que, para a grande maioria da burguesia brasileira, a aliança com a tecnoburocracia estatal em torno de uma proposta autoritária de governo deixou de ser política e economicamente justificada, acelerou-se o processo de perda de legitimidade do sistema vigente. Para a classe empresarial torna-se hoje cada vez mais urgente a restauração de um sistema democrático, em que se institucionalizem os sistemas de acesso ao poder e de tomada de decisão (...) Não é difícil, portanto, prever que essa classe, que não apenas detém o poder econômico, mas também a hegemonia ideológica, tenda a se unir às demais forças democráticas do país para reconduzi-lo ao estado de direito (...) Há muitas propostas e especulações a respeito, entre as quais a convocação de uma Constituinte parece a única em princípio aceitável...”

Pouco depois, Marcilio Marques Moreira, banqueiro, vice-presidente do Unibanco e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), dava entrevista:

A democracia não é um objetivo longínquo e diáfano que somente poderá ser alcançado depois de preenchidos requisitos econômicos e sociais, ao contrário, é caminho que tem de ser trilhado, desde agora, pois é na prática que se constrói dia a dia o regime democrático.

E a IV Conferência da Conclap – das chamadas Classes Produtoras, reunindo a nata do grande e médio empresariado, realizada em São Paulo em setembro de 1977, também invocou a necessidade de liberdades democráticas para a retomada do desenvolvimento.

No mesmo ano, o movimento estudantil se reorganizava e reerguia a UNE e as entidades estaduais. No meio operário, os metalúrgicos do ABC se levantavam contra a política de arrocho salarial, acompanhados por outros trabalhadores.

 

GEISEL DERRUBA FROTA

Esse despertar para o debate político crescia, não por coincidência, enquanto se avolumavam os sinais de dificuldades internas do regime militar. No segundo semestre de 1977, o governo de Geisel se via envolvido em conspirações que debilitavam suas bases. Dizia-se que os militares estariam divididos em três tendências: os defensores do endurecimento do regime e da candidatura do general Sylvio Frota à presidência; os seguidores de Geisel, defensores de uma institucionalização do regime com algumas concessões quanto às leis de exceção, defensores da candidatura do general Figueiredo. E um terceiro grupo, que se dizia nacionalista e pró-democratização, à procura de um candidato e, talvez, de uma aliança com setores civis. O senador Magalhães Pinto insinuava sua candidatura à Presidência. Documento apócrifo circulara no gabinete presidencial referindo-se às divergências no Alto Comando do Exército: (...) “Há comentários generalizados de que o noticiário feito pela imprensa, atingindo a oficialidade e mesmo os sargentos, poderá levar a um divisionismo das Forças Armadas, em particular no seio do Exército.”6 O que estava em questão era a sucessão presidencial. Parte da caserna não aceitava Figueiredo, e Frota tentava se impor como alternativa.

A censura impediu que o jornal Movimento retratasse em suas páginas essa evolução dos acontecimentos, mas sua equipe acompanhou de perto os desdobramentos, notadamente Chico Pinto e Teodomiro Braga. Ainda em 5 de setembro, na edição 114, Teodomiro, num jogo sutil de negaças com o censor, repetia a velha frase de que “há mais coisas no ar do que os aviões de carreira”, para falar da iminência de um golpe. Citava as três candidaturas, de Frota, Figueiredo e Magalhães Pinto para afinal apresentar o que chamou de “saídas mais arrojadas, como deixou claro o deputado mineiro Sinval Boaventura: ‘Continuo preocupado, receoso do que venhamos a ter de pagar, para manter o Brasil no rumo certo, preço desnecessariamente elevado’”. Sinval era o porta-voz da extrema direita e do frotismo no Congresso. Estava anunciando o golpe.

Um mês depois, em 12 de outubro, por meio de ação fulminante, articulada com um dispositivo militar montado pelo general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, Geisel trouxe para o lado do governo ou imobilizou os principais comandantes do Exército. O presidente, adiantando-se ao golpe de Frota, o demitiu.

Em um longo documento dirigido a seus ex-comandados, e publicado na íntegra na grande imprensa, Frota exibiu seu inconformismo. Mas sobretudo expôs suas ideias, um pensamento político retrógrado, raramente visto em letras de forma, e que coincidia com os textos dos panfletos anônimos dos grupos terroristas das Forças Armadas. Num exemplo de irrealismo delirante, assim retratava o governo Geisel: “Já implantaram

o capitalismo de Estado, que é o tirano da economia; a continuarmos assim, virá mais breve do que muitos esperam, o comunismo – o tirano das liberdades”.

Com mais de 50 anos de participação em golpes militares, o general Geisel pusera em prática sua larga experiência e venceu. Mas os alicerces do regime, tanto no plano civil como no militar, estavam irremediavelmente trincados. A equipe do jornal ainda aproveitou a crise para ampliar contatos e conquistou preciosas fontes de informação entre os militares. O que seria de grande valia nos episódios seguintes da luta política a partir de junho de 1978, quando a censura prévia sobre o jornal seria suspensa.

Como balanço desse período ressalta o grande impulso que Movimento dera ao tema da Constituinte, em matérias e debates, apontando a saída possível para a democratização. Mas, como dissemos, a Constituinte não era consenso dentro da oposição popular. E um dos que não apoiava tinha muito futuro. Na edição 123, de 7 de novembro de 1977, o jornal publicava uma entrevista de Luiz Inácio da Silva, o Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, a mais promissora nova liderança operária:

...tenho me manifestado meio contrário à Constituinte (...) já existiram três constituintes no Brasil. E a classe trabalhadora sempre ficou do mesmo tamanho. Isso porque a Constituinte sempre é formada pelas elites e pouquíssima gente está preocupada com a classe trabalhadora (...) uma Constituinte de elite não tem valor para a classe trabalhadora (...) Ela tem que impor o rumo e não imporem a ela esse rumo. E hoje, se abrem uma Constituinte, tenho certeza absoluta que a classe trabalhadora não estaria preparada para participar (...) Se depender de mim, a classe trabalhadora de São Bernardo não será instrumento...

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Capa da edição 209, 2 de julho de 1979. Desenho de Jayme Leão

 

A campanha pela anistia

A proposta da Constituinte sempre esteve associada, para muitas correntes da oposição, com as da anistia. “Constituinte com liberdade e anistia” era o grande lema oposicionista, que defendia que a redemocratização do País só se poderia fazer com liberdade, ou seja, com a revogação de todos os atos e leis de exceção, a começar pelo AI-5, e com uma anistia ampla, geral e irrestrita, para que, do processo político de convocação da Constituinte pudessem participar todos os que tinham sido punidos pela ditadura.

Em Movimento, no entanto, o tema da anistia demorou a aparecer. Não por descuido dos jornalistas. A luta pela anistia teve início praticamente ao mesmo tempo em que surgia o jornal. Em março de 1975, oito mulheres, reunidas ao redor de uma mesa, em um casarão do elegante bairro do Pacaembu, em São Paulo, decidiam levantar a bandeira da anistia aos perseguidos pela ditadura. A reunião se deu na casa de Therezinha Zerbini, esposa do general Euriale Zerbini, cassado e preso por ser leal ao governo do presidente João Goulart, ela mesma também uma vítima, que passou pelo inferno da Oban e cumpriu pena no presídio Tiradentes.

Therezinha tomou a iniciativa de lançar o Movimento Feminino pela Anistia, coletando assinaturas de mulheres por todo o País. Ao fim de seis meses, a campanha havia reunido 20 mil assinaturas de mulheres “insuspeitas” – mães, religiosas, donas de casa – que afirmavam através de um sucinto manifesto estar assumindo suas “responsabilidades de cidadãs no quadro político nacional”. Naquele mesmo ano, Therezinha Zerbini participaria da Conferência Mundial do Ano Internacional da Mulher, no México, onde iria denunciar violações aos direitos humanos no Brasil. Se a notícia não saiu nas páginas de Movimento (só escapou da censura um breve parágrafo sobre o MFPA na edição 5), não foi porque a campanha não interessasse aos seus leitores e jornalistas.

Estes, pelo contrário, eram em bom número candidatos à anistia. A começar por Raimundo Pereira, que em 1965 fora expulso do ITA pela sua participação em uma publicação “subversiva”. Até meados de 1979, quando foi promulgada a lei da anistia, Tonico Ferreira ainda respondia a processo com base na Lei de Segurança Nacional pela denúncia do “mar de lama” durante o governo Geisel – o processo só foi extinto depois da anistia. Duarte Pereira, que escrevia os Ensaios Populares, estava, ainda, na clandestinidade. Era a mesma situação de Carlos Azevedo, coautor deste livro, obrigado a escrever sob os pseudônimos de Tiago Santiago e Pedro Ferro. O colunista Chico Pinto, chefe da sucursal de Movimento em Brasília, tivera seus direitos políticos cassados e perdera o mandato de deputado federal do MDB em 1974, assim como o deputado federal Alencar Furtado, membro do Conselho Editorial do jornal – esse, em 1977.

Contudo, cobrir a campanha da anistia significava escrever sobre direitos humanos, tema terminantemente proibido segundo as diretrizes da censura: repressão, presos políticos, cassados, exilados. A censura vetou matérias sobre o lançamento de comitês pela anistia, um artigo com a opinião do jurista Dalmo Dallari sobre os exilados e até a opinião favorável do general João Figueiredo sobre a anistia aos políticos cassados, quando ele era candidato à sucessão.1 A primeira defesa da anistia, com destaque, em Movimento, foi no caderno especial sobre a Constituinte, de 1977 (os cadernos especiais não passavam pela censura). Um artigo de Therezinha Zerbini defendia a anistia, afirmando que a Constituinte deveria ser precedida “de uma anistia ampla e geral a todos que foram atingidos pelos atos de exceção”. Além dela, outros entrevistados também afirmaram que a anistia seria um passo fundamental para a Constituinte e a redemocratização, como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Hermes Lima e o jurista Dalmo de Abreu Dallari. Assim, aos poucos e combinada com outros debates, a luta pela anistia foi ganhando as páginas do semanário.

No mês do “racha” do jornal, abril de 1977, acontecia em Porto Alegre a primeira manifestação pública pró-anistia. A seguir, grupos de diversas regiões abraçaram a causa, transformando a comemoração de 1º de maio em um palco para levar às ruas a demanda. Os estudantes cariocas realizaram uma Semana de Direitos Humanos, e diversos DCEs coordenaram os “Dias nacionais de Protesto de Luta por Anistia”. Como no caso da Constituinte, a anistia também passou a ser tema frequente nos debates, geralmente organizados por estudantes, e dos quais participava a equipe do jornal.

 

INTERLOCUTORES DE PESO

Em 1978, a demanda por anistia passou definitivamente a integrar a vida do jornal, sendo até mesmo incorporada ao seu programa, que pedia “anistia ampla, geral e irrestrita”.2 Além disso, quando as notícias sobre o assunto na grande imprensa ainda eram esporádicas, a reboque dos acontecimentos, Movimento adiantou a discussão, passando a ter um papel ativo ao informar e estimular o debate com entrevistas de peso, artigos de opinião e furos noticiosos. A chamada de capa da edição de 9 de janeiro de 1978 anunciava: “Anistia, o início de um debate”.3 A reportagem de Igor Fuser, de meia página, detectava que a discussão ganhava espaço após declarações dos governadores de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, além do ministro do Interior, Rangel Reis. A edição seguinte trazia um histórico das anistias adotadas no passado.

Em fevereiro, quando já corria a notícia que o Ministério da Justiça estava estudando a revogação do AI-5 e a reformulação da Lei de Segurança Nacional, o semanário publicou uma contundente entrevista com Raymundo Faoro, presidente da OAB, que chamava a lei de “draconiana” e afirmava que reformá-la seria apenas “combater o arbítrio pelo arbítrio”. Faoro delineou a estratégia da OAB para a abertura, com clareza. O primeiro passo, dizia ele, seria revogar o artigo 185 da Constituição de 1969, que tornava inelegíveis aqueles que tiveram seus direitos políticos suspensos. “Uma vez removido tal artigo, partimos para a anistia”.4

No final de fevereiro de 1978, uma capa marcante anunciava o lançamento do Comitê Brasileiro pela Anistia, no Rio. O CBA, entidade fundamental na articulação da campanha, era formado por diversas organizações que já defendiam a anistia como maneira de unificar e fortalecer a luta. A capa de Movimento parecia exprimir esse mesmo esforço, ainda inicial: uma ilustração de duas mãos abrindo uma cerca de arame farpado.5 O evento de lançamento do CBA inaugurava uma das polêmicas que iria merecer especial atenção do jornal. No seu discurso, o general Pery Bevilacqua, atingido pelo AI-5 quando era ministro da Justiça Militar, afirmava que somente a anistia poderá conduzir ao restabelecimento da unidade moral do povo brasileiro, hoje dividido em revolucionários e não-revolucionários, vencedores e vencidos (...) Para haver equidade, a anistia deverá abranger todos os crimes políticos praticados por elementos de ambos os lados.

Em 3 de abril, quando chegou às bancas a edição 144, o leitor encontrou um editorial na segunda página, sob o título “Anistia Recíproca?”. O texto era categórico. Afirmava que a fala do general Pery Bevilacqua acendeu um debate que podia se constituir numa fonte de divisão entre os defensores da anistia. O jornal opinava, citando a advogada Eny Raymundo Moreira, presidente do CBA, que “não podemos falar em anistia para os acusados de práticas de torturas, porque tais crimes nunca foram punidos e não se pode anistiar quem não chegou a ser punido”. E concluía o jornal: “O objetivo da anistia não é o revanchismo, o que não significa devam ser esquecidos os atentados perpetrados contra os direitos humanos. Depois de apurados, se poderá decidir como proceder diante deles”.

Desde abril de 1976, a viúva do jornalista Vladimir Herzog, Clarice, pleiteava na justiça o reconhecimento da responsabilidade da União pela sua morte; era a primeira vez que isso ocorria na ditadura. O desenrolar do processo foi acompanhado pelo semanário, como pôde. Para uma publicação que não pudera dar uma linha sequer à época da morte de Herzog, foi possível dar cobertura aos novos fatos, e o jornal teve mais liberdade para noticiar a partir de maio de 1978 (quando os interrogadores de Herzog não compareceram perante o juiz para prestar depoimento). Isso prenunciava que a censura estava com seus dias contados.

O teor dos testemunhos levantados por Movimento era dramático. Na edição 151, a segunda página era tomada por um relato do jornalista George Duque Estrada sobre o que presenciou no DOI-Codi enquanto Herzog era torturado na cela ao lado. Ele viu, entre outras coisas, uma cadeira de dragão, um açoite e outros instrumentos de tortura, e ouviu gritos, ofensas e sons de agressões. Poucos meses depois, em uma reportagem no semanário, o jurista Goffredo da Silva Telles chamaria o caso Herzog de “escandaloso”. O governo seria condenado oficialmente em outubro de 1978, uma decisão celebrada nos meios de oposição e nas páginas do jornal.

 

DIREITOS HUMANOS

Essa condenação representou um avanço até então impensável na luta pelos direitos humanos e pela responsabilização do regime. Pela primeira vez o governo era chamado à Justiça comum para prestar esclarecimentos sobre uma morte ocorrida nos seus aparelhos de repressão. A partir de então, o jornal iniciava uma série de reportagens de denúncia que seria ampliada com o fim da censura, em junho de 1978.

Movimento podia, a partir de então, relatar o que se passava nos porões da ditadura e também a rotina de qualquer um que se opusesse ao regime. Essas reportagens deram um fôlego importante para o debate da anistia e da redemocratização. O jornal não perdeu tempo.

A edição 155, a primeira totalmente planejada sem censura, tinha na capa um retrato falado do “Capitão Ubirajara”7, sob a manchete “Retrato de um torturador”. Descrevia, através de relatos anônimos, diversas sessões de tortura lideradas pelo capitão e mostrava pela primeira vez a foto de Vladimir Herzog “enforcado” na cela do DOI-Codi. Na mesma linha, a edição 157 trazia uma reportagem sobre as vítimas da invasão da PUC, mostrando dramáticas fotos de três estudantes atingidas por bombas e que tiveram parte de seus corpos queimados.

As edições posteriores continuaram na mesma batida. A 164, por exemplo, narrava o caso do comerciário Jerônimo de Souza, de Fortaleza, que também fora “suicidado” no DOI-Codi e cuja esposa decidira buscar na Justiça a responsabilização do Estado. Outra matéria contava como o líder camponês José Porfírio, herói da luta de Trombas do Formoso, em Goiás, desapareceu em 1973, pouco depois de ser libertado da cadeia, quando tomava um ônibus para Goiânia.

 

O CADERNO DA ANISTIA

Em abril de 1978, Movimento lançou uma edição especial sobre a Anistia, com 48 páginas, um caderno à parte com tiragem de cerca de 5 mil exemplares. Um trabalho exaustivo, realizado por uma equipe especialmente contratada, coordenada pelo jornalista Mario Fonseca. A ideia partira também de Roberto Martins, ex-preso político, que se dedicava a pesquisar o tema para seu livro Liberdade para os Brasileiros - Anistia Ontem e Hoje, que seria publicado naquele ano. Relata ele:

O caderno ia dar abrangência nacional à campanha, até então só havia manifestações isoladas. E juntou desde a ação dos comitês de anistia no exterior – em Portugal, Paris, Itália – até depoimentos de cientistas famosos, de soldados, marinheiros, estudantes afetados pelo regime. E havia também a minha pesquisa histórica, mostrando que a anistia não era uma especulação fortuita, tinha raízes na história do Brasil.

Distribuído em uma dezena de retrancas, o caderno especial trazia a história da anistia desde sua criação na Grécia antiga até as anistias anteriores concedidas no Brasil. Historiava os esforços pela anistia, iniciados em 1964 e desenvolvidos pelo Movimento Feminino pela Anistia, a formação do CBA, Comitê Brasileiro pela Anistia. Trazia numerosos depoimentos com alguns dos principais atores da campanha – e muitos possíveis anistiados –, o marechal Teixeira Lott, Rômulo de Almeida, Alceu de Amoroso Lima, Darcy Ribeiro, Thiago de Melo, Therezinha Zerbini, Augusto Boal, Francisco Julião, Hélio Silva, Nelson Werneck Sodré, Antonio Callado, o general Peri Bevilacqua, Raymundo Faoro, Mário Lago etc.

Depois estimava “os que deverão ser anistiados” em mais de 500 mil pessoas, entre presos, demitidos, processados, cassados, aposentados compulsoriamente e outros. O caderno apresentava histórias pessoais de pessoas atingidas pelas leis de exceção, como o linguista Antonio Houaiss, diplomata demitido do Itamarati, e o capitão Sérgio Miranda, do Para-Sar da Aeronáutica, cassado por se recusar a cumprir ordens de promover atentados terroristas.

Havia uma relação nominal de todos os presos políticos cumprindo pena naquele momento no País, cerca de 200. E também uma relação de desaparecidos. Uma reportagem sobre os ex-presos que haviam cumprido pena, mas continuavam perseguidos. E outros textos sobre os exilados, como Darcy Ribeiro e Almino Afonso, e, ainda, a luta dos exilados pela obtenção de passaporte e o reconhecimento da nacionalidade de seus filhos, nascidos fora do País, em embaixadas hostis. Terminava com uma matéria sobre os 128 opositores políticos banidos, que viviam em sua maioria em Portugal.

Os colaboradores na Europa contribuíram bastante, como lembra o então correspondente do jornal em Paris, Alberto Villas. “Esse caderno de anistia que o Movimento fez, eles encomendaram muita coisa para a gente, tinha muita notícia. Foi quando tomamos consciência que tinha virado algo grande: nossa, vai ter um caderno especial da anistia!...”, diz ele, que recebia cerca de 200 exemplares do jornal por avião e os enviava para exilados brasileiros em diferentes países europeus. “Era uma esperança muito grande no ar, uma efervescência política enorme”.

No Brasil, as sucursais também se engajaram, conforma diz Roberto Martins, que, do Rio, ajudou a coordenar os trabalhos. Ele diz:

Mobilizamos todas as sucursais, em especial as maiores, para fazer entrevistas, reportagens sobre presos políticos, ex-presos, exilados, ex-exilados que já tinham voltado, perseguidos e cassados. Propusemos uma pauta bem ampla para as sucursais, e elas fizeram uma trabalho muito grande, superior à nossa capacidade de imprimir até. Acho que só aproveitamos 10% do material recolhido no Brasil e no exterior.

Lançada mais de um ano antes da lei da anistia, quando a campanha ainda se estruturava, a edição especial teve grande importância. “A repercussão foi muito boa. O caderno municiou os CBAs porque tinha um caráter amplo, deu voz a todo mundo. Os cassados, por exemplo, gostaram muito daquilo, porque começaram a aparecer mais e foram divulgadas as suas dificuldades. Os políticos do MDB também tiveram um bom instrumento para a discussão partidária”, diz Roberto Martins. “Foi um documento de mobilização”.

Para Luiz Eduardo Greenhalgh, que era diretor da seção paulista do Comitê Brasileiro de Anistia de São Paulo, a edição especial deu um impulso para as articulações.

A gente levava, distribuía nos comitês de anistia, nas comunidades de base, entendeu? E naquela época, a gente estudava. Eu me lembro que eu pegava essa edição e a da Constituinte e riscava, “isso aqui é importante”. Então, eu montava minhas palestras muito em cima disso.

Para ele, o jornal tinha o papel de aprofundar e qualificar o debate, ajudando a democratizar as ideias e “preparar os militantes, guarnecendo-os com argumentos”.

Assim, a defesa da anistia ampla foi sendo tecida nas páginas de Movimento. Também em abril, um fato aparentemente fora do contexto – a prisão em São Paulo do nazista Gustav Franz Wagner, conhecido como A Besta Humana – deu subsídios para a publicação criticar a tese da reciprocidade, ou seja, da anistia aos torturadores. Um mês depois, na edição 154, o rabino Henry Sobel avisava que “não há anistia para homens como Franz Wagner”. A chamada de capa é sugestiva: “Por que os nazistas não merecem anistia”.

Duas semanas depois, um editorial explicitaria mais abertamente o argumento. O texto, sem assinatura, dizia ser “indispensável” apurar os crimes contra os direitos humanos e punir seus responsáveis, uma vez que o aparato repressor continuava intacto.

Não podem ser perdoados os que, a serviço do regime ou em nome da oposição, se tais casos forem comprovados, torturaram a prisioneiros indefesos. Desde os julgamentos de Nuremberg que se fixou, no direito universal, a distinção entre atos de guerra e crimes contra a humanidade, para os quais não cabe invocar sequer a atenuante da disciplina militar e do cumprimento de ordens superiores.9

A lógica implícita é a mesma que algumas organizações de direitos humanos repetem hoje em dia: a impunidade aos torturadores permitiria a perpetuação da violência policial como método.

 

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Capa da edição 170, 2 de outubro de 1978

 

O apoio aos militares dissidentes

Em 1977, membros do grupo autêntico do MDB liderados por Chico Pinto, o chefe da sucursal de Movimento em Brasília, amiudaram os contatos com aqueles setores militares que se manifestavam em oposição ao governo e que se apresentavam como favoráveis a uma política nacionalista e à democratização. Na edição 101, de 6 de junho de 1977, um artigo assinado por Eduardo Neto, um dos repórteres da sucursal de Brasília, com o título “O MDB e os militares”, registrava esses contatos. Ouvia dois “autênticos” apoiadores do jornal, os deputados gaúchos Odacir Klein e João Gilberto, contava que uma reunião de mais de cem lideranças do MDB no Rio Grande do Sul propusera que o partido enviasse seu programa não só para o público tradicional de estudantes, intelectuais, religiosos progressistas e trabalhadores em geral, mas também para os militares. Dizia Klein, na reportagem:

Se o MDB se opõe ao modelo institucional e econômico vigente, deve procurar os outros setores da nação interessados na participação do povo nas decisões, como também na justa distribuição das rendas e preservação das riquezas nacionais. E se procura os setores civis, por que não procurar também os militares que comungam do mesmo ponto de vista, ou seja, os democratas e nacionalistas?

O artigo de Neto apoiava a proposta:

A curto prazo, não existe alternativa política para o país que não envolva a participação dos militares. E na história recente do mundo, mesmo na América Latina, não faltam exemplos de intervenções militares democráticas e nacionalistas, ao lado das antidemocráticas costumeiras.

Tentando evitar a interpretação de que estaria defendendo uma proposta golpista e cupulista, o texto complementava: “No entanto, a busca desses vínculos necessários com os militares não pode substituir a pregação oposicionista e a organização independente dos trabalhadores, estudantes, profissionais liberais etc.” Em especial, o artigo se opunha a que, para isso, se sacrificasse “as campanhas de mobilização popular, como a da convocação de uma Constituinte”.

Após a demissão do ministro do Exército, general Sylvio Frota, as articulações que se opunham à candidatura do general João Figueiredo, indicação do presidente Geisel, tomaram força ainda maior. O general Hugo Abreu, no comando da Casa Militar, mobilizara a tropa que em outubro de 1977 impediu o golpe de Frota contra o presidente. Porém, inconformado com a imposição de Figueiredo como sucessor de Geisel, demitiu-se do cargo. Na ocasião, apresentou ao presidente um documento, que iria ficar conhecido como “Relatório Hugo Abreu”, em que denunciava corrupção no governo, dando nomes de ministros como Mario Andreazza, dos Transportes, mas centrando a denúncia em Golbery, Heitor de Aquino e Humberto Barreto. Abreu foi somar com a oposição militar. Data desse momento sua aproximação com o jornal por intermédio dos autênticos do MDB.

O semanário era um porta-voz dos autênticos, o propagador de suas posições e um instrumento das articulações políticas que estes faziam buscando ganhar poder dentro do MDB diante dos moderados e adesistas do partido. Seus repórteres acompanharam de perto os entendimentos pelo lançamento do general Euler Bentes Monteiro como candidato do MDB à presidência da República. Considerado competente como administrador – fora superintendente da Sudene –, nacionalista, que se mantivera à distância da política de repressão da ditadura, o general Euler havia ido para a reserva pouco antes e despontava como alternativa.

Naqueles meses havia ocorrido uma romaria de políticos à sua casa. Desde o senador arenista Magalhães Pinto, que, apoiado pelos americanos, insistia em ser candidato a presidente, ao ex-ministro Severo Gomes e aos emedebistas Paulo Brossard, Roberto Saturnino, Franco Montoro etc. A todos Euler afirmava estar “identificado” com as ideias básicas da oposição, conforme contou Teodomiro Braga, driblando a censura, em extensa reportagem de Movimento.1

Fernando Henrique Cardoso acompanhou Severo Gomes numa dessas visitas:

Eu fui testemunha direta desse negócio (...) de repente, eu estava no Rio, Severo estava no Rio também e me disse: “o General Euler Bentes me convidou para ir à casa dele, você não quer ir comigo?”, eu e Severo fomos à casa do Euler, que morava em Copacabana, num apartamento relativamente simples, ele era um homem inteligente, simples. Era general da ativa (N. do E. havia ido recentemente para a reserva), quatro estrelas, ligado ao governo, ele disse que toparia ser candidato, foi a primeira vez que ele falou em ser candidato.

(...) Nós saímos de lá, Severo dava pulos de alegria. Ele foi para o hotel em que estava, eu vim para São Paulo, ele me disse: “Vai lá e fala logo com Ulysses”, eu fiz isso. Ulysses recebeu muito friamente a proposta, muito friamente...

Fernando Henrique lembra que o grupo dos autênticos do MDB estava muito ativo: “Chico Pinto, que era também... (de Movimento) foi lá, falou com Euler Bentes e lançaram Euler Bentes. E arrebentaram tudo. Aí, Ulysses ficou mais assustado ainda.”

Chico Pinto sempre cuidara de cultivar boas relações com os militares nacionalistas. Antonio Carlos Queiroz, o ACQ, lembra que ele era um político de tempo integral: estava sempre conversando, articulando, conspirando pela democratização com políticos e militares (...) Certas coisas que o jornal fazia em relação à oposição estava junto com Chico Pinto. Por exemplo, o Chico era um dos principais articuladores da campanha do Euler. Então, uma coisa que eu acho interessante é ver a história do jornal sendo conduzida pelos eventos que vão acontecendo, porque era um negócio extremamente rico: você estava ali, Constituinte, campanha da Anistia (...) dentro das questões não só do País como do mundo...

Pouco antes de seu falecimento, Chico Pinto lembrou o episódio da candidatura Euler, dando a entender que a iniciativa dessa aliança foi dos militares:

E aí uns militares, conversando comigo, disseram: “Por que vocês não lançam a candidatura de Euler Bentes?”. Sempre me queixava disso: “É preciso ouvir a voz de vocês”. Euler era nacionalista, mesmo quando estava na ativa, na Sudene. Esse oficial me disse (eu estava com Marcos Freire nesse dia): “Você quer conversar com ele?”. Vambora! (...) Ele estava na região dos Lagos (RJ), numa chácara. (...) Quando chegamos lá, encontramos o general, que nos disse: “Não adianta, vocês não podem me fazer candidato a presidente, vai depender da maioria do partido. O partido não vai aceitar”.

Na saída, pra ir embora, um soldado que fazia a segurança do general me avisou: “Tem gente aí fora, no portão, parecendo de jornal”. Ninguém sabia do encontro, só o coronel que estava com a gente. Quando íamos saindo, um flash: Jornal do Brasil! Furou. E publicou. O que fizeram? Primeiro, o pessoal do governo: “taí o general cercado de dois comunistas.” Ele no meio, e nós de um lado e de outro. A notícia prejudicou um pouco. Mas era inevitável.

Fernando Henrique acrescenta:

O Severo estava louco porque Ulysses não tomava decisão. Um dia Ulysses me chamou na casa dele, Campo Verde, aqui (em São Paulo) (...) ele ainda tinha certa formalidade comigo, falou: “Professor, quero saber a sua opinião. O que o senhor acha mesmo dessa história desse Euler?”, eu disse: “Olha, doutor Ulysses, vou ser franco com o senhor, eu acho que nós já atrasamos muito, devíamos ter lançado o Euler candidato há muito tempo.” “Mas por quê?” “É a primeira vez que há uma fratura dentro das forças armadas, isso é muito importante. Se nós queremos mudar as coisas aqui, ou fratura lá dentro, ou não muda. O bloco de poder é deles, nós não temos força”. Ele não gostou. Respondeu: “São Paulo é civilista” (...)Bom, aí sabe o que Ulysses me disse? Ele disse: “É, olha, vou dizer uma coisa: uma decisão dessa natureza é muito importante, eu tenho que tomar sozinho” (...) Ele mandava...

Para Teodomiro Braga, foi um grande momento do jornal:

Nessa candidatura do Euler Bentes, nós tínhamos, modéstia à parte, uma bela cobertura. Nós conseguimos cobrir militares dissidentes, da reserva ou da ativa em várias partes do Brasil. São Paulo, Mato Grosso, Brasília e Rio de Janeiro. (...) Nessa época, eu estive com vários militares em São Paulo, para fazer matéria, entrevistar. Tinha um coronel, em Brasília, que eu esqueço o nome (N.E. coronel Dickson Grael), da ativa, importante, que também deu muita informação (...)

A candidatura do Euler Bentes acabou com a hegemonia. (A base do regime) rachou, nunca mais uniu de novo e, na hora em que rachou, as pessoas passaram a não ter mais medo. Foi decisivo, na minha opinião. Do regime militar, o divisor de águas foi a candidatura do Euler Bentes.5

Teodomiro encara assim o papel de Movimento nesse processo:

Quando houve a dissidência do regime, nós acabamos virando um jornal preferencial (para os militares) (...) É, porque eles não tinham um canal para expressar as opiniões deles. Até me lembro que quando o general Hugo Abreu foi embora de Brasília, deu uma recepção na casa dele, para despedida. Nós estávamos fazendo uma entrevista com ele, eu e o Antonio Carlos Queiroz. Estivemos umas três ou quatro vezes com ele para fazer a entrevista, fizemos em várias etapas diferentes. A última vez em que fomos entrevistá-lo era nesse dia. Estava dando a entrevista para nós dois na antessala, e toda hora entrava um general fardado; eles foram à festa todos fardados. O general Hugo Abreu era muito espirituoso, na hora em que entrou um general dos mais importantes, ele brincou: “esses aqui são dois jornalistas subversivos”, e o Antônio Carlos devolveu na hora: “e esse é um general subversivo”. Isso no final, quando já estava nesse clima, no começo do fim do regime militar. Antonio Carlos (Tonico) Ferreira também testemunhou esses acontecimentos:

É, eu conversei com o Hugo Abreu, você acredita? Eu, esse moleque aqui, ia lá conversar com o Hugo Abreu. (...) O Teodomiro conversava muito com o Dickson Grael (...) (que) era um cara da Centelha Nativista (N.E. organização de militares nacionalistas) e que depois passou a ser contra o regime. (...) Eles foram os primeiros a tentar retornar à democracia.

Tonico estava sendo processado na LSN pela edição “Geisel num Mar de Lama”,6 que denunciou corrupção no governo. Ele conta que chegou a haver uma cooperação entre esses militares e o jornal:

Quando eu estava sendo processado, e a gente queria saber o que ia acontecer com meu processo, falaram assim: “Vai procurar o tenente-coronel Fulano”. Aí, fui lá conversar com um tenente-coronel da Centelha, ele falou assim: “Eu vou ver quem é que está no conselho que vai julgar você” (na Justiça Militar) (...) Ele disse que se fosse pelos caras, iam me absolver, porque eles tinham três votos dos quatro. Era um juiz togado e quatro militares. Eles tinham três deles, da oposição. Eram de direita que tinham virado para o outro lado.

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Capa da edição 154, 12 de junho de 1978. Desenho de Jayme Leão

 

A censura caiu: “Vencemos!”

A queda da censura que era exercida contra Movimento ocorreu em junho de 1978. Para a equipe foi um grande acontecimento, recebido com muita comemoração. Antonio Carlos Queiroz (ACQ) estava na redação em Brasília e foi quem recebeu a notícia por telefone: Aí, nós ligamos para São Paulo, demos a informação lá e, logo depois, os telefones ficaram mudos, entraram em pane. E eu tentando avisar as pessoas, avisar o Chico Pinto, os deputados, os amigos. Nós tínhamos um vizinho que era (de uma sede) dos Alcoólicos Anônimos. Eu me lembro dele, porque ele era completamente careca, e aí eu falei: “Olha, aconteceu isso e nós estamos sem telefone, cortaram o telefone”, ele: “Ah, usa aí, manda brasa”. Aí, usei o telefone dos Alcoólicos Anônimos...

Posteriormente, estou andando no setor comercial Sul, tínhamos saído para o almoço, e encontro as moças da censura andando por lá. Eu falei assim: “Mas meninas, e agora? O que vocês estão fazendo? Não tem mais trabalho?”, “Ah, mandaram a gente para outro canto”. Na verdade, a censura do jornal acabou, mas tinha outras...

Houve fogos de artifício e até champanhe, na sede do jornal e em algumas das sucursais. “Vencemos!”, dizia uma faixa na frente do escritório de Campinas. A edição 154, de 12 de junho de 1978, anunciaria, em grandes letras, em vermelho, na capa: “SEM CENSURA!”.

A edição 155, de 19 de junho de 1978, seria histórica porque foi a segunda publicada depois da queda da censura ao semanário, e a primeira para a qual houve tempo de ser bem preparada e que mostrava como o jornal podia ser melhor livre dela. A capa ficou dividida por duas manchetes de impacto: na metade de cima da página, “Retrato falado de um torturador”, sobre o “capitão Ubirajara”. Na metade de baixo, a outra manchete: “Nós vimos a greve por dentro”, reportagem de Raimundo Pereira, que conseguira entrar na fábrica da Caterpillar durante a primeira grande greve dos metalúrgicos de São Paulo.

Nessa mesma edição, Movimento abriu suas páginas para o debate sobre a candidatura do general Euler Bentes e a Frente Nacional pela Democratização. Em sua coluna, Chico Pinto defendia a Frente. Mas a esquerda no início mostrava desconfiança. Olívio Dutra, então sindicalista em Porto Alegre; Aurélio Peres, metalúrgico, líder do Movimento Custo de Vida e futuro deputado federal; Valdelio Santos Silva, estudante, presidente do DCE da UFBa, deram entrevistas ao jornal avaliando a proposta. O ex-deputado federal cassado e articulador político da oposição, Almino Afonso, perguntava: “os trabalhadores estão sendo ouvidos?” Em longo artigo, Raimundo Pereira reclamava pela explicitação do programa da candidatura. Perguntava: “Frente de quem? Contra quem? Pra quê? Para institucionalizar o atual regime ou para mudá-lo?”

Em convenção, realizada em junho, o MDB aceitava participar da Frente e lançar candidato à eleição indireta à Presidência da República, mas ainda sem escolher o candidato.

Na edição nº 159, de 17 de julho de 1978, o jornal noticiava: “Euler aceita a Constituinte”. O olho da matéria, assinada por Raimundo Pereira, dizia: “Sob o fogo dos que o consideram um exacerbado nacionalista, o general Euler Bentes Monteiro defende um governo de transição, o fim dos atos e leis de arbítrio, a anistia e a Constituinte”. No final de agosto, a convenção do MDB decidiu apoiar as candidaturas do general Euler Bentes para presidente e do senador do MDB, Paulo Brossard, para vice. O comício de lançamento da candidatura se deu em Olinda (PE) e reuniu 20 mil pessoas, segundo o jornal. Em seguida foram realizados comícios em São Paulo, Recife, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia e outras capitais reunindo milhares de pessoas, nos quais as palavras de ordem mais pronunciadas eram “anistia” e “Constituinte”.

Entrevista do líder sindical Luiz Inácio da Silva, Lula, na edição 160, de 24 de julho de 1978, destoava desse clima de animação. Ele achava que a Frente “foi criada de cima para baixo, ampla demais para o gosto dos trabalhadores que, entrando numa frente dessas, só têm a perder”. Lula propunha uma frente “com a participação de todos os trabalhadores e assalariados para que tomassem posição sobre o que seria uma democracia para os trabalhadores”.

O jornal promoveu um outro debate: “A ditadura acabou?”. Chico de Oliveira, que havia deixado o jornal no racha de abril de 1977, foi convidado e deu sua contribuição na edição 161, de 31 de julho de 1978, com o artigo “O regime se rearticula”, dizendo que “o calcanhar de Aquiles (da Frente) é o comando das oposições pelos liberais (...) o general Euler está aí para aparar uma tentativa de enfrentamento entre forças militares (...) basta saber ler os noticiosos dos jornais”. E defendeu a “organização das classes trabalhadoras para desmontar o regime autoritário...”

A capa da edição 163, de 14 de agosto de 1978, é um retrato do general Euler, desenho do diretor de arte Jayme Leão, com a manchete: “Presidente contra a ditadura?”. Na página 5, artigo de Raimundo Pereira afirmava: “a ditadura não acabou (...) A principal causa política da melhoria da conjuntura é exatamente o crescimento do movimento democrático, especialmente de sua ala popular. É preciso que prossiga”.

Os jornais da grande imprensa manifestavam sua ojeriza às propostas nacionalistas do general Euler e questionavam sua candidatura. Na edição 164, de 21 de agosto de 1978, Movimento apresentava o quadro “Quem está contra ou a favor da candidatura Euler Bentes”. Contra: Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, o sociólogo Chico de Oliveira, o deputado do MDB João Cunha, os jornalistas Mino Carta, Villas Boas Correia e Tibério Canuto. A favor: o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o ex-ministro Severo Gomes, o senador Teotônio Vilela, os políticos Lysâneas Maciel, Chico Pinto e Almino Afonso, o historiador José Honório Rodrigues, o jurista Goffredo da Silva Telles, os jornalistas Carlos Castelo Branco e Raimundo Pereira.

Nos quartéis, a oficialidade se dividia em tendências e conspirações, o fantasma do golpe estava no ar, reforçado por declarações do general João Figueiredo, candidato à Presidência apoiado pelo presidente Geisel: “As Forças Armadas, se necessário, podem voltar a servir a outros governos de exceção”, disse ele. Outra frase corria os quartéis e respingava na imprensa: “Euler, se ganhar, não leva!”.

Nas semanas que antecederam a eleição indireta, a tensão política se elevou. A candidatura do general Euler foi alvo de intrigas, ameaças e boatos, urdidas no Palácio do Planalto. O resultado da votação no Colégio Eleitoral, em 15 de outubro, porém, foi o previsível. Sustentado na maioria arenista, o general Figueiredo ganhou com folga, 355 votos contra 226 dados ao general Euler. Esse resultado, porém, não reduziu e até aumentou a inconformidade dentro das Forças Armadas, o que iria resultar num início conturbado do governo Figueiredo, com muitas manifestações de oposição por parte de setores militares. E até uma previsão, feita pelo general Hugo Abreu no começo de 1979: “Figueiredo vai cair dentro de um ano”, que jamais se confirmaria.

Movimento registrou essa situação incômoda para o governo, ressaltando seu isolamento político. Nas eleições diretas para a Câmara dos Deputados, realizadas em novembro de 1978, um mês depois da eleição indireta do general Figueiredo, a oposição da população se mostrou bem clara, pois o MDB alcançou 17 milhões de votos contra 13 milhões para a Arena. A oposição teve grandes vitórias nos principais estados e o MDB elegeu 189 deputados contra 231 da Arena. Todos os autênticos se reelegeram e novos deputados com alinhamento político semelhante foram eleitos, tornando mais combativa a bancada emedebista. A derrota do governo foi particularmente dura em São Paulo, Rio, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os maiores e mais importantes colégios eleitorais.

Em Movimento houve um motivo a mais de comemoração, a expressiva votação dada a Fernando Henrique Cardoso, que havia se candidatado por uma sublegenda do MDB ao Senado. Tinha sido uma candidatura muito apoiada pelo jornal, que abriu suas páginas para artigos e entrevistas de FHC. E também foi na gráfica de Movimento que foram preparados os seus impressos de propaganda, pagos, segundo o ex-presidente, por Sergio Motta. Este teve uma participação entusiasmada na campanha. Arregimentava artistas e com eles ia às caminhadas do candidato a portas de fábrica e bairros populares. FHC recebeu também apoio do dirigente sindical Luiz Inácio da Silva. Na votação, ficou em segundo lugar, depois de Franco Montoro, e na frente de Cláudio Lembo, candidato da Arena, o que lhe permitiu assumir uma cadeira no Senado a partir de 1983, quando Montoro renunciou para assumir o governo de São Paulo.

 

MAR DE LAMA

Com a liberdade recém-adquirida, a redação vivia um momento de entusiasmo. De uma semana para a outra, pôde publicar o que sempre quis e investir em reportagens que até então eram proibidas. Ao mesmo tempo, os escândalos de corrupção iam se avolumando.

Em Movimento, a enxurrada de denúncias era tratada com destaque, em uma série de reportagens e várias capas por edições a fio sob a retranca de “Mar de Lama”. As denúncias incomodaram, como mostra um informe do SNI ao Ministério da Justiça, de 10 de outubro de 1978, intitulado “A campanha de desmoralização do governo”.1 Segundo o informe, repetidas declarações do general Hugo Abreu sobre corrupção no governo haviam desencadeado tal campanha. Os exemplos mais “ilustrativos” seriam da Tribuna da Imprensa e de Movimento, este, com a reportagem “O nosso relatório Hugo Abreu, as acusações contra o Planalto”, da edição 170, de 2 de outubro. O documento listava em seguida uma série de instrumentos legais que poderiam ser adotados contra os jornais tanto pela Lei de Segurança Nacional quanto pela Lei de Imprensa. A pena mínima seria detenção por um mês, e a máxima por cinco anos.

Mas, aos olhos do governo, a gota d’água foi mesmo a edição 171, que trazia na capa a manchete: “Geisel num Mar de Lama”. Em 17 de outubro, oito dias depois da publicação, o ministro do Exército, general Belfort Betlhem, achou que já era demais. Enviou uma representação indignada ao ministro da Justiça, dizendo que Movimento estava intensificando uma campanha difamatória contra o Exército Brasileiro, procurando denegrir sua imagem diante da opinião pública, divulgando notícias falsas e tendenciosas, além de estimular a discórdia e incentivar a indisciplina, tudo com o ostensivo objetivo de provocar cisões nos nosso quadros.

Citava a série de reportagens sobre o mar de lama, anexando alguns exemplos, e requeria:

Por considerar que artigos dessa natureza são elaborados com a intenção de abalar a inquebrantável coesão e unidade existentes no Exército, e que se enquadram numa campanha de descrédito do Regime e da Revolução, solicito que V. Sa. tome as providências que bem determinar.

O ministro Falcão não perdeu tempo. No dia 19, enviou dois comunicados ao procurador-geral junto à Justiça Militar, Milton Menezes da Costa Filho, dizendo que o jornal estava agindo de maneira “irresponsável e leviana”, culminando com a “manchete insultuosa” da edição 171, e solicitou as providências “cabíveis” para responsabilizar o jornal, já que aquelas publicações extravasam o natural direito de crítica e o exercício da liberdade para penetrar a esfera do ilícito contrário à Segurança Nacional, que do ponto de vista da forma como são apresentados, quer sua substância intentar ferir o Governo, como instituição numa acusação gratuita de existência de uma corrupção generalizada.

Acima dele, anotado à mão, lê-se a resposta do procurador-geral: “formule-se o necessário expediente”.

A acusação contra Tonico Ferreira alegava que ele, como diretor da publicação, infringira os artigos 16 e 36 da lei de Segurança Nacional, por “reiteradamente” publicar “matéria altamente insultuosa” e “ofender a honra” das autoridades, crimes com pena prevista de até cinco anos de prisão. Argumentava que “a publicação Movimento fugiu aos parâmetros de opinião – sagrado – desenvolvida (sic) pela imprensa salutar, visando, apenas a desmoralização das autoridades governamentais”.

“O Geisel levantou a censura e resolveu usar a Lei de Segurança Nacional”, avalia Tonico, anos depois.

Eu fui ouvido lá na Auditoria Militar, na avenida Brigadeiro Luís Antônio (em São Paulo), e, depois, a outra sessão foi a das testemunhas de defesa. As minhas testemunhas foram o senador Paulo Brossard, o presidente da ABI que era o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, e mais um jornalista especializado em assuntos militares (Evandro Paranaguá, de O Estado de S. Paulo). Me lembro até hoje da sessão e tudo, estava já pra sair a sentença e eu ia ser condenado, por quê? Porque a Lei de Segurança Nacional tem um negócio lá, tem um artigo lá meio de lesa-majestade. Você não pode criticar o presidente do País, presidente do Senado, presidente do Supremo Tribunal Federal, independente de apresentar provas”.

Tonico enfrentou uma batalha no tribunal, que foi detalhadamente retratada nas páginas do semanário. No primeiro depoimento, em 13 de novembro de 1978, o diretor do jornal defendeu valentemente o teor das reportagens: “O governo insiste em continuar com a política de punir os denunciantes e os jornalistas que reproduzem as denúncias, enquanto os denunciados nada sofrem”.6

Pouco depois, o procurador Henrique Vaillati Filho juntou novas acusações com base nas edições 176 e 177, aditando a acusação inicial. Uma matéria criticava o aumento do número de juízes nos tribunais superiores:

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Edição 177, 20 de novembro de 1978. Corta Essa! Charge que serviu como acusação contra Tonico Ferreira na Justiça Militar. Chico Caruso.

 

Está diáfano que Movimento busca convencer seus leitores que o aumento do número de ministros e juízes foi feito com exclusiva finalidade de remendar uma situação de crise, transformando as mais altas cortes da Justiça da Pátria em grupos detíteres manejados com cordéis presos às mãos do Executivo.

Sobre outra matéria, que chamava o pacote de abril de “roubo”, a acusação seguia na mesma linha. Como o pacote foi um ato do presidente, a defesa dizia que, no entender de Movimento, Geisel era um ladrão. “Não é um insulto velado, mas claro, agressivo, tão violento que levaria qualquer pessoa a chamar seu autor perante os tribunais”. Finalmente, a acusação denunciava uma charge, na seção de humor da edição 177, em que uma urna aparecia esmagando um cavalo, ao lado do qual havia um par de óculos semelhantes aos usados pelo general Figueiredo, uma “ofensa à dignidade” do presidente eleito.

Foi essa mesma charge que rendeu um dos momentos mais descontraídos na audiência na 2ª Circunscrição da Justiça Militar em São Paulo, no dia 6 de fevereiro de 1979. Segundo relatou o jornal,8 a seção de humor chegou a arrancar sorrisos do Conselho Permanente de Justiça do Exército. O procurador Vaillati inquiriu: “Se não é o general Figueiredo que está ali embaixo dessa urna, quem é?” “O senhor procurador é um intérprete mordaz de nosso humor!”, respondeu Tonico. Para os chargistas que faziam a seção de humor Corta Essa! foi uma glória, como se viu no capítulo 5.

Na audiência, que se seguiria por sete horas, o senador Paulo Brossard defendeu a existência de corrupção no governo e o termo “roubo” para definir o pacote de abril; Barbosa Lima Sobrinho deu uma “aula” sobre imprensa livre, e Evandro Paranaguá reafirmou as cisões no Exército. No final, relatou o jornal, alguns dos juízes “cordialmente solicitavam dedicatórias e autógrafos” ao jornalista do Estadão num livro que este acabara de lançar.

O processo se arrastou e Tonico só se livrou dele com a anistia. Mas a verdadeira pena já havia sido imposta ao jornal. A edição 177, de 20 de novembro de 1978, a mesma que trazia a charge de Figueiredo sob um cavalo, fora apreendida, gerando um prejuízo de 190.300 cruzeiros (o equivalente a R$ 100.000,00 em 2011).

O tema não era a corrupção, mas as eleições parlamentares que deram maioria de parlamentares à Arena, mesmo com 6 milhões de votos a mais obtidos pelo MDB, por conta do sistema eleitoral que reserva mais vagas aos estados do Norte e Nordeste. Os votos a mais do MDB vinham do centro-sul do País. A manchete era: “Urnas exigem fim da ditadura”. Quando enviados à Editora Abril para serem distribuídos, todos os 26 mil exemplares foram apreendidos.

O prejuízo demandou uma campanha emergencial, com a impressão de 5 mil bônus com valor em aberto e não nominal, “para que as pessoas possam contribuir sem medo”. Um comunicado da redação orientava os vendedores sobre como encaminhar a campanha:

O apelo básico para a venda dos bônus será o rombo que o governo causou às nossas finanças. É preciso dizer que nós encaramos essa apreensão quase como um roubo. É como se um grupo de pessoas tivesse entrado na sede do jornal e roubado 200 mil cruzeiros do caixa. O objetivo é esse: tirar dinheiro do jornal. Na prática, eles roubaram os 26 mil jornais que estavam na gráfica; e nós não pudemos chamar a polícia porque foi a própria polícia que nos roubou”.

Para a direção, a apreensão foi decidida sem que o Ministério da Justiça tivesse sequer tomado conhecimento do conteúdo do jornal, que ainda não tinha ido para as bancas. Na PF, em São Paulo, ninguém soube explicar o motivo – deram a Tonico Ferreira e Luiz Eduardo Greenhalgh um “simples telex de uma linha e meia” com a ordem, sem qualquer justificativa. “O pessoal da Polícia Federal em São Paulo também não soube informar nada: ‘ordens superiores; nós só cumprimos ordens etc.’”, descreveu Tonico em carta aos assinantes.

Movimento resolveu impetrar um novo mandado de segurança no Tribunal Federal de Recursos. A alegação do Ministério da Justiça de que o jornal teria cometido “grave ofensa à honra e à dignidade do chefe de governo” e “propaganda e apologia” de atividades subversivas com alguns artigos sobre a guerrilha do Araguaia não convenceu. O mandado de segurança11 alegava que a “apreensão se deu sem o regular fornecimento do auto de apreensão”, e assim “desprovida de motivação sequer pode a impetrante adivinhar os motivos que a determinaram e o estatuto legal que a legitimaria”. Mas o procurador-geral da República decidiu que a ordem, apenas oral, “justificava-se, plenamente por se tratar de situação a exigir prontas medidas”.12 O mandado de segurança não foi acatado.

Para a diretoria, estava claro que a apreensão era “uma espécie de represália ao jornal por ele não ter baixado a crista após a abertura do inquérito”, segundo afirma Tonico na carta.

E, de fato, Movimento não se intimidou. Além de cobrir com detalhes todo o processo contra Tonico, abraçou o rótulo da “imprensa salutar”, usando o termo em inúmeros artigos.

Ora, por que o governo achava que Movimento não fazia parte da “imprensa salutar”? Foi o que perguntaram para o general dissidente Hugo Abreu, em entrevista publicada na edição 194, de 19 de março de 79.

“Salutar não vem de saúde? Então, é porque não faz bem pra a saúde dele”, respondeu o general.

A frase ficaria marcada na história do jornal, sendo usada em peças de propaganda ao lado da foto do general Hugo Abreu.13

 

O JORNAL ACOMPANHA DUAS FRENTES DE LUTA

Naquele momento, greves estalavam pelo País, 170 mil professores parados, assim como bancários, e também os metalúrgicos de Minas Gerais. O Movimento do Custo de Vida levantava 1 milhão e 200 mil assinaturas contra a carestia e levava-as a Brasília para entregar ao governo. Geisel não quis receber os militantes do MCV, recebeu-os o general Euler. Geisel baixou um decreto limitando ainda mais o direito de greve. Os sindicatos uniram-se e se manifestaram contra o decreto do presidente e a favor da Constituinte. As manifestações populares, por sinal, eram a grande novidade no cenário político do País. Entre maio e junho, alastravam-se greves dos trabalhadores nas fábricas, a começar do ABC, mas se estendendo a outras oito cidades da Grande São Paulo e do interior, delas participando mais de 40 mil operários. Ao mesmo tempo, em torno da candidatura do general Euler, surgia a Frente Nacional pela Democratização. O apoio dado por Movimento à Frente foi alvo de críticas dentro do jornal. Um exemplo delas foi a de Luiz Bernardes, novo chefe da sucursal de Belo Horizonte. Na entrevista para este livro, Bernardes disse que o jornal, embora tenha assumido uma posição correta no geral quanto à Frente e à candidatura, se comprometeu demais com a proposta pela via militar e com a posição dos autênticos, “por cima”, em detrimento da organização dos trabalhadores. Bernardes acha que essa falta de foco contribuiu para que o jornal fosse surpreendido pelo crescimento das lutas do movimento operário, as greves do ABC e outras lutas populares, e subestimou o papel estratégico delas para a democratização. Avaliação difícil de fazer. Os dois próximos capítulos talvez possam contribuir para ela.

 

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Jornal Movimento à venda nas ruas de São Paulo, 1978. Foto de Juca Martins.

 

Equipe da redação em 1975. Da esquerda para a direita, em pé: Elifas Andreato, Izalco Sardenberg, Flavio Aguiar, Ricardo Maranhão, Alcy Linares, Paulo Barbosa, Maria das Graças Rodrigues, Eduardo Mussi, Jota, Chico Caruso, Juca Martins. Sentados: Cecília Magalhães, Teresa Ferreira, Raimundo Pereira, Sérgio Buarque de Gusmão, Francisco Marsiglia, Flávio de Carvalho. Estão reunidos ao lado do “mesão” de trabalho do departamento de arte e diagramação Hora de “fechamento”. Em pé: Raimundo Pereira e Armando Sartori. Sentado, de barba, Alcy Linares.

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Parte da equipe de redação em 1976. Da esquerda para a direita: Marcio Bueno, Izalco Sardenberg, Sérgio Buarque de Gusmão, Bittencourt, Flavio Carvalho, Silvia Campolim, Luiz Bernardes, Cecília Magalhães (atrás de Bernardes), Chico Caruso, Paulo Barbosa, Raimundo Pereira, Eduardo Macedo, Tonico Ferreira, Maria das Graças Rodrigues, Flavio Aguiar, Maria Rita Khel, Teresa Ferreira.

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Junho de 1978. Alegria na redação. A equipe prepara a primeira edição após a queda da censura prévia. Da esquerda para a direita, Paulo César Rodrigues (diagramador), Marcos Gomes, Armando Sartori, Raimundo Pereira, Roldão Arruda, Sérgio Buarque, Chico (ou Paulo?) Caruso, Aurea Regina Sartori (revisora), Valdir Mengardo (revisor, encoberto), Sérgio de Oliveira (diagramador), Cid Oliveira (diagramador) e Juca Martins (fotógrafo, agachado)

 

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Raimundo Pereira entrevista operários da comissão de fábrica da Caterpillar, em São Bernardo do Campo. Outubro de 1978. Foto de Sandra Adams

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Documento de identificação de vendedor de Movimento. Na foto, Alvaro Antonio Caropreso. Validade: 1979

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Arquivo do jornal. Julio César Garcia (à esq.) e José Carlos Ruy. Foto de Amancio Chiodi

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Reunião de Marcio Bueno e Flavio de Carvalho com Jaguar e Ziraldo, diretores de O Pasquim

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Assembleia de reorganização do jornal no seu aniversário de cinco anos. O jornal na foto é a edição 264, de 21-27 de julho de 1980

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Votação na assembleia de reorganização do jornal no seu aniversário de cinco anos, em julho de 1980.

Entre os presentes, ao centro, de caneta na mão e óculos, Duarte Pereira. Atrás dele, Perseu Abramo

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Julgamento de Tonico Ferreira, diretor de Movimento, na segunda auditoria da Justiça Militar de São Paulo, em 6 de fevereiro de 1978. Foto de Sandra Adams

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Promotor apresenta como prova contra Tonico Ferreira uma charge do jornal (ver à pagina 208). Causou risos no tribunal. Foto de Sandra Adams

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Marcos Gomes e sua mulher, Elza, em viagem à Europa para negociar recursos de apoio ao jornal Assuntos. Chartres, França, janeiro de 1979

Cartaz de divulgação do jornal, colocado em bancas e outros pontos de venda, em 1978. Desenho de Jayme Leão

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O artista gráfico Alcy Linares prepara um desenho na redação

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O ex-deputado federal e membro do Conselho Editorial de Movimento, José Alencar Furtado, durante a entrevista concedida em 25/02/2010. Foto de Antônio Carlos Queiroz

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Ex-apoiador de Movimento, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em entrevista concedida em 10/02/2010. Foto de Clóvis Ferreira/Digna Imagem

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Movimento presente no protesto contra o assassinato do operário Santo Dias. Ele foi morto em 30 de outubro de 1979. Foto de Nair Benedicto. Reprodução do livro Santo Dias, quando o passado se transforma em História

 

Assuntos e o movimento contra a carestia

Em meados de 1977, o movimento popular começava a se articular, empurrado pelas vicissitudes resultantes de uma inflação galopante e do arrocho salarial. Nascia, na zona sul de São Paulo, o Movimento do Custo de Vida (MCV), um marco na organização popular da época, a partir do trabalho de base da Igreja Católica com as CEBs, a Juventude Operária Católica, os clubes de mães, em frente com partidos políticos como PCdoB, PCB, MR-8 e outros, questionando a alta nos preços, o achatamento dos salários e participando da oposição sindical aos pelegos. Também na zona leste e na zona norte (Freguesia do Ó), a organização comunitária se desenvolvia. Os metalúrgicos do ABC se manifestavam, sob a liderança de Luiz Inácio da Silva (Lula), que se tornaria conhecido nacionalmente ao liderar a campanha de reposição salarial daquele ano.

A direção de Movimento tinha um projeto de produzir uma revista de grandes temas e para essa publicação havia recuperado o nome de Assuntos. Entretanto, na conjuntura de aquecimento das lutas populares, e buscando maior aproximação com os trabalhadores, o projeto da equipe evoluiu para o de um jornal destinado a eles. Assuntos começou por ser uma seção, duas páginas centrais de Movimento compostas por notas e matérias curtas de fácil leitura, a partir da edição 70, de 1º de novembro de 1976. Tratava de lutas sociais e seus desdobramentos, perfis populares, bastidores da política e notícias econômicas rápidas.

“Não era fácil você pegar o jornal Movimento e distribuir em áreas populares. Era uma coisa muito pesada para quem não estava acostumado a uma leitura de jornal”, avalia Marcos Gomes.2 Além da busca de popularização por parte dos jornalistas de Movimento, Assuntos foi resultado do apoio de lideranças operárias ligadas à Igreja Católica, e de militantes da base do PCdoB, em especial da zona sul de São Paulo.

 “Queríamos um jornal mais simples pra fazer um trabalho de massa”, lembra Celeste Dantas3, ex-militante do PCdoB. Vinda da Bahia em meados da década de 1970, ela empregou-se em indústrias, para trabalhar na organização dos operários paulistas – primeiro em Santo Amaro e depois no ABC – e ajudar a formar bases do partido dentro das fábricas. “Achávamos que precisávamos de um jornal mais popular, na mesma linha do Movimento, mas com uma linguagem mais focada nos movimentos sociais”.

Segundo ela, duas pessoas foram importantes para a negociação que culminaria no lançamento do tabloide, Duarte Pereira, que tinha muitas relações com os católicos de esquerda, e Barbosinha, pelo PCdoB. “Todos nós tínhamos uma cota para distribuir, para manter o jornal financeiramente. Eu era responsável por três células partidárias que tínhamos no ABC”.

Jô Azevedo, jornalista católica ligada ao MCV, relembra:

A gente levava o Movimento para a base, eu levava 10 ou 12 exemplares toda semana, aí o pessoal começou a reclamar que era muito texto, as análises eram pesadas, a letra era muito miúda, todas aquelas reclamações bem de base mesmo... Começou um falatório desse tipo e aí o pessoal da redação – Raimundo, Flávio de Carvalho – falou: “o negócio é fazer um suplemento, o que vocês acham?” A gente topou na hora.

Em fevereiro de 1977, Assuntos, o “suplemento de artigos do jornal Movimento”, seria impresso pela primeira vez, com uma tiragem de 5 mil exemplares e pelo preço de 2 cruzeiros (R$ 1,95). Era um tabloide de 8 páginas com um resumo de matérias publicadas no semanário. Na sua pauta, a defasagem entre preços e salários, as condições de vida dos trabalhadores, o movimento sindical. Mostrava, por exemplo, como o custo de vida aumentava exorbitantemente a cada ano: de 1964 a 1977, o salário mínimo passou de 42 para 1.106 cruzeiros, enquanto o índice de custo de vida saltara de 54 para 2.542 cruzeiros.5 A situação ficou ainda pior porque o governo manipulou propositalmente o cálculo do custo de vida, que era tomado como base nos aumentos salariais anuais. Em 1973, a alta real da inflação havia sido de 26,68%, mas os dados oficiais registraram apenas 13,7%. Ou seja: os trabalhadores receberam um reajuste muito menor do que era necessário para continuar comprando as mesmas coisas.

Lembra Jô Azevedo:

A inflação comend